Impostos, afinal devem baixar ou não?

Acabei de ler um interessante texto enviado por um leitor ao blogue Abrupto do Pacheco Pereira.

Após a leitura do texto, digam-me, quem é o principal responsável por esta situação ?

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Várias têm sido as linhas que tem escrito deprecando a fealdade urbanística que vem desfigurando o nosso país. Lamento, no entanto, que poucas vezes se tenha abalançado a explorar a etiologia dessa maleita - que, contrariamente ao que se pensa, tem causas na Economia Política do nosso país e não na falta de bom-gosto ou bom senso. Tomo por isso a liberdade de lhe sugerir que debruce a sua atenção um pouco mais sobre o nosso desordenamento urbano. Permita-me que use como mote para o efeito a seguinte notícia, veiculada hoje nos jornais portugueses:

"O ministro da Economia foi esta semana a Grândola entregar o alvará de construção do projecto turístico da Herdade de Pinheirinho a Joaquim Mendes Duarte, presidente da Pelicano – Investimento Imobiliário SA, entidade promotora do empreendimento. (...) A história remonta a Novembro de 2001, quanto a Pelicano foi parte num contrato-promessa de compra e venda dos terrenos que integravam o lote n.º 31-17, com uma área de 412,85 metros quadrados, situado na Quinta da SAPEC, freguesia da Quinta do Anjo, concelho de Palmela. A Pelicano terá acordado vender os respectivos terrenos por 288 200 euros, com o preço a ser pago em dez prestações."

Este processo, na essência igual a todos os outros que estão na génese do nosso desordenamento urbano, exemplifica muito bem a Economia Política do nosso país. Não é apenas o sector urbanístico que está em causa: é toda a organização política e económica do país.

Na ausência de alvarás de loteamento e licenças de edificação, um terreno de uso estritamente agrícola naquela zona, não vale mais do que 1 euro por metro quadrado. Porem, como este exemplo bem ilustra, assim que é reclassificado de urbanizável, passa a ser vendido a 288200 €/412,85 m2 = 698,07 €/m2.

São 697 € de mais-valias urbanísticas por metro quadrado. Por outras palavras, são 1.394.000 CONTOS de mais-valias urbanísticas por hectare. Vá lá, se descontarmos uma generosa "área de cedência à administração pública" de 50% do terreno, sobra apenas das mais- valias a exígua bagatela de 697.000 CONTOS por hectare.

Este rendimento não é um lucro, pois não resultou do factor de produção trabalho. Este rendimento não é um juro, pois não resultou da assunção de riscos sobre o capital. Este rendimento é uma RENDA PURA gerada por uma decisão político-administrativa. O pedido de reclassificação de terrenos agrícolas em urbanizáveis é portanto uma clara e manifesta procura de rendas ("rent-seeking" activity). É uma forma de obrigar os cidadãos que procurem habitação a pagar ao promotor uma fortuna por um bem que ele não produziu (o solo) e um serviço que ele não prestou (a concessão de alvará).

Vale a pena recordar as palavras de Anne Krüger, economista pioneira no estudo da grande corrupção:

"If income distribution is viewed as the outcome of a lottery where wealthy individuals are successful (or lucky) rent-seekers [promotores de loteamentos, diria eu], whereas the poor are those precluded from or unsuccessful in rent-seeking, the market mechanism is bound to be suspect. (...) The perception of the price system as a mechanism rewarding the rich and well-connected may also be important in influencing political decisions about economic policy. If the market mechanism is suspect, the inevitable temptation is to resort to greater and greater intervention [criando PDMs, RENs, RANs, PINs, &c, diria eu], thereby increasing the amount of economic activity devoted to rent-seeking [pedidos de desafectação, revisão e suspensão de planos de ordenamento, diria eu]. As such, a political vicious circle may develop."

("The Political Economy of the Rent-Seeking Society", in The American Economic Review 63 (3), 1974)



É para evitar estes fenómenos que a constituição espanhola afirma, no seu artigo 47º
"(...) La comunidad participará en las plusvalías [mais-valias urbanísticas] que genere la acción urbanística de los entes públicos [por exemplo, reclassificando os solos e atribuindo alvarás]."

...E é por terem violado este preceito que em Espanha nos últimos meses tem havido literalmente dezenas de mandatos de captura de autarcas, funcionários públicos e promotores imobiliários. As políticas urbanísticas são, no país vizinho, discutidas com enormes frontalidade e seriedade, dedicando-se ao tema dezenas de colunas de opinião em todos os principais periódicos.

Entretanto entre nós, portugueses, graças a uma legislação escrupulosamente preparada para obnubilar a posse pública obrigatória das mais-valias urbanísticas, os milionários instantâneos que o nosso urbanismo produziu estão em liberdade, ostentando sem qualquer pudor as fortunas que conquistaram à custa do endividamento de todos e da pauperização dos cofres do Estado.

É por isso inútil apontar o dedo somente à empresa Pelicano: esta é apenas um exemplo particular de um fenómeno generalizado e legalizado. Todos os terrenos que foram loteados desde 1965 (ano da privatização dos loteamentos) permitiram essa mesma imoralidade, com todo o amparo e protecção dos órgãos legislativos,executivos e judiciais do Estado Português. Repito, todo o país sofre das mesmas patologias - a Herdade do Pelicano difere apenas por ser mais mediática. Revoguemos pois as Leis que permitem estes cancros.

Poucos tópicos de Economia Política merecem tanto consenso como a posse pública das mais-valias urbanísticas. Entre os seus defensores estão David Ricardo, Stuart Mill, Henry George e, mais recentemente (por surpreendente que pareça) Milton Friedman. Um dos seus defensores mais fervorosos de todos os tempos não foi senão Winston Churchill. Por todo o Ocidente civilizado se procede à sua posse pública, seja por proibição dos loteamentos particulares, seja por cobrança exaustiva de toda a valorização do terreno reclassificado. Em Portugal, nada.

Não obstante estas evidências, os loteadores portugueses que enriqueceram às custas destas mais-valias procuram desacreditar aqueles que se opõe a esta forma de enriquecer, acusando estes últimos de serem "extremistas" e "anti-liberais". É o cúmulo da
desinformação: fazer crer que é liberal uma política de solos que permite enriquecer sem trabalho, pedindo alvarás ao Estado e às Autarquias.

Consagrar a posse pública das mais-valias urbanísticas não é uma opção ideológica de Esquerda nem de Direita. É uma opção que foi tomada por todos os Estados modernos entre os quais, neste capítulo, Portugal não se inclui. É uma pré-condição básica para que o ordenamento do território seja economicamente eficiente, socialmente equânime, tecnicamente sustentável, e esteticamente harmonioso.

Por desconhecimento ou conveniência, os políticos portugueses e seus comentadores jamais debateram publicamente este problema, com rigor conceptual e precisão factual. Uma vez por outra, carpem o horror dos subúrbios. Esporadicamente surpreendem-se com o novo- riquismo dos promotores; espantam-se com a existência de contubérnios entre autarcas, dirigentes futebolísticos e promotores imobiliários; culpam disso o financiamento partidário e camarário, falhando grosseiramente o diagnóstico.
(Pedro Bingre do Amaral)
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citação:Originalmente colocada por pmct

isso das dividas irrisorias tem que se lhe diga.

se eu agora não me aptecer pagar mais o telemovel a empresa não me pode processar?

é bonito de se ver.

um estado chupoista como o nosso, ainda esta a arranjar forma de encobrir a sua incopetencia, e dos seus colaboradores, não cumprindo algo tão elementar como a justiça.

Talvez seja hora de criar uma empresa de capangas, para ocupar o mercado das pequenas dividas.
tipo a porrada, é muito mais giro.

Porque o lema é: vamos vender a qualquer um, depois se não pagarem, temos Estado para usar e abusar nas cobranças coercivas...

Imagina, tu vendes o teu carro e a 12 prestações a um pessoa que é imigrante, sem posses, não tem trabaho... VENDES?
 
citação:Originalmente colocada por zerorpm

citação:Originalmente colocada por pmct

isso das dividas irrisorias tem que se lhe diga.

se eu agora não me aptecer pagar mais o telemovel a empresa não me pode processar?

é bonito de se ver.

um estado chupoista como o nosso, ainda esta a arranjar forma de encobrir a sua incopetencia, e dos seus colaboradores, não cumprindo algo tão elementar como a justiça.

Talvez seja hora de criar uma empresa de capangas, para ocupar o mercado das pequenas dividas.
tipo a porrada, é muito mais giro.

Porque o lema é: vamos vender a qualquer um, depois se não pagarem, temos Estado para usar e abusar nas cobranças coercivas...

Imagina, tu vendes o teu carro e a 12 prestações a um pessoa que é imigrante, sem posses, não tem trabaho... VENDES?
e se tiver posses, e não for emigrante vendo.
e depois quem me garante que paga?
alem disso esse exemplo não é comparavel.
 
Mas vai ver as milhares de acções interpostas pela optimus, TMN e Vodafone, contratos de adesão por 24 meses... Celebrados com pessoas que sabe-se à partida que não vão cumprir...
 
Vendem, sabendo que não vão cumprir e metem uma acção, sabendo que o indivíduo não tem bens patrimoniais, sabendo que não vão obter nada...

E assim temos milhares de acções que tornam a justiça lenta, pois deviam estar fora dos tribunais...

E quando digo imigrantes, também existem milhares de portugueses a contrair dívidas que não vão pagar...

Era como aceitar o cheque... Só aceitamos um cheque de uma pessoa que confiamos... Mas não as pequenas empresas aceitavam os cheques só para vender e depois temos o Estado que cobra por nós...
 
citação:Originalmente colocada por zerorpm

Vendem, sabendo que não vão cumprir e metem uma acção, sabendo que o indivíduo não tem bens patrimoniais, sabendo que não vão obter nada...

E assim temos milhares de acções que tornam a justiça lenta, pois deviam estar fora dos tribunais...

E quando digo imigrantes, também existem milhares de portugueses a contrair dívidas que não vão pagar...

Era como aceitar o cheque... Só aceitamos um cheque de uma pessoa que confiamos... Mas não as pequenas empresas aceitavam os cheques só para vender e depois temos o Estado que cobra por nós...
épor isso que cada vez menos se aceitam cheques.
e tambem cada vez mais se pedem garantias bancarias e outras pra muita coisa.

mas eu propinho o seguinte.
que qualquer pedssoa possa consultar o historico bancario de outra assim sabemos quem pode pagar e quem não pode.
que te parece?


ou então que o nosso BI contse informação.

Cidadão de primeira pode aceitar heque e fazer contratos.

Restantes.
cidadão de segunda, não é confiavel:D
 
sempre que comprei carro paguei com cheque normal.
se querem querem se não querem azar, e não me conheciam de lado nenhum.
dviam ter recusado?
 
Porfírio,

O que eu questiono é a estratégias das empresas, como as de telemóveis, que só querem vender a todo o custo. Vender, vender, vender... Não interessa se o cliente pode pagar ou não...

E repara que as vendas são contratos de adesão de 24 meses... Se ainda fosse o toma lá dá cá...

Eu se estivesse à frente, diria aos meus colaboradores que, para contratos de adesão de 24 meses o cliente tem de apresentar folha de vencimento. Se um turista de passagem quiser um contrato longo, recusem a venda e tentem vender os pré-pagos.
Com isto, embora reduzisse as vendas, reduziria o crédito mal parado e as despesas de justiça... O que iria dar no mesmo,
 
citação:Originalmente colocada por zerorpm

...
Mas os nossos empresários querem é trabalho precário, com salários baixos... Não investem em investigação, em universidades, nas pessoas...

É triste...

Também é certo que o trabalhador portuguÊs não é famoso pela sua eficiência, mas está desmotivado...
...
És dos poucos que me fazes rir. Obrigado. ;)
 
citação:Originalmente colocada por Phoenix

Será que se começa a querer ver ?

Será que começa a haver interesse em penalizar quem pratica tais actos ?

Os indícios são mais que muitos, as conclusões é que pecam por ser normalmente poucas e invariavelmente nunca divulgadas.
Acho qu isto é mais "fogo de vista" que outra coisa.
 
citação:Originalmente colocada por Excalibur

citação:Originalmente colocada por Liberal

citação:Originalmente colocada por zerorpm

É isso mesmo Excalibur... A repartição de lucros, os dividendos... Os lucros da Banca são enormérrimos e no entanto as condições de trabalho que oferecem aos seus colaboradores são péssimas...

Zeropm: Olhemos por exemplo para a Banca. Eu também não entendo porque é que a banca paga menos IRC do que eu pago na minha empresa. De certa forma revolta-me. Mas fez a banca algo de ilegal ? Não, aí é que está. A banca usa mercanismos perfeitamente legais para pagar menos IRC. De quem é a culpa ? É da Banca ? Ou é do Estado ?

Outro exemplo. A justiça em Portugal não existe. Um bom empresário, que cumpre leis, paga os seus impostos e não passa dinheiro por baixo da mesa tem muitas dificuldades em concorrer com um "mau" empresário. De quem é a culpa da situação ? É dos empresários ? Ou é do Estado, apesar do tamanho que tem em Portugal, não é capaz de fornecer uma justiça, que é só o pilar de qualquer democracia ou economia ?

Está a chegar lá.

Se calhar os maus políticos só subsistem porque os maus empresários os alimentam e financiam para as suas eleições e re-eleiçõs.

Se calhar porque o mau empresário ciente da morosidade do Estado e do Aparelho prefere continuara a jogar pelo seguro e em vez de apostar num politico limpo e correcto prefere continuar a apoiar o politico corrupto e sem escrúpulos que o vai beneficiar com a aprovação de uma qualquer lei ou decreto.


E sim como muito bem diz esses maus empresários tem vantagens e competem de forma desleal com um empresario ou empresa correcta, mas não serão esses empresários que nos aparecem de forma mediática todos os dias nos nossos "media" a dizer que o estado os está a prejudicar ?

Nada como um bom show off para desviar atenções.

Isto é um circulo viciosos de muitos dependem para ficarem cada vez mais poderosos e absorventes da nossa econonmia.

[^] [^] [^] [^] [^] [^]
 
citação:Originalmente colocada por pmct

citação:Originalmente colocada por zerorpm

Mas os nossos empresários querem é trabalho precário, com salários baixos... Não investem em investigação, em universidades, nas pessoas...
Isso não é verdade, e mesmo que fosse a formação profissional é primeiramente uma função do funcionario.
Mas a marioa da grandes e medias empresas tem formação continua.
[:0]

Então os empresarios alegam que um salário minimo de 410€ é demais e ainda esperam que o funcionario pague a sua propria formação, já agora, os funcionarios podiam juntar-se todos e fazer uma vaquinha para comprar um carrinho novo ao empresario coitado (ou oferecer umas férias que ele anda muito esgotado), ou talvez uma maquina nova lá para a empresa para aumentar a produção?

Realmente, o problema de Portugal é mais grave, é um problema de mentalidade.
 
citação:Originalmente colocada por zerorpm

Também é certo que o trabalhador portuguÊs não é famoso pela sua eficiência, mas está desmotivado...
O mesmo trabalhador Português que nos países onde está, por esse mundo fora é famoso, exactamente por ser motivado, inventivo e eficiente?


citação:Originalmente colocada por zerorpm

Mas os nossos empresários querem é trabalho precário, com salários baixos... Não investem em investigação, em universidades, nas pessoas...

É exactamente esta a diferença.
 
citação:Originalmente colocada por Carlos.L

citação:Originalmente colocada por zerorpm

...
Mas os nossos empresários querem é trabalho precário, com salários baixos... Não investem em investigação, em universidades, nas pessoas...

É triste...

Também é certo que o trabalhador portuguÊs não é famoso pela sua eficiência, mas está desmotivado...
...
És dos poucos que me fazes rir. Obrigado. ;)

Já leste o meu relatório? Dá para rir?[:p]
 
citação:Originalmente colocada por zerorpm

citação:Originalmente colocada por Carlos.L

citação:Originalmente colocada por zerorpm

...
Mas os nossos empresários querem é trabalho precário, com salários baixos... Não investem em investigação, em universidades, nas pessoas...

É triste...

Também é certo que o trabalhador portuguÊs não é famoso pela sua eficiência, mas está desmotivado...
...
És dos poucos que me fazes rir. Obrigado. ;)

Já leste o meu relatório? Dá para rir?[:p]
Faço tenções de ler o teu relatório quando tiver tempo para lhe dar a atenção necessária. De modo algum iria fazer considerações em público.

Enfim.

Quanto ao meu realce de Universidade e Investigação no teu texto, é para evidenciar que deves fazer alguma confusão com os teus próprios pensamentos. Apenas isso.

Porque disparas em tantas direcções que acabas por não fazer sentido com o que dizes.
 
citação:Originalmente colocada por Nthor

citação:Originalmente colocada por Phoenix

Será que se começa a querer ver ?

Será que começa a haver interesse em penalizar quem pratica tais actos ?

Os indícios são mais que muitos, as conclusões é que pecam por ser normalmente poucas e invariavelmente nunca divulgadas.
Acho qu isto é mais "fogo de vista" que outra coisa.

Acho que infelizmente até pode ter razão.

Espero que ambos possamos estar errados.
 
Bem eu bem que não quero falar disto porque me chama de demagogo mas depois ... vejo isto

E a informação é preciosa para que não esqueçamos com quem estamos a lidar.

Pessoas sem escrupulos que não têm pejo em recorrer a ilegalidades.


A 1ª é então sintomática, UM BANCO com esquemas ... onde nem importava estar a lesar ex-trabalhadores da LANALGO, que certamente teriam encargos com instituições bancárias, e estavam em fase de recuperação dos seus créditos. [8]

Sintomático da selva !!!



Empresário e leiloeiros também acusadosQuatro funcionários das Finanças vão a julgamento no caso Lanalgo
16-12-2006 09h06 - Por Mariana Oliveira



O imóvel da Baixa de Lisboa foi vendido por 450 mil euros, nove vezes abaixo do valor inicial do negócio

Quatro funcionários da Administração Fiscal, um empresário e dois leiloeiros vão a julgamento no caso da venda ilegal do imóvel da Lanalgo, um conhecido armazém de moda na Baixa de Lisboa, entretanto já falido, que em 2000 foi vendido pelas Finanças por 450 mil euros (90 mil contos). A base inicial do negócio era nove vezes superior, ou seja, quatro milhões de euros (800 mil contos). O comprador foi uma empresa sediada no paraíso fiscal de Gibraltar, que tem como sócio maioritário António Varela - também acusado neste processo.

O juíz de instrução do 5.º Juízo do Tribunal de Instrução Criminal de Lisboa decidiu, no início de Dezembro, levar a julgamento os sete suspeitos, confirmando a acusação do Ministério Público (MP), dois documentos que o PÚBLICO consultou. O MP considerou os arguidos co-autores de um crime de participação económica em negócio e, por isso, estão sujeitos a uma pena de prisão de até cinco anos. O chefe da repartição do 3.º Bairro Fiscal de Lisboa, onde correu o processo de penhora da Lanalgo - pelo facto de a empresa dever ao Estado perto de 1,4 milhões de euros (277 mil contos) de IRC, IRS e IVA - foi ainda acusado de um crime de peculato, por usar dinheiro público para destino diferente daquele a que estava afectado, e um crime de subtracção de documentos.

Tudo indica que os sete arguidos serão julgados, mas a decisão do juiz de instrução ainda não transitou em julgado. O facto de o magistrado ter confirmado a acusação do MP reduz as possibilidades de recurso, podendo os arguidos alegar apenas nulidades (violações graves dos procedimentos legais que nunca chegam a produzir efeitos).

Segundo a acusação, em Julho de 1999, o chefe da repartição do 3.º Bairro de Lisboa, Bertolino Figueira, determinou a publicação de um anúncio de venda do estabelecimento da Lanalgo, apesar de ter penhorado apenas os bens móveis e imóveis e não o estabelecimento (que incluía a manutenção dos contratos de trabalho dos 145 funcionários da empresa).

A venda seria feita por carta fechada e o valor-base do negócio era de cerca de quatro milhões de euros (cerca de três milhões pelo imóvel e um milhão pelos bens móveis).

O anúncio de que a venda se faria "sem prejuízo dos direitos dos trabalhadores" acabou por levar a que não houvesse qualquer proposta de compra. Para o MP, os moldes do anúncio, "com um tão gravoso ónus a recair sobre o potencial adquirente do bem penhorado - ter que assumir a posição de entidade patronal de 145 trabalhadores" -, justifica a ausência de propostas.

Negociação particular

Depois disso, Bertolino Figueira submeteu à consideração superior, no caso, a 1.ª Direcção de Finanças de Lisboa (DFL), que a venda fosse feita por negociação particular, admitindo que quatro milhões até seria um valor baixo para a venda, se os trabalhadores não estivessem salvaguardados. Alertou, nessa altura, a 1.ª DFL que o fisco se "arriscava a ser ultrapassado" pela eventual declaração da falência, já que neste caso o Estado teria que dividir o dinheiro do património da empresa com os outros credores.

Em Outubro, Joaquim Baptista, técnico principal da 1.º DFL e outro dos arguidos, fez um parecer detectando as irregularidades do anúncio, já que a penhora tinha sido feita aos bens móveis e ao imóvel e não ao estabelecimento comercial. Indicava que, na execução fiscal, não existia sequer qualquer referência à existência de trabalhadores nem ao seu número. Joaquim Baptista propõe, por isso, que a venda seja feita de acordo com a penhora ou se corrija a mesma, defendendo que "seria preferível" a primeira opção.

No mesmo documento acaba, por, no entender do MP, se contrariar, já que acaba por falar em "unidade económica", a que atribui um valor-base de 2,24 milhões de euros, sem que, na opinião dos magistrados, fundamente a redução do preço.

Apesar de Bertolino Figueira ter sugerido uma advogada para fazer a negociação, Joaquim Baptista insiste que tal não é compatível com a sua profissão e sugere a Soleilões ou a Jurisvenda (as duas propriedade dos mesmos sócios, dois dos arguidos do processo). Uns dias mais tarde, Joaquim Alves, chefe de divisão da 1.ª DFL, outro dos acusados, emite um parecer em concordância com o de Joaquim Baptista. O director de Finanças adjunto da 1.ª DFL, Francisco Lourenço - em quem o director; José Maria Pires, delegou competências - concorda com as sugestões e nomeia a Soleilões para fazer a negociação.

Em 15 de Dezembro, os dois sócios da Soleilões, Eduardo Silva e Rui Perdigão, informam Bertolino Figueira que tinham uma proposta de 450 mil euros apenas para o imóvel, que tinha que estar "livre de ónus ou encargos de pessoas e bens". A proposta é encaminhada para a 1.ª DFL, sendo apreciada pelos três arguidos desta direcção "de imediato". A venda é autorizada em Janeiro e a 17 de Abril de 2000 a escritura pública é feita em Lisboa.

Segundo o MP, os arguidos da administração fiscal actuaram em conluio com os dois leiloeiros para favorecer António Varela, tendo preterido determinados procedimentos da venda executiva e violando os deveres de zelo a que estavam obrigados. Três anos mais tarde o Tribunal Central Administrativo, em Lisboa, confirma a anulação do negócio devido às várias irregularidades detectadas.
in Publico


Economia
2006-12-17 - 00:00:00


Fisco: investigação pertenceu a Maria José Morgado
Banco pretendia edifício da Lanalgo para sede


Um dos bancos envolvidos na ‘Operação Furacão’ quis comprar o edifício da Lanalgo para aí construir a sua sede. A sua localização privilegiada na Baixa Lisboeta fez com que os responsáveis da instituição bancária fizessem uma aproximação ao primeiro comprador, a empresa Tayama Investments Limited, sediada num ‘off-shore’.

Segundo o jornal ‘Público’, o juiz de instrução do 5.º Juízo do Tribunal de Instrução Criminal de Lisboa decidiu levar a julgamento quatro funcionários da Administração Fiscal, um empresário e dois leiloeiros. Entre os acusados consta um ex-chefe de Finanças, Bertolino Figueira, que protagonizou um caso caricato no 3.º Bairro ao barricar-se dentro da repartição de Finanças.

Recorde-se que a Lanalgo, uma das mais prestigiadas lojas de pronto-a-vestir da Baixa, foi à falência após vários negócios ruinosos realizados pela família que controlava o estabelecimento, o que motivou uma queixa dos trabalhadores junto da Polícia Judiciária.

Decretada a falência, o imóvel da Rua Augusta era o único activo da empresa, tendo gerado muita cobiça entre instituições financeiras, construtores civis e mediadores imobiliários.

Avaliado em cinco milhões de euros, o prédio acabou por ser vendido, em negociação directa, por 450 mil euros à Tayama Investments Limited, uma empresa com sede num ‘off-shore’, o que levantou suspeitas à PJ.

Foi Maria José Morgado, responsável, na altura, pelo combate ao crime económico na Judiciária, que mandou investigar os funcionários do Fisco que intervieram na venda do imóvel que entretanto foi impugnada pelos trabalhadores e anulada pelo Tribunal Central Administrativo.

No dia 18 de Julho de 2005 realizou-se, finalmente, o leilão do edifício da Lanalgo, que foi adquirido por 2,6 milhões de euros por um anónimo.
Miguel A. Ganhão

In Correio Manhã
 
A 2ª noticia é esta ... com esquemas muito bons para lesar TODOS em especial a Segurança Social ... [8]


Economia

2006-12-17 - 00:00:00

Transportes: 55 mil veículos de mercadorias a circular
Camiões burlam Estado em 30 milhões


O excesso de horas ao volante de camiões está proibido por lei, mas é “constante” e pago “ao quilómetro, por tonelagem ou viagem”. Passa na folha de ordenado dos motoristas por ajudas de custo e esta é não só a forma de uma “esmagadora maioria” das 9730 empresas registadas em Portugal “evitar as multas” como de burlarem o Estado em “mais de 30 milhões de euros ao ano”, entre fugas ao Fisco e à Segurança Social, garante ao CM Vítor Pereira, dirigente da Federação dos Transportes Rodoviários Urbanos (FESTRU).

Estes valores só dizem respeito a pesados de mercadorias, Mas, “sendo o excesso de horas e os pagamentos camuflados uma prática corrente em todo o sector” – e se tivermos em conta que há registo de 361 empresas de pesados de passageiros e quase 13 mil táxis a circular no nosso país –, “a burla total e anual do sector dos transportes ao Estado é bastante superior”.

A segurança rodoviária há muito que leva Portugal e a União Europeia a proibirem não só o excesso de horas na estrada como os pagamentos ao quilómetro, tonelagem ou viagem. Os regulamentos comunitários 3820 e 3821 foram transpostos para a legislação portuguesa pelo Decreto-Lei 272/88. Os motoristas são forçados por lei a parar 15 minutos em cada 01h30 de condução – no caso de transportes internacionais o descanso é de 45 minutos em 04h30. Só que “muito poucos respeitam a lei”, as horas extras “são impostas pelas empresas” e, Europa fora, “são frequentes os motoristas de empresas portuguesas ao volante 14, 15 e 16 horas sem descanso”.

As fugas de milhões ao Fisco e à Segurança Social provocam situações de concorrência desleal no sector.

BRIGADA DE TRÂNSITO ENGANADA

Os discos tacógrafos nos camiões registam o excesso de horas consecutivas ao volante, assim como o tempo de descanso dos motoristas. Mas há instruções para que “sejam escondidos” às patrulhas da Brigada de Trânsito, sob pretexto de “esquecimento ou perda”, diz ao CM Vítor Pereira, dirigente da FESTRU. É que, neste caso, o valor da única multa a pagar só varia entre os 124 e os 997 euros, enquanto que, se o motorista fosse apanhado com horas a mais registadas no disco, arriscaria até 498 euros por negligência ou 997 se fosse considerado dolo. E as respectivas empresas também pagariam, entre as centenas e largos milhares de euros, consoante a sua dimensão.

Uma pequena empresa incorre em multas dos 498 euros a 1371, por negligência, e 1097 a 2992 euros, por dolo; enquanto uma média empresa está sujeita a valores entre 648 e 1795 euros, ou entre 1646 e 4638 – e uma grande empresa pode pagar de 1122 euros a 3990, ou 2070 a 7232 euros.

INSPECÇÃO SABE DE TUDO HÁ SETE ANOS

O relatório de uma inspecção concluída em 1999 pelo antigo Instituto de Desenvolvimento e Condições de Trabalho, a que o CM teve acesso, aponta precisamente para “pagamentos ao quilómetro percorrido, horas de trabalho suplementar, trabalho nocturno” ou em dias de folga – mas “invariavelmente descritos no recibo do salário como ajudas de custo, prémios ou deslocações em viatura do trabalhador”. Recorda o mesmo relatório tratar-se de uma “prática incorrecta e ilegal” – e que “interfere nas condições de trabalho e de segurança”.

Pode ler-se que o sector dos transportes enfrenta uma concorrência desleal “muito feroz” ao nível dos preços, sendo os motoristas “sacrificados nos tempos de repouco” e sob pena “de perda do próprio posto de trabalho”.

Os inspectores foram ainda levados a concluir, nas várias conversas que mantiveram com “profissionais do sector”, que existem “práticas fraudulentas” na “viciação e alteração nos registos de tempos”, o que lhes foi confirmado “pela GNR”. E terminaram escrevendo que, para a Direcção-Geral de Transportes Terrestres, “o importante é que haja um alvará para a actividade e uma licença para o veículo”.

AJUDAS DE CUSTO DOBRAM ORDENADOS

O CM teve acesso a recibos de vencimento de vários motoristas, que pedem para não ser identificados sob pena de perderem os empregos, mas que confirmam o “excesso de horas ao volante”, pagas “sob pretexto de ajudas de custo e prémios” vários. São recibos da empresa Transportes Luís Simões S.A. e da Transportes Chão Pardo, Lda. No caso da primeira, ‘João’ (nome fictício) estende-nos o papel onde se podem ler aproximadamente 600 euros de vencimento base, acrescidos de 112 em prémio internacional e ajudas de custo no estrangeiro superiores a 1200 euros – valor que dobra o ordenado.

Sobre a segunda empresa foram-nos apresentados vários recibos, todos com ajudas de custo superiores aos ordenados. Uma e outra empresa foram contactadas mas não estiveram disponíveis, até ao fecho desta edição, para prestar esclarecimentos.

À MARGEM

FACTURAS

Para além das ajudas de custo, “sempre que os valores extras a pagar são mais baixos, as empresas obrigam os motoristas a arranjar facturas de combustível para justificar o pagamento.

DGTT

Os últimos dados da Direcção-Geral de Transportes Terrestres (DGTT), de Setembro, apontam para 9730 empresas de transporte de mercadorias (55 324 veículos) e 361 de passageiros.

SEGURANÇA

O secretário-geral da Associação de Empresas de Segurança denunciou que o trabalho extraordinário da maior parte dos elementos de segurança privada é pago em “subsídios e ajudas de custo”.
Henrique Machado

in Correio da Manhã
 
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