"Os montes de Luís Neves já não são propriedades rurais. São uma visita guiada à hipocrisia do regime.
Primeiro, o empreiteiro. Uma empresa que executou obras para a Polícia Judiciária durante o período em que Luís Neves dirigia a instituição acabou também contratada para trabalhar nas propriedades particulares da família. O ministro diz que conheceu o empresário quando a maior parte dos contratos públicos já estava adjudicada, que não existiu favorecimento e que tudo está “limpinho”. Para as obras privadas, porém, não houve contrato escrito. Houve amizade, confiança, trabalhos aos fins-de-semana e facturas que foram aparecendo à medida que o caso crescia nos jornais. Foram depois divulgadas 108 facturas, de 13 empresas, no valor global de 23.118,19 euros, emitidas à empresa da mulher do ministro. Sem comprovativos de pagamento.
Depois, a construção. O que começou por ser, na versão de Luís Neves, “três paredes e uma casa de banho”, transformou-se num alpendre, estacionamento e aquilo a que o ministro chamou um tanque. Só que o tanque era uma piscina. Tudo sem cumprir legislação urbanística.
Depois, as sulipas. Madeiras provenientes de uma linha ferroviária desmantelada foram oferecidas durante um almoço realizado na sede da PJ. O empreiteiro transportou-as e transformou-as numa mesa e em dois bancos para o monte de Luís Neves. Uma pequena obra-prima do aproveitamento privado: a madeira aparece no Estado, a logística aparece por amizade e o mobiliário aparece na propriedade do ministro.
Depois, a empresa familiar. A Alcampos foi criada pela mulher de Luís Neves em Junho de 2023, mas só foi declarada à Entidade para a Transparência em Maio de 2026. Luís Neves reconheceu a omissão e chamou-lhe um lapso. Três declarações sem a empresa. Um lapso prolongado, resistente e com excelente capacidade de sobrevivência administrativa.
Agora, o SOL noticia que essa empresa recebe turistas num dos montes, apesar de não ter imóveis em seu nome, e que as contas suscitam dúvidas: o capital social terá sido perdido, mas a sociedade continua em funcionamento. A situação estará na mira do Fisco.
Os defensores de Luís Neves respondem que nada disto é muito grave. Que todos temos telhados de vidro. Que uma declaração esquecida pode ser corrigida, uma piscina pode ser licenciada (em reserva natural e agrícola até nem pode), umas contas podem ser explicadas e umas sulipas não derrubam uma República.
Mas o problema nunca foi esse.
Portugal está cheio de pessoas que denunciam a burocracia absurda, a carga fiscal sufocante e um Estado que controla cada aspecto da vida dos cidadãos, cobra por tudo, exige licença para tudo, multa por tudo e, no fim, deixa milhões de portugueses que ganham perto de mil euros a escolher entre a renda, a alimentação e a electricidade.
Denunciar isto tem um preço. Dar a cara contra este Estado omnipresente traz riscos pessoais, profissionais e políticos. Eu tenho dado a cara contra a burocracia, contra a carga fiscal e contra a transformação do cidadão num animal tributável, licenciado e permanentemente vigiado. O prémio foi ser apelidado de extremista, radical ou inimigo das instituições.
Luís Neves escolheu o caminho contrário.
Apresentou-se como o grande defensor do sistema. Fez carreira dentro dele. Cresceu com ele. Foi nomeado pelo PS, reconduzido pelo PSD, elogiado por uns, promovido por outros. Defendeu o Estado actual, a sua autoridade, a sua burocracia e até a necessidade de aumentar a vigilância sobre as palavras dos cidadãos através do chamado “discurso de ódio”.
Luís Neves decidiu entrar num concurso de popularidade para ser a Miss Sistema.
O candidato mais institucional. O mais obediente. O mais respeitador. O mais confiável. O homem que acredita na máquina, confia na máquina e quer mais poder para a máquina.
Só que, quando a máquina chega ao seu terreno, à sua piscina, à sua empresa, às suas declarações, às suas obras ou à sua mobília, Luís Neves parece subitamente descobrir todas as vantagens da informalidade, da confiança pessoal, do lapso administrativo, da interpretação criativa e da regularização posterior.
Luís Neves é isto: Para quem critica o sistema, extremismo e discurso de ódio. Para quem vive do sistema e foge às suas regras, compreensão, contexto e explicações em horário nobre.
Luís Neves construiu a carreira a defender instituições nas quais o seu próprio comportamento mostra que não acredita. Quer um Estado implacável para governar os outros e suficientemente flexível para acomodar a sua vida.
É essa hipocrisia que os portugueses não lhe perdoam. E bem !!
João Pereira dos Santos-advogado"