autor: Vasco Morgado
Portugal, e a necessidade de matar as galinhas dos ovos de ouro.
Portugal tem uma vocação antiga, quase litúrgica, para pegar numa boa ideia, beijá-la na testa, pô-la no colo, chamar-lhe “filão”, e depois sufocá-la com as próprias mãos, entre a ganância, a imitação servil e essa pressa saloia de quererem vender a mesma sardinha no mesmo prato, à mesma hora, ao mesmo turista, pelo preço de caviar.
Somos assim: quando uma coisa resulta, não a melhoramos, não a protegemos, não a deixamos respirar. Não. Atiramo-nos a ela como uma romaria de gafanhotos sobre uma seara. Onde havia uma ideia, fazemos cem cópias; onde havia uma oportunidade, montamos uma feira; onde havia uma alma, pomos uma placa em inglês, uma ardósia com “brunch” escrito a giz e uma conta digna de um assalto com guardanapo de linho.
Não é que Portugal não tenha ideias. Tivemo-las sempre. Umas morreram porque o tempo as levou, e isso é da natureza das coisas. Há ofícios, hábitos, casas, modas e negócios que acabam porque o mundo anda, a sociedade muda, a necessidade desaparece. Isso é a vida a renovar-se. Mas nós não nos contentamos com a morte natural das coisas. Nós gostamos da execução pública. Somos especialistas em matar aquilo que ainda nos podia salvar.
Se não vejamos.
Nos anos 70 veio a febre do snack-bar. Era o néon da modernidade, o balcão cromado da esperança, o bife no pão com promessa de futuro. Lisboa e o país encheram-se deles: o PIC-NIC, o Tique-Taque, o Pam Pam, o Terminus, o Monumental, o Noite e Dia, o Monte Carlo, e tantos outros, uns atrás dos outros, como se uma nação inteira tivesse descoberto ao mesmo tempo que se podia servir uma torrada com ar cosmopolita. E depois? Depois veio o costume: demasiados, iguais, colados uns aos outros, todos a disputar a mesma fome. Fecharam quase todos. Sobreviveu quem? O Galeto. Esse sobrevivente descoberto, fóssil luminoso de uma era em que ainda se sabia que um balcão poderia ter carácter.
Nos anos 80 chegaram às lojas de pronto-a-vestir. A Lanidor, a Cenoura, a Lanalgo, a Ton Sur Ton, o Grandella, o Chiado, os Porfírios, e tantas lojas de bairro, com montras compostas, cabides de sonho doméstico e senhoras que sabiam o tamanho das clientes só de lhes olhar para os ombros. Também aí fomos pródigos: enchemos ruas, centros, esquinas, galerias, tudo a vender a mesma saia, a mesma camisola, a mesma ilusão de moda nacional. E hoje? Nem uma para contar a história com dignidade. Vieram as cadeias, veio a roupa sem pátria, veio a uniformização global, e nós, que podíamos ter criado identidade, criamos liquidação.
Nos anos 90 foram as croissanterias. Uma em cada esquina. Às vezes duas. Às vezes três, como se Lisboa fosse subitamente uma província histórica de Paris, mas com mais creme de ovo e menos vergonha. O croissant, coitado, passou de delícia a praga urbana. Entrava-se numa rua e lá estavam elas, inchadas de excitação, douradas de gordura e condenadas desde a apresentação. E como apareceram, desapareceram. Sopro. A mesma espuma de sempre: todos ao mesmo tempo a fazer o mesmo, num mercado que não cresce só porque nós lhe gritamos “cresce!” ao ouvido.
Depois vieram os hambúrgueres. Do bairro, da sala, do quarto, da esquina, do isto, do aquilo, do acoloutro. O hambúrguer deixou de ser comida para se tornar conceito. Já não vinha no prato: vinha acompanhado de uma biografia, de uma tábua rústica, de batatas com nome próprio e de um empresário a explicar a maionese como se recitasse Camões. Durante uns tempos, Portugal pareceu acreditar que o destino da pátria passa por carne picada entre dois pães artesanais. Sobreviveram um ou dois, se tanto. O resto ficou pelo caminho, vítima do pecado nacional: a multiplicação sem classificações, essa pornografia do “também quero”.
E o mesmo se passa com os festivais, as feiras medievais (existem mais agora que na época mediaval), os tuk-tuks, os Ubers, as “experiências imersivas”, os mercados gourmet, as lojas de lembranças todos iguais, os alojamentos locais empilhados como capoeiras turísticas. Mal alguém descobre uma restia de negócio, logo aparece a multidão de avental, logótipo, página de Instagram e ambição feroz. Todos querem um pedaço do filão. Ninguém pensa que o filão, por definição, se esgota. E nós esgotamo-lo com a rapidez de suicidas em festa.
Agora é o turismo.
Durante anos vendemos Lisboa como quem vendia um segredo: a luz, as colinas, o Tejo, as tascas, o fado, a calçada, a sardinha, a bifana, o vinho bebido sem pose, a conversa à porta, o cheiro da grelha, a roupa profunda, a velha à janela, o eléctrico a chiar como um bicho antigo. Vendemos a cidade viva. E quando a cidade viva finalmente começou a dar dinheiro, o que fizemos? Matámo-la.
Onde havia tascas, pusemos brunch. Onde havia vinho da casa, pusemos “experiência natural do vinho, mas de qualidade duvidosa”. Onde havia bifanas, pusemos plumas. Onde havia sardinha, pusemos “loja conceito de sardinha”. Onde havia café de balcão, pusemos latte, frappuccino, matcha, espuma de aveia e uma clientela a fotografar o pequeno-almoço antes de o digerir. Nada contra o brunch, o latte ou o gourmet, que existe, pois claro. Uma cidade também respira pela mistura. O problema é quando a mistura passa a substituir; quando a diferença é expulsa para dar lugar à cópia; quando Lisboa deixa de ser Lisboa para se tornar uma réplica barata de lugares caros.
Porque o turista não atravessa o mundo para encontrar o que já tem à porta de casa. Não vem a Lisboa para comer o mesmo hambúrguer, beber o mesmo café, ver a mesma decoração industrial com lâmpadas suspensas e plantas em vasos de cimento. Isso tem ele em Berlim, em Paris, em Londres, em Amesterdão, em Milão, em qualquer centro domesticado pela mesma estética internacional de alma nenhuma.
O turista vem, ou vinha, para sentir que chegou a outro sítio. Vem comer sardinha, provar bifana, beber vinho sem cerimónia, ouvir fado que não aparece encomendado por uma agência, ver gente de cá a viver a vida de cá. Vem para encontrar o cheiro, o ruído, o embaraço, a ternura, a desordem, a língua, a sombra fresca de uma tasca, o gerente bruto mas certo, a conta honesta, a verdadeira cidade. Se chega aqui e encontra apenas uma Lisboa maquilhada para estrangeiro, mas ao preço de Paris, Londres ou Saint-Tropez, então pergunta, e com razão, por que diabo há-de vir cá. Se é para pagar como em Saint-Tropez, vai para Saint-Tropez. Ao menos lá a farsa tem mar azul e pedigree.
E nós ficamos nisto: a vender conveniências em embalagens de plástico, tradição em inglês, alma por metro quadrado, memória em menu sortudo. Transformamos bairros em cenários, moradores em obstáculos, comércio local em adereço, e depois nos espantamos quando a cidade se torna cansativa, cara e indistinta. Espantamo-nos quando há notícias a dizer que o turismo abranda, que há menos gente, que a procura baixa. Quem mora em Lisboa sente-o: ainda há muitos turistas, sim, mas já se anda pela cidade com outra folga, outro vazio, outra espécie de rescaldo. Como se a festa continuasse, mas a música começasse a falhar.
E a culpa não é do turista. O turista fez o que lhe pedimos: veio. A culpa é nossa, que confundimos acolher com explorar, crescer com devorar, modernizar com apagar. Em vez de cuidarmos daquilo que nos distingue, vendemo-lo ao desbarato e depois substituímo-lo por uma imitação sem raiz. Somos capazes de pegar numa cidade rara, com luz de poema e vícios de taberna, e transformá-la numa montra pasteurizada, onde tudo é “premium”, “conceito”, “autêntico” e, justamente por isso, falso.
Portugal é extraordinário nisto: descobre uma boa ideia e logo convoca o enterro. Não por falta de talento, mas por excesso de imitação. Não por falta de oportunidade, mas por gula. Queremos todos entrar na mesma porta ao mesmo tempo, e depois admiramos que a porta rebente, a casa caia e ninguém fique lá dentro.
No fundo, somos um país de génios intermitentes e coberturas permanentes. Inventamos o bote, descobrimos a rota, abrimos a tasca, acendemos a luz, e depois vem a turba dos oportunistas, dos repetidores, dos pequenos empresários do apocalipse, todos com pressa de transformar a nascente em esgoto. E quando a água deixa de correr, olhamos para o leito seco e dizemos, em bom português, e muito ofendidos:
“Pois, isto já não é o que era.”
Não. Não é. Porque nós tratamos de o matar.
