TM – Muito complicado para muita gente, dinheiro, “team managers”, as pessoas não têm segurança no trabalho, se vai continuar ou não vai...
GP – Falta um pouco do carisma do Eddie Jordan, independente dos resultados ou dos métodos de administração?
TM – Muito. A experiência dele, o carisma, os contatos. Claro, não tinha só coisas boas nele, mas pelo menos tinha a vontade e a maneira de ser dele.
GP – E ter vindo para o WTCC na SEAT, numa montadora patrocinada pela Red Bull, foi uma mera coincidência ou teve algum tipo de apoio, por exemplo, do Gerhard Berger?
TM – Não, não, mera coincidência. Aliás, ainda não sei se vou ter a Red Bull no meu carro porque não tenho contrato com eles, quem tem é a SEAT. Isso ainda está em aberto. A Red Bull nunca me ajudou, então não tenho por que ajudar eles (
risos).
GP – Você teve a experiência de trabalhar por um ano com um ídolo brasileiro, o Emerson Fittipaldi. Gostaria que você comentasse como foi aquele ano de 2003 e que lembranças você traz dele.
TM – Foi um ano incrível. A minha relação com o Emerson é quase como a que de pai e filho. Entramos os dois numa nova aventura, ele como chefe de equipe e eu como piloto da ChampCar. E foi a primeira vez que trabalhei com uma pessoa com tanta experiência como ele, com o talento dele. Por isso que aprendi muito, tanto no nível técnico como no nível humano. Foi uma experiência indescritível. Infelizmente só durou um ano, a equipe não agüentou, mas foi inesquecível.
GP – Tem ainda contato com ele?
TM – Sim, ainda falo com ele. Guardo nele um bom amigo.
GP – A ChampCar poderia ser uma alternativa aos monopostos ou essa é uma página que você já virou na sua carreira?
TM – Não virei, mas só vou para lá se for numa equipe competitiva. Na minha carreira já passei por tudo: times competitivos, times menos competitivos... E com a experiência que eu tenho, com meu retrospecto, acho que eu posso escolher uma equipe em que eu me sinta à vontade e que meus resultados possam ser vistos. Tive contato com a Forsythe até pouco tempo, mas não dava. Se fosse na Forsythe, eu estaria lá, é uma equipe ótima. Mas as outras são muito aleatórias: num fim de semana pode até brigar para ganhar, mas no outro está em décimo, 12º. Aqui pode acontecer o mesmo, não vou estar sempre bem, porém sei que temos potencial para estar na frente.
GP – Você tem 30 anos, dez anos de carreira, tem experiência e já passou por F-3, F-3000, World Series, Le Mans, ChampCar e F-1. Além das vitórias, o que falta para você atingir no automobilismo ou o que você tem vontade de disputar?
TM – O Dacar. Não tanto pela competição, pelo nível desportivo, não penso que vou chegar lá e ganhar, mas mais como aventura humana, um desafio humano, uma aventura diferente. Eu tive uma experiência em Todo-o-Terreno também, as 24 Horas de Todo-o-Terreno [em Portugal] e adorei. E é daquelas coisas que ainda não fiz. Já participei do GP de Mônaco. E tem também as 500 Milhas de Indianápolis, mas não estou bem nessa direção. Eu sou apaixonado por qualquer coisa no esporte. Desde que tenha quatro rodas e um volante, fico contente (
risos). Quando mais rápido, melhor.
GP – Você é daqueles pilotos que gostaria de enfrentar o desafio dos ovais americanos ou tem certa reserva àquela competição?
TM – Eu tive oportunidade na ChampCar eu fiz três provas em oval e acho que quatro ou cinco ovais diferentes em testes. E gostei. Gostei muito. É muito diferente, é uma categoria específica, mas gostei muito. Agora, acho que não ia gostar de fazer 17 fins de semana, mais os treinos. Aí já perde muito do prazer da pilotagem, que é frear, acelerar. Ficam muito concentrados no equilíbrio, nos limites em uma curva. E eu ia sentir falta disso. Eu tive duas oportunidades depois da ChampCar e evitei. Não é o que eu quero fazer.
GP – Mas se for para fazer só as 500 Milhas, aí você topa.
TM – Sim, mas eu teria que treinar muito.
GP – Aliás, Indianápolis é um lugar especial para você porque foi lá que você conseguiu seu pódio...
TM – É verdade (
risos)...
GP – Qual a sua visão sobre aquele dia, quase dois anos depois do ocorrido? O significado e o valor são os mesmos?
[O GP dos EUA de 2005 sofreu um boicote por parte das equipes parceiras da Michelin e apenas Ferrari, Jordan e Minardi disputaram a corrida. Monteiro venceu a disputa com seu companheiro Narain Karthikeyan e os carros de Christijan Albers e Patrick Friesacher.]
TM – Não mudou muita coisa. Guardo esse pódio como aquelas oportunidades que acontecem na vida e que você tem que estar lá para agarrar. Foi um momento inesquecível na minha carreira, talvez a corrida mais importante porque nesse dia eu podia ser terceiro, como podia ser quarto, quinto ou sexto. E aí seria muito (
enfático) mal psicologicamente.
GP – Ou até vencido, se houvesse o toque entre Schumacher e Barrichello...
TM – Exatamente (
risos). Eu acho que foi a corrida mais louca dos últimos tempos da F-1. E nunca vou esquecer da felicidade dos mecânicos. E dos portugueses, também. O prazer que eu tive naquela época e as declarações que eu dei, eu mantenho. Eu não roubei nada de ninguém, estávamos lá para correr. A Michelin falhou, nós aproveitamos a oportunidade. Em outras provas, nós tivemos problemas com pneus [Bridgestone], também. Muitos, mesmo. E perigosos. E continuamos a correr. Faz parte do jogo. Fiz o que devia fazer.
GP – Você foi por um ano piloto do programa de desenvolvimento da Renault, o RDD. Chegou a fazer quantos testes?
TM – Dois dias, em Barcelona.
GP – E qual foi o comentário do Flavio Briatore?
TM – Eu ainda era muito novo, não tinha contato nem com os pilotos do RDD nem com o Briatore. Quem estava envolvido mais era o Bruno Michel, que é o número 2 do Briatore, que fica mais concentrado na F-1. Desses, poucos pilotos vão chegar à F-1. Ali também tem uma questão pública... Bem-vindo ao mundo da F-1 (
risos)!
GP – Do que você se arrepende de ter feito na F-1?
TM – (
pausa de dez segundos, contados) É uma questão que ainda não pensei bem, bem, se me arrependi ou se faria de outra maneira. Mas também não há tantas oportunidades. E quando elas surgem, você tem que ir e não há tempo para pensar. Em 2005, eu não podia ter ido para outra equipe, só havia lugar lá, até na Minardi já estava ocupado, tinha que ser a Jordan. Eu tinha boa relação com o Eddie Jordan, fomos para lá. Mas não é como se eu pudesse ter escolhido. Muitas vezes suas opções são ditadas pelas opções disponíveis, por isso não há muita coisa do que se arrepender.
GP – E nesse mundo tão restrito, em que cada um tenta matar o outro quando aparecem tais oportunidades, quem você levou de amigo e de quem você faz questão de se afastar?
TM – Amizade, amizade grande, não. Em pilotos, foi com o Narain Karthikeyan, o indiano, no meu primeiro ano. Já éramos bons amigos, mas nada de especial. Depois passamos um ano juntos, foi uma relação excelente, agora continuamos. A maior parte eu já conhecia da F-3, e depois de estarmos juntos na F-1, a relação deteriorou um pouco, é muito competitivo, passamos pouco tempo juntos. Pessoas como o Felipe Massa, eu conheci muito melhor e agora somos muito bons amigos. E a pior relação eu acho que foi com o [Christijan] Albers. É uma pessoa muito complicada e muito difícil de se conviver.
GP – O comentário geral é de que ele é muito mascarado...
TM – É (
risos). Muito difícil.
GP – O Albers chegou a queimar você na equipe?
(
Tiago responde com aceno efusivo positivo com a cabeça).
GP – Muitas vezes?
TM – Que eu saiba algumas. Há muitas que eu não sei (
risos). Mas pior que isso são as coisas que ele faz na pista.
GP – O Villeneuve chegou a declarar, recentemente, que se trata de um piloto sujo.
TM – Eu acho que qualquer piloto... O Senna, às vezes, era sujo; o Schumacher, também. Mas há sujos e sujos, sabe? A agressividade, tal. Mas no caso dele é sujo mau, burro, pouco inteligente. Aqui há muito mais contato, muito mais guerra. Mas há respeito. Uns têm mais, outros têm menos.
GP – Monteiro, para encerrar, é inevitável: quando se soube que um de seus sobrenomes sobrenome era Vagaroso, aqui no Brasil houve aquelas piadinhas, até pelas posições que você acabava ocupando nos grids e nas corridas por conta dos carros deficientes. Em Portugal é assim também? E como aceitar esse tipo de brincadeira?
VM – Lá nunca nenhum jornalista falou muito disso. É um nome muito raro, mas ninguém falou nada. Em 2005, quando vim para cá, um descobriu e a primeira pergunta foi essa, daí foi aquela brincadeira. Mas não afeta nada.