Começou por ser um caso de transparência. Tornou-se, por opção do governo, mais um caso de “indecência e má figura”. O que já sabemos justifica todas as dúvidas. Sabemos que a célebre “empresa familiar” era apenas Luís Montenegro com a sua influência de político, e podemos duvidar das intenções das empresas, penduradas em contratos com o Estado, que lhe pagavam avenças.
Sabemos que essa “empresa familiar” continuou a receber essas avenças enquanto Luís Montenegro foi primeiro-ministro, e podemos duvidar da regularidade dessa situação, porque um conflito de interesses não existe apenas quando o titular do cargo prejudica o interesse público, mas quando há condições para que isso aconteça.
De outro modo, não faria sentido prever incompatibilidades.
Há outra coisa que justifica dúvidas. São as comparações que os adeptos do primeiro-ministro inventaram entre a “empresa” de Luís Montenegro e o Colégio Moderno de Mário Soares ou o jornal Expresso de Francisco Pinto Balsemão. Estas equivalências são simultaneamente ridículas e comprometedoras. O Colégio Moderno não era apenas Soares e o Expresso não era apenas Balsemão.
Não funcionavam em casa deles, com os números de telefone pessoais deles, e dois contratados a prestar serviços até agora por explicar.
O problema do primeiro-ministro não é ter tido uma vida fora da política. É precisamente o contrário: pelo que soubemos até agora e sem outras explicações do primeiro-ministro, temos de admitir que Luís Montenegro parece – repito, parece — ter vivido sempre da sua influência política, mesmo quando não tinha cargos partidários. É por isso que não estamos aqui perante um fait-divers, uma coscuvilhice, ou uma distracção dispensável no meio de um mundo em mudança, como clamam os campeões do situacionismo. Aquilo que, aparentemente, nos confronta nesta história é uma das causas da incapacidade do regime para fazer reformas.
Porque as reformas não são prováveis enquanto a classe política puder extrair rendas por conta da preponderância que o status quo lhe dá, e logo tiver interesse em que tudo fique como está.
Reformar, em Portugal, só pode ser sinónimo de desburocratizar e desregulamentar, isto é, reduzir o âmbito do poder político e resgatar a sociedade civil da menoridade a que a condena um Estado ao mesmo tempo omnipresente e caótico. Mas reduzir o âmbito do Estado seria tirar à classe política os meios para os exercícios de tirania, influência e extração de rendas que as operações Marquês, Influencer e Tutti Frutti expuseram.
Reformas, em Portugal, obrigariam os políticos que desejassem enriquecer a tentar uma vida fora da política. Agora, não precisam.
Tem toda esta história outra explicação? Talvez tenha. Mas no sábado, o primeiro-ministro assegurou que não daria mais esclarecimentos. Como as oposições notaram no parlamento, preferiu arriscar eleições a sujeitar-se a mais escrutínio. O cálculo por detrás dessa opção transpareceu nas rábulas televisivas dos outros membros do governo. O que é mais importante para os eleitores? Um aumento da pensão ou do salário, ou umas dúvidas sobre a carreira empresarial do primeiro-ministro? Este governo reflecte bem o cinismo que passa em Portugal por sabedoria política. Constituiu-se com a convicção de que, tal como os seus antecessores, lhe bastariam algumas generosidades para pôr do seu lado os dependentes do Estado, e ganhar as eleições seguintes. Por isso, desprezou a possibilidade de organizar uma maioria reformista no parlamento. Cultivar pensionistas e funcionários, com mais uns anúncios de aeroportos e umas esmolas à comunicação social falida, pareceu-lhe suficiente. Agora, avança para eleições convicto de que não é preciso moralidade quando comem todos. Vamos provar ser assim tão primitivos e abjectos?
PS. Morreu José António Saraiva. Foi um dos mais importantes comentadores da política portuguesa dos últimos quarenta anos. Tinha o mais precioso de todos os talentos, que era notar coisas que, depois de ele as escrever, pareciam óbvias, mas que haviam escapado aos outros comentadores. A sua “Política à Portuguesa” ficará certamente como uma das grandes fontes da história política de Portugal no nosso tempo. Receba um alerta sempre que Rui Ramos publique um novo artigo.