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Sirvam-me o bife e guardem o sermão.
Eu sou um gajo simples. Quando vou a um sítio à procura de determinado produto e pago para me ser fornecido esse produto, espero, imagine-se… que me seja fornecido o produto pelo qual paguei. Ponto.
Se eu for a um restaurante comer um bife e, depois de mo servir, o empregado de mesa decidir aproveitar a ocasião para me explicar durante dez minutos porque é que eu devia mudar de partido político, isso incomoda-me. Não pela opinião dele. A opinião dele dificilmente vai alterar a minha e ele tem todo o direito a tê-la. O que me incomoda é outra coisa: a presunção de achar que, porque eu comprei um bife, comprei também uma palestra.
Este verão aconteceu-me três vezes. Duas em concertos e outra num espetáculo. Paguei para ver música, humor ou entretenimento e, em determinado momento, eu e algumas centenas de pessoas tivemos de ouvir o artista explicar-nos os perigos do crescimento da direita, que o mundo não devia ter fronteiras e mais algumas das suas convicções políticas pessoais.
Curiosamente, as três palestras iam aproximadamente para o mesmo lado político. E foi aí que me lembrei de Ricky Gervais.
Há uns anos, nos Golden Globes, Gervais disse aos artistas presentes uma coisa que achei absolutamente genial. Resumindo bastante: venham aqui, façam o vosso trabalho, recebam o vosso prémio, agradeçam e vão-se embora. Não aproveitem um palco de entretenimento para dar lições políticas ao público como se o facto de serem atores, celebridades, músicos ou milionários famosos vos tivesse conferido, por intervenção divina, conhecimento superior sobre o funcionamento do mundo. Pelos sorrisos amarelos espalhados pela sala, não me pareceu que a mensagem tivesse sido particularmente bem recebida. Mas, aparentemente, continua a ser necessária.
E chegamos ao assunto do dia: Jerry Seinfeld vem a Portugal como cabeça de cartaz do Commedia a La Carte Fest, um festival de humor que decorrerá em Lisboa entre o final de outubro e o início de novembro. Seinfeld é judeu e assumiu publicamente, sobretudo depois dos ataques de 7 de outubro, posições muito claras de apoio a Israel, algumas bastante duras, inclusivamente contra movimentos pró-palestinianos. Mas sobre o assunto mantém-se praticamente em silêncio há já bastante tempo.
Entretanto, vários artistas portugueses começaram a retirar-se do festival. Inês Aires Pereira explicou explicitamente que não queria “normalizar um genocídio”; os Cebola Mol anunciaram também a saída num contexto claro de solidariedade com a Palestina, e outras atuações já tinham sido retiradas do programa.
E eu não vou transformar este texto numa discussão sobre Israel e Palestina. Não vou dizer se acho que Israel tem razão porque tudo começou com o massacre e os sequestros perpetrados pelo Hamas a 7 de outubro. Também não vou dizer se acho que os palestinianos têm razão porque a resposta israelita em Gaza produziu uma devastação humana monstruosa. Nem vou discutir aqui a história daquela terra, quem chegou primeiro, quem tem direito a quê ou quantos mapas históricos cada lado consegue tirar da gaveta. Há gente muito mais informada do que eu para discutir isso. E a minha opinião pessoal não importa nada para o caso.
O que eu quero discutir é uma coisa bastante mais simples: o direito de uma pessoa ter uma opinião diferente da nossa sem passar imediatamente a ser alguém com quem é moralmente proibido partilhar um palco.
Porque é aqui que, para mim, começa o verdadeiro extremismo.
Extremismo não é apenas ter uma opinião política muito à direita ou muito à esquerda. Extremismo também é, com certeza, chegar ao ponto em que deixamos de admitir que alguém razoável possa olhar para o mesmo problema e chegar a uma conclusão diferente da nossa. É quando a divergência deixa de ser “acho que estás errado” e passa a ser “não aceito sequer estar no mesmo espaço que tu”. E há uma diferença enorme entre as duas coisas.
Se alguém considera que subir ao mesmo palco de Jerry Seinfeld viola os seus princípios pessoais, tem evidentemente todo o direito de não subir. Ninguém deve ser obrigado a trabalhar num espetáculo contra a própria consciência. Mas eu também tenho o direito de olhar para um movimento coletivo de desistências e perguntar se não começámos a transformar a discordância política numa espécie de teste de pureza ideológica.
Porque esta cultura de boicote permanente, de choque moral e de presunção de que “nós” somos os representantes oficiais da virtude e quem pensa de maneira diferente passou automaticamente para o lado do mal… para mim, é profundamente tóxica. Já dura há anos e, em vez de diminuir a polarização, alimenta-a.
E quando chegamos ao ponto em que a pessoa deixa de ser simplesmente alguém com uma opinião errada e passa a ser alguém que deve ser afastado, silenciado ou profissionalmente punido, isso começa a parecer-me outra coisa.
É totalitarismo ideológico camuflado de virtude.
(Há uma ironia deliciosa nisto tudo: quem mais diz querer combater o extremismo é, muitas vezes, quem mais depressa se comporta como extremista.
Será que nem dão por ela?)
E aqui não me interessa de que lado vem. Se for alguém de esquerda a dizer que não tolera dividir uma sala com alguém de direita porque determinada opinião é “inaceitável”, acho ridículo. Se for alguém de direita a fazer exatamente a mesma coisa a alguém de esquerda, acho igualmente ridículo.
E se depois…. essas pessoas, num esforço organizado, resolverem tentar impedir os outros de trabalhar, falar, atuar ou existir profissionalmente porque pensam ou votam de maneira diferente…
então são simplesmente já so estamos a falar de um bando de ditadores mimados, para ser simpatico…
A democracia não é eu tolerar pessoas que concordam comigo. Isso é taoooo fácil.
Democracia é eu conseguir sentar-me à mesa com alguém que acha exatamente o contrário do que eu acho e, depois de discutirmos durante duas horas, continuarmos capazes de pedir a sobremesa.
O António tem direito a achar que o mundo devia ter menos fronteiras. O Manuel tem direito a achar que o país dele precisa precisamente de mais fronteiras. O António não é automaticamente um comunista perigoso e o Manuel não passa automaticamente a fascista por causa disso.
Podem até ambos estar errados. Ou, quiçá, ambos certos em alguma medida. E essa é uma hipótese que, curiosamente, parece ter desaparecido da política moderna.
E há ainda uma questão prática que por um lado me preocupa mas também por outro me diverte particularmente.
Esta estratégia de transformar determinadas opiniões em pecado mortal não parece estar propriamente a produzir os resultados desejados. Ontem mesmo, a AfD — partido classificado pelas autoridades alemãs como de extrema-direita — ganhou as eleições regionais da Saxónia-Anhalt com cerca de 44% dos votos, mais do dobro do resultado de há cinco anos.
Talvez fosse interessante perguntar porquê. Porque isso, sim, começa a ser meio perigoso.
É que talvez chamar “fascista”, “racista”, “ignorante”, “nazi” ou “extremista” a toda a pessoa que manifesta determinadas preocupações não seja a estratégia política genial que alguns pensam que é. Talvez empurrar pessoas para fora da conversa não as faça desaparecer. Às vezes faz exatamente o contrário: empurra-as para o outro lado.
E a parte final desta história tem um sentido de humor que até o próprio Seinfeld provavelmente apreciaria: depois das polémicas, dos cancelamentos e dos apelos ao boicote, há setores do espetáculo dele na MEO Arena que já estão esgotados.
Ou seja… não sei se o boicote está a funcionar.
Mas a bilheteira parece ir de vento em popa.
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