Não discuto a credibilidade desse Sr., mas acho que não se pode ir atrás do que dizem os comentadores, sem pelo menos se reflectir um pouco. Até porque é sempre fácl encontrar quem diga tudo e o seu contrário, e vozes apocalípticas é o que mais se encontra nestas alturas de dificuldades. É que estes pessimistas empedernidos têm um mérito que não se lhes pode negar: numa economia de mercado mais tarde ou mais cedo acabam sempre por ter razão. É como a história do relógio parado que está sempre certo duas vezes por dia. Mas não acrescentam nada de verdadeiramente novo.
Sem dúvida que sim... e ele não é apenas um comentador. É também um economista (escola Austriaca). E o que este Sr disse não era muito diferente do que muitos outros com formação económica diziam, a começar pelo bem conhecido Ricardo Reis. Por isso acho um pouco forçado transformar os seus comentários e análises em apenas análises de uns empedernidos pessimistas. Afinal têm a mesma formação que tu e devem ser no mínimo levados tão a sério!
Já agora fica uma outra opinião de um Economista e Professor sobre esta situação retirado do Blog do Luís Aguiar-Conraria "
A destreza das Dúvidas":
Em Dezembro de 2004, escrevi um artigo com o meu amigo Pedro Bação da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, publicado no Jornal de Negócios, com o título “A desvalorização do dólar: um problema de risco moral?”. Argumentávamos aí que a posição do dólar enquanto moeda de reserva internacional introduzia um incentivo para que o desequilíbrio externo da economia americana fosse corrigido através de uma desvalorização do dólar e não pelo mecanismo alternativo, e mais doloroso, dum aumento da poupança dos privados e do Estado.
Durante os anos 90, o elevado retorno dos activos americanos, resultante do forte crescimento da produtividade e de alguma exuberância irracional (usando as famosas palavras de Alan Greenspan), permitiu o financiamento da economia americana pelo resto do mundo. Ou seja, os elevados níveis de consumo da economia americana eram parcialmente sustentados pelo acesso às poupanças do resto do mundo. Nos primeiros anos do século XXI, o fim dos excedentes orçamentais e os níveis de endividamento tornaram evidente a inevitabilidade de accionar mecanismos de correcção do desequilíbrio externo. Dos mecanismos disponíveis, como explicávamos no artigo acima referido, a desvalorização do dólar era o que à altura acarretaria menores custos para a economia americana. O estatuto de moeda de reserva internacional do dólar permitiria transferir pelo menos uma parte do custo do ajustamento do desequilíbrio externo para o resto do mundo, o que funcionou como um incentivo ao endividamento dos privados e do Estado (um comportamento a que os economistas chamam de ‘risco moral’). As baixas taxas de juro, mesmo depois de ultrapassada a curta recessão de 2001, e explicadas pela Reserva Federal por riscos de deflação, e os elevados défices orçamentais reflectem aquela opção do Governo e do Banco Central americano.
No entanto, a opção tomada pelos Estados Unidos não era isenta de riscos. Nos últimos 6 anos, e apesar da desvalorização do dólar face ao euro ter atingido, em alguns períodos, cerca de 100%, os níveis de endividamento mantiveram-se muito elevados. Com a queda dos preços da habitação, desde 2006, e a desaceleração da economia, a paixão por activos americanos foi esmaecendo e os fluxos de liquidez tornaram-se menos abundantes. Nessa altura, nem os imaginativos, e não regulados, instrumentos financeiros, que F tão bem tem descrito neste blogue, podiam continuar a disfarçar os insustentáveis níveis de alavancagem a que os bancos se tinham exposto. É possível que uma regulação adequada daqueles instrumentos tivesse impedido a actual crise. No entanto, ela teria também impedido o funcionamento do mecanismo de ajustamento do desequilíbrio externo escolhido pelos Estados Unidos.
A crise financeira tornou claro que o excesso de endividamento da economia americana não pode ser corrigido sem dor, isto é, sem mais poupanças ou menos consumo. E, pelo menos no curto prazo, essas poupanças serão ainda as do resto do mundo.
Concluindo, as autoridades políticas americanas, ao terem optado por aquela forma de ajustamento do seu desequilíbrio externo, são os principais responsáveis pela actual crise. Não foi só a ganância dos capitalistas que esteve na origem da actual crise. Foi também o descomedimento do consumo das famílias americanas, estimulado pelas baixas taxas de juro, e o despesismo do Estado americano.
Discordo assim da leitura dos que atribuem esta crise aos excessos do sistema capitalista. Ela deve ser antes atribuída ao excesso de endividamento da economia americana, privado e do Estado, e à tentativa das autoridades políticas americanas transferirem os custos de ajustamento do desequilíbrio externo da sua economia para o resto do mundo. O intervencionismo da Reserva Federal está nos antípodas de uma política monetária de um sistema capitalista do tipo “laissez-faire”.