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Uma menina de sete anos, com um tumor, foi mandada para casa para morrer por dois médicos do Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos. Os pais não desistiram e a pequena Salomé foi tratada em França. Agora, a Inspecção-Geral de Saúde acusa os médicos portugueses de terem cometido vários erros.
A Inspecção-Geral de Saúde (IGS) instaurou processos disciplinares a dois médicos neurocirurgiões do Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, por suspeita de negligência na assistência a uma menina de sete anos, Salomé Estrelinha, que tinha um tumor no pescoço. A actuação dos especialistas foi alvo de um processo de averiguações, que concluiu pela violação do dever geral de zelo, pelo que incorrem numa pena que pode ir da repreensão escrita à inactividade por dois anos.
Além do procedimento disciplinar, os dois neurocirurgiões poderão ainda ser julgados em Tribunal, no âmbito da queixa que vai ser apresentada no Ministério Público pelos pais de Salomé. O Conselho de Administração do Hospital Pedro Hispano, que em Agosto do ano passado defendeu a conduta dos dois especialistas, entendeu ontem “não dever pronunciar-se” sobre o processo, adiantando apenas que os médicos “já foram notificados” da decisão.
Salomé, agora com dez anos, tinha sete quando lhe foi diagnosticado um tumor benigno no pescoço. Foi operada por duas vezes no Hospital Pedro Hispano, mas o tumor não foi retirado na totalidade e o seu estado de saúde agravou-se. Os pais foram informados de que nada mais havia a fazer para curá-la e foi enviada para casa para morrer. Só que os pais não desistiram, levaram a filha a um hospital em Paris, onde lhe foi retirado o tumor, numa intervenção cirúrgica prolongada e de alto risco, mas que trouxe Salomé de volta à vida. Recuperou e hoje leva uma vida normal, continuando a ser acompanhada pelos especialistas franceses. Luís e Celeste Estrelinha, residentes na Nazaré, queixaram-se dos neurocirurgiões à IGS, que instaurou um processo. Após várias perícias, a IGS concluiu que os médicos se “precipitaram ao informar que nada mais havia a fazer” para salvar a menina.
Além disso, “não programaram qualquer intervenção” para remover a parte restante do tumor que estava a deixar a criança paralisada, nem esclareceram os pais sobre as “alternativas terapêuticas existentes, as probabilidades de sucesso de cada uma e os respectivos riscos, a fim de optarem por um ou outro tratamento”.
“Ao não informarem os pais sobre esta questão tão importante, violaram o dever geral de zelo, pois desta forma os pais não puderam decidir sobre o melhor tratamento a dar a Salomé”, refere o relatório da IGS. Por outro lado, a técnica utilizada pelos neurocirurgiões para retirar o tumor (pela nuca) não foi a mais indicada, por não permitir a sua remoção total, mas “os médicos optaram por esta via por ser aquela em que porventura tinham mais experiência e melhor podiam controlar e por representar menores riscos de infecção”. A técnica usada pelos cirurgiões franceses (pela garganta) permitiu a remoção total dos tecidos afectados.
Luís e Celeste Estrelinha, mostraram-se ontem “satisfeitos” com o relatório da IGS, por ser “muito completo” e esperam que os médicos sejam punidos.
SALVA EM HOSPITAL FRANCÊS
O longo calvário de Salomé começou com uma dor no pescoço, de início associada a um torcicolo, em Março de 2003. Os exames revelaram a existência de um tumor benigno, designado por osteoblastoma, instalado na vértebra C2, que teria de ser retirado. Só que as duas intervenções chefiadas pelos neurocirurgiões Artur Vaz e Mário Resende – agora sujeitos a procedimento disciplinar – não trouxeram a cura. O tumor continuava a crescer e a pôr em risco a vida da menina. Ao perceberem a gravidade da situação, Luís e Celeste Estrelinha recorreram a especialistas franceses, que se mostraram chocados com os “disparates” feitos em Portugal e fizeram uma nova cirurgia, salvando-a de uma morte certa. Quando saiu do Hospital Lariboisière, em Paris, Salomé era autónoma do ponto de vista respiratório e alimentar e recuperava a parte motora.
ESCOLHIDA TÉCNICA ERRADA
Segundo os médicos franceses, foi a técnica que usaram que salvou Salomé: em vez de tentarem retirar o tumor pela nuca, como tinha sido feito por duas vezes, sem êxito, em Portugal, os médicos do Hospital Lariboisière intervieram através da garganta, o que lhes permitiu remover todos os tecidos afectados pela lesão. A menina sofria de uma patologia rara, um tumor benigno que se instalara no pescoço, designado por osteoblastoma, e a sua localização colocava problemas terapêuticos de grande complexidade. A situação carecia de uma actuação urgente, pois evoluía para uma paralisia que atingia os quatro membros e o tratamento era iminentemente cirúrgico, visando a remoção total do tumor. O passo seguinte foi a substituição da prótese por outra mais adequada. O pós-operatório foi muito difícil, pois a menina sofreu uma meningite, mas conseguiu recuperar na totalidade. Salomé continua a ser observada com regularidade pelos especialistas franceses. A última consulta ocorreu em Junho passado. Cada intervenção realizada em França é acompanhada de relatórios médicos pormenorizados, o que veio facilitar a avaliação feita pelos peritos nas especialidades de Pediatria Oncológica e de Neurocirurgia contactados pela Inspecção-Geral de Saúde.
DO PORTO PARA ESPANHA
No dia 31 de Agosto, no Porto, uma menina de seis anos ficou com queimaduras graves em 40 por cento do corpo. Foi internada no Hospital de São João (HSJ) e, a 5 de Setembro, transferida para um hospital na Corunha, Espanha, onde ainda se encontra, sem data prevista de regresso. Foi lá que foi operada porque, segundo o HSJ, “nenhum hospital português estava capacitado para tratar um caso tão grave”.
In correio da manha
A Inspecção-Geral de Saúde (IGS) instaurou processos disciplinares a dois médicos neurocirurgiões do Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, por suspeita de negligência na assistência a uma menina de sete anos, Salomé Estrelinha, que tinha um tumor no pescoço. A actuação dos especialistas foi alvo de um processo de averiguações, que concluiu pela violação do dever geral de zelo, pelo que incorrem numa pena que pode ir da repreensão escrita à inactividade por dois anos.
Além do procedimento disciplinar, os dois neurocirurgiões poderão ainda ser julgados em Tribunal, no âmbito da queixa que vai ser apresentada no Ministério Público pelos pais de Salomé. O Conselho de Administração do Hospital Pedro Hispano, que em Agosto do ano passado defendeu a conduta dos dois especialistas, entendeu ontem “não dever pronunciar-se” sobre o processo, adiantando apenas que os médicos “já foram notificados” da decisão.
Salomé, agora com dez anos, tinha sete quando lhe foi diagnosticado um tumor benigno no pescoço. Foi operada por duas vezes no Hospital Pedro Hispano, mas o tumor não foi retirado na totalidade e o seu estado de saúde agravou-se. Os pais foram informados de que nada mais havia a fazer para curá-la e foi enviada para casa para morrer. Só que os pais não desistiram, levaram a filha a um hospital em Paris, onde lhe foi retirado o tumor, numa intervenção cirúrgica prolongada e de alto risco, mas que trouxe Salomé de volta à vida. Recuperou e hoje leva uma vida normal, continuando a ser acompanhada pelos especialistas franceses. Luís e Celeste Estrelinha, residentes na Nazaré, queixaram-se dos neurocirurgiões à IGS, que instaurou um processo. Após várias perícias, a IGS concluiu que os médicos se “precipitaram ao informar que nada mais havia a fazer” para salvar a menina.
Além disso, “não programaram qualquer intervenção” para remover a parte restante do tumor que estava a deixar a criança paralisada, nem esclareceram os pais sobre as “alternativas terapêuticas existentes, as probabilidades de sucesso de cada uma e os respectivos riscos, a fim de optarem por um ou outro tratamento”.
“Ao não informarem os pais sobre esta questão tão importante, violaram o dever geral de zelo, pois desta forma os pais não puderam decidir sobre o melhor tratamento a dar a Salomé”, refere o relatório da IGS. Por outro lado, a técnica utilizada pelos neurocirurgiões para retirar o tumor (pela nuca) não foi a mais indicada, por não permitir a sua remoção total, mas “os médicos optaram por esta via por ser aquela em que porventura tinham mais experiência e melhor podiam controlar e por representar menores riscos de infecção”. A técnica usada pelos cirurgiões franceses (pela garganta) permitiu a remoção total dos tecidos afectados.
Luís e Celeste Estrelinha, mostraram-se ontem “satisfeitos” com o relatório da IGS, por ser “muito completo” e esperam que os médicos sejam punidos.
SALVA EM HOSPITAL FRANCÊS
O longo calvário de Salomé começou com uma dor no pescoço, de início associada a um torcicolo, em Março de 2003. Os exames revelaram a existência de um tumor benigno, designado por osteoblastoma, instalado na vértebra C2, que teria de ser retirado. Só que as duas intervenções chefiadas pelos neurocirurgiões Artur Vaz e Mário Resende – agora sujeitos a procedimento disciplinar – não trouxeram a cura. O tumor continuava a crescer e a pôr em risco a vida da menina. Ao perceberem a gravidade da situação, Luís e Celeste Estrelinha recorreram a especialistas franceses, que se mostraram chocados com os “disparates” feitos em Portugal e fizeram uma nova cirurgia, salvando-a de uma morte certa. Quando saiu do Hospital Lariboisière, em Paris, Salomé era autónoma do ponto de vista respiratório e alimentar e recuperava a parte motora.
ESCOLHIDA TÉCNICA ERRADA
Segundo os médicos franceses, foi a técnica que usaram que salvou Salomé: em vez de tentarem retirar o tumor pela nuca, como tinha sido feito por duas vezes, sem êxito, em Portugal, os médicos do Hospital Lariboisière intervieram através da garganta, o que lhes permitiu remover todos os tecidos afectados pela lesão. A menina sofria de uma patologia rara, um tumor benigno que se instalara no pescoço, designado por osteoblastoma, e a sua localização colocava problemas terapêuticos de grande complexidade. A situação carecia de uma actuação urgente, pois evoluía para uma paralisia que atingia os quatro membros e o tratamento era iminentemente cirúrgico, visando a remoção total do tumor. O passo seguinte foi a substituição da prótese por outra mais adequada. O pós-operatório foi muito difícil, pois a menina sofreu uma meningite, mas conseguiu recuperar na totalidade. Salomé continua a ser observada com regularidade pelos especialistas franceses. A última consulta ocorreu em Junho passado. Cada intervenção realizada em França é acompanhada de relatórios médicos pormenorizados, o que veio facilitar a avaliação feita pelos peritos nas especialidades de Pediatria Oncológica e de Neurocirurgia contactados pela Inspecção-Geral de Saúde.
DO PORTO PARA ESPANHA
No dia 31 de Agosto, no Porto, uma menina de seis anos ficou com queimaduras graves em 40 por cento do corpo. Foi internada no Hospital de São João (HSJ) e, a 5 de Setembro, transferida para um hospital na Corunha, Espanha, onde ainda se encontra, sem data prevista de regresso. Foi lá que foi operada porque, segundo o HSJ, “nenhum hospital português estava capacitado para tratar um caso tão grave”.
In correio da manha