Tinha ficado prometido um relato da passagem do 2.24 cá por casa...
Primeiro que tudo fazer 2 declarações de interesses.
1. As marcas cuja sonoridade mais me agrada são a Maserati e a Aston Martin
2. Nestas coisas dos clássicos ligo muito mais à estética e sonoridade que à fiabilidade e dinâmica apurada.
A
signora italiana tem 32 anos, imigrou para Portugal há 15 anos, e assinala 75 mil km percorridos por essas estradas a fora. O seu coração, barulhento, é descendente de uma linhagem que começou na Formula 1
Gosto das linhas, ligeiramente mais arredondadas que os primeiros desta série “222”. A cor não seria a minha primeira escolha, mas não lhe assenta mal. Os interiores luxuosos em pele clara, com apliques em madeira são mesmo à anos 80. Os bancos têm uma comodidade muito boa, dignos de um “GT”, como é a filosofia deste carro. Os bancos traseiros aparentam ter um acerto similar aos frontais, embora menos espaçosos dada a filosofia coupé 2+2.
O painel Jaeger apresenta diversas luzes e luzinhas, mais pressão do turbo e óleo, voltímetro e os tradicionais mostradores.
O volante de aro em madeira e de diâmetro largo retiram-lhe alguma assertividade em condução mais aplicada. A alavanca da caixa, também em madeira, informa no topo os mais distraídos que a 1a velocidade é para trás. A direcção é leve para os padrões da época, e os pedais duros.
O tacto da caixa é do mais metálico que já me passou pelas mãos. Curso curto, tacto metálico, mas um bocadinho vaga para o que esperava.
Na primeira abordagem fiz 2 km com ele, sempre em zona urbana. Não apertei porque não é meu, e não sei qual o estado de manutenção. O motor acorda lentamente, precisando de uns minutos para limpar a “garganta” e acabar com os engasgos. A sonoridade é aquele som metálico e grave a que a Maserati nos habituou. Estiquei uma 1a às 3 mil rpm e meti 2a para deixar rolar. Tive pena de não esticar, mas a responsabilidade assim obriga. Para uma viagem maior, achei o ruído do 2.0 V6 Biturbo, demasiado intenso no interior do habitáculo.
Ficou umas semanas à minha guarda, até o dono ter disponibilidade para a vir buscar. Nesse dia consegui concretizar o sonho de uma menina, que tinha ficado vidrada num contacto visual que teve com a
signora. À saída, o proprietário pergunta-me "Rui, você gostou tanto do carro, quer levá-lo até à minha garagem?"... "Claro que sim!!". O motor já estava ligado e com a garganta afinada.
Foram mais uns 3 ou 4 km, infelizmente maioritariamente em zona urbana, seguido pelo dono no meu S80. Ainda deu para sentir os turbos a entrar em 2ª e deixar rolar em 3ª. Curiosa a reacção dos transeuntes a admirarem aquela estranha criatura, de sonoridade possante. Quando se pisa o acelerador, dá vontade de seguir a próxima estrada sinuosa (qb)e conduzir sem destino. Nota-se que é 100% italiano, irracional, barulhento, difícil de domar numa condução mais aplicada (basta sentir os comandos, em especial o volante de diâmetro generoso)
Posto isto, adoptava esta menina italiana não fosse a compensação monetária exigida pelos pais. Tão bom que era se seguissem antes a tradição do dote. Este exemplar não está
mint, tal como se constata nas fotos, mas parece-me que constitui uma base excelente.
Como nota final, já tive a sorte de conhecer alguns coleccionadores, e é curioso perceber como podem ter formas diferentes de encarar a sua colecção. Quando pedi ao proprietário desta viatura se podia publicar um pequeno relato da experiência e algumas fotos, recebi como resposta, "Claro que sim Rui! Os meus carros são para ser mostrados à comunidade, não faz qualquer sentido escondê-los! Os carros são para nos divertirmos!"
