Faleceu José Megre

Pela sua Grandiosa contribuição no desporto automóvel e ter partilhado as suas viagens pelo mundo fora,

Obrigado, Sr. Megre.
 
Estou sem palavras.
É uma referência para mim, ontem mesmo o referi a um amigo.

Como disseram, para além de um curriculum invejável, era o único dirigente do desporto automóvel português - dirigente por estatuto próprio, não por qualquer cargo que tenha ocupado - que se preocupava com o acesso a todos os apaixonados pelo desporto automóvel.

É insubstituível.
A minha sincera e mais profunda homenagem a este GIGANTE.

O mundo automóvel em Portugal perdeu a sua referência máxima.
Estamos agora entregues à bicharada.

Eu não diria mais.......

O melhor exemplo é a comparação da 1ª edição do Lisboa-Dakar com a 2ª e o eventual descalabro da 3ª que entretanto foi anulado.
 
Nem sabia que estava doente...[s)]
Ironia morrer no dia da prova mais importante do TT Nacional....
Á irmã Isabel que conheço bem, deixo as minhas condolencias!:(
 
Nem sabia que estava doente...[s)]
Ironia morrer no dia da prova mais importante do TT Nacional....
Á irmã Isabel que conheço bem, deixo as minhas condolencias!:(

Peço desculpa pelo OT mas que prova falamos ?

Eu hoje a caminho de Reguengos de Monsaraz vindo de Évora passei por uma prova de TT. Montes de BT e de pessoas. Era isso ?

Sobre este grande senhor. Que descanse em paz.
 
Peço desculpa pelo OT mas que prova falamos ?

Eu hoje a caminho de Reguengos de Monsaraz vindo de Évora passei por uma prova de TT. Montes de BT e de pessoas. Era isso ?

Sobre este grande senhor. Que descanse em paz.

A prova que hoje (ontem) se disputava era o Rally TT Ervideira, antigo Esporão Vindimas.

Quanto a ser a mais importante do nosso TT não concordo. Esse título será quanto a mim da Baja Portalegre 500 mas isso agora também não passa de um detalhe...


O que importa é que o TT em particular e o automobilismo português em geral sofreu uma perda irreparável [s)]
 
A última viagem de José Megre
Históricos do todo-o-terreno no funeral do fundador do Clube Aventura, falecido sábado, em Lisboa, de complicações pulmonares.

Eram cinco da tarde quando foi fechada a porta do jazigo da família Megre, em Águas (Penamacor). Cobrindo o caixão de José Megre um autocolante do Clube Aventura, a boina vermelha de oficial comando e o chapéu de aba larga que o acompanhou em tantas viagens pelo mundo fora. Apenas faltava uma placa com a sua divisa preferida "A sorte protege alguns audazes".

Apesar de ser um fim-de-semana com 'ponte', muitas centenas de pessoas marcaram presença na última homenagem a este homem que esteve para o todo-o-terreno como César Torres esteve para os ralis: uma figura prestigiada nacional e internacionalmente, capaz de unificar os diferentes interesses e indissociável da própria modalidade.

Com a morte de Megre, desaparece, um pouco, o espírito cavalheiresco, o prazer da aventura, a paixão do todo-o-terreno, no fundo tudo o que o levou a percorrer quase duas centenas de países, do deserto do Sara às pampas argentinas, do sul de Angola ao Tibete.

Sabedor, há mais de um ano, de que poderia não lhe restar muito tempo de vida, não deixou de levar a cabo as suas últimas viagens, visitando, por exemplo, os lagos de sal de Dallol, no deserto Danakil, na Somália, um lugar paradisíaco mas remoto e perigoso, onde semanas depois, uma facção armada raptaria turistas britânicos.

Viajante profissional, antigo soldado e homem de múltiplos recursos, Megre conseguiu sempre resolver os imprevistos e fintar os perigos em tantos anos de expedições por lugares remotos. "É preciso estudar bem a lição antes de partir. E, uma vez lá chegado, ter a humildade de perceber como os outros, os que lá estão, pensam".

Assim resumia ele a sua maneira de funcionar na última entrevista que deu ao Expresso, em Setembro do ano passado, por ocasião da Feira da Aventura e do Coleccionismo, realizada na casa da família em Águas, ao lado da qual, agora repousa.

Entre a Basílica da Estrela e a sua aldeia, multiplicaram-se, nos dois últimos dias, as presenças da família do todo-o-terreno que ele ajudou a constituir. Uma presença que só não se alargou ainda mais, por neste fim-de-semana se disputar, em Reguengos, a primeira prova do campeonato nacional.

Entre companheiros de expedições, actuais ou antigos pilotos, comissários e secretariado do Clube Aventura, para além dos amigos e família, estiveram presentes Pedro Cortez e Pedro Vilas Boas que com ele foram ao primeiro Dakar com portugueses, em 1983 e de UMM. Manecas Caetano que o assegurou o apoio mecânico em tantas expedições e o médico João Rangel. Teresa Cupertino que o acompanhou, mundo fora, em tantas aventuras. E muitos históricos do todo-o-terreno, de Eduardo Lyon de Castro a Rui Casimiro, de Pedro Masson a Patrícia Caldeira, sem esquecer Luis Lourenço, Isabel Robalo, Ana Barbosa, António Mendes Nunes e o amigo de sempre Carlos Barbosa, presidente do Automóvel Clube de Portugal.

Para além de João Luz, antigo co-piloto de Carlos Sousa, parcialmente incapacitado pelo acidente no Dakar e que aqui veio prolongar o longo abraço que trocara com Megre no final da última edição da Baja de Portalegre, em Novembro passado, altura em que regressou à modalidade, ao lado de Ricardo Leal dos Santos. E tantos outros cuja enumeração tornaria este texto tão comprido como a lista de países por onde Megre andou. E que saíram de Penamacor trazendo colado nos vidros dos carros o autocolante do Clube Aventura com a legenda "Até sempre José Megre!"

A edição do Trasnportugal marcada para o próximo fim-de-semana para o Guadiana mantém-se, seguindo-se domingo às 19h00, em Beja, uma missa em memória do fundador do Clube Todo-o-Terreno e do Clube Aventura.

«Expresso»
 
Fui apanhado de surpresa
Hoje no jornal ouvi falar dele, mas não sabia que era por causa desta triste notícia.
Sempre gostei bastante deste senhor, até porque lembro-me de ser puto e ter aprendido a gostar de ver TT por causa das suas provas.
 
Excelente artigo.

PÚBLICO - 28.02.2009, José Manuel Fernandes
"Ele levou-nos a descobrir o mundo. À sua maneira"

"Morreu há uma semana num hospital de Lisboa. Depois de ter viajado por 193 dos 194 países do mundo. Era muito mais do que um grande viajante, do que um amante dos espaços livres, do património e dos automóveis. Era um mestre e um líder. Com quem aprendi muito

O dia já ia longo, muito longo. Tínhamos arrancado manhã cedo de São Pedro de Atacama, no Chile, e devíamos dormir numa aldeia na margem do Salar de Uyuni, na Bolívia. Mas isso era tudo quanto eu sabia. Ou, para ser mais exacto, quando a noite caiu também sabia que ainda faltavam percorrer uns 150/200 quilómetros. A coluna de jipes Terrano seguia a bom ritmo, com José Megre à frente a marcar a passada. Para trás tinham ficado alguns contratempos, uma sempre trabalhosa passagem pela fronteira - um posto militar -, nada comparado com a sucessão de paisagens deslumbrantes, povoadas de vulcões, fontes termais, lagos salgados e flamingos, que atravessáramos. O pior foi quando a luz desapareceu e ligámos os faróis do nosso jipe e se fundiu a única lâmpada que restava. Seguir por uma estrada de montanha, em péssimo estado, no meio do pó levantado pelos que iam à nossa frente, os olhos fixos nas pálidas lâmpadas de presença, incapazes de adivinhar os buracos onde caíamos a todo o momento, rapidamente se revelou um tormento. E um susto quando, no meio da escuridão, percebemos que estávamos sozinhos, que tínhamos perdido algum cruzamento. Parámos, como mandam as normas, e esperámos. A lua cheia e um céu de uma transparência cristalina poderiam ter ajudado a perceber onde estávamos, mas a quase quatro mil metros de altitude, nos Andes, não há vivalma, a vegetação é rara e as montanhas em redor são apenas sombras escuras. Passados alguns - longos - minutos lá apareceu alguém da caravana para nos reconduzir à pista certa e pouco depois juntámo-nos ao grupo que parara pouco depois à entrada do Salar. Não fazia ideia onde estava, não imaginava o que podia ser um "salar" e só tinha um desejo: que José Megre, que só montava as tendas quando não havia mesmo alternativa, fosse razoável. O solo era plano e branco, parecia fácil espetar as estacas, e só a ideia de continuar a guiar de noite sem faróis deixava-me doente. Mas não. Nessa noite estava planeado que pernoitássemos em Jirira (sabia lá eu onde raio ficaria Jirira...) e era para lá que seguiríamos. "Falta pouco", disse-nos o inveterado viajante. "Uns 100 quilómetros. Pomo-nos lá numa hora." Não quis acreditar. Tínhamos levado umas dez horas a fazer 400 ou 500 quilómetros e ele dizia que agora, de noite e sem faróis, numa hora percorreríamos os 100 que faltavam? "Zé Manel: passa para a frente, segue ao lado da caravana e verás que te iluminamos o caminho. Vai tudo correr bem." Apagou o cigarro, sentou-se ao volante e lá fomos todos, atrás do líder. Que, para não variar, tomara a decisão certa.

Capacidade de liderança O Salar de Uyuni é uma gigantesca planície salgada, a maior do mundo, com mais de 10 mil quilómetros quadrados, um décimo do tamanho de Portugal. Plano como uma mesa de bilhar, de um branco quase imaculado, o que se abriu à nossa frente foi uma "auto-estrada" iluminada pela luz prateada da Lua e que teria podido atravessar mesmo sem a ajuda dos faróis dos outros jipes. Não tardaria nada e já estávamos e rodar bem acima dos 100 km/h, sem faróis, de noite, maravilhados. Passaram quase 15 anos mas foi daquele momento preciso que primeiro me recordei quando, domingo, soube que o José Megre tinha morrido, tarde de mais para me despedir dele na Basílica da Estrela. E recordei-o pois revela uma faceta do "pai do todo-o-terreno" em Portugal que o distinguia: a sua capacidade de liderança, a calma e confiança que era capaz de inspirar a todos quantos o seguiam, a forma determinada como perseguia os seus objectivos, a sua capacidade de resistência que lhe permitia parecer sempre mais fresco do que os muito mais novos mesmo quando estava doente e só quem o conhecia melhor disso se apercebia.

Fui até à página que criara na Net (Jose Megre) para tentar recapitular as vezes em que nos cruzáramos e verificar como prosseguira o seu plano de conhecer todos os países do Mundo. E foi aí que tropecei num pormenor que não podia estar onde estava por acaso: ao fazer a lista dos prémios e distinções que recebeu ao longo da vida, e muito mais devem ter sido para além dos que ali enumerava, escolheu encabeçá-la com a Medalha de Cruz de Guerra que lhe foi atribuída por actos de heroísmo quando, alferes miliciano, comandou um grupo de combate da 12.ª Companhia de Comandos no Leste de Angola. Além do homem dos automóveis, engenheiro mecânico, piloto, organizador de provas e de expedições, além do viajante incansável, Megre continuava a ser um "soldado comando", como logo percebi visitando os sítios das associações de antigos combatentes.

A primeira vez que nos encontrámos foi num sítio improvável para um ex-comando: o mítico café Vává, no cruzamento da Estados Unidos da América com a Avenida de Roma, em Lisboa, lugar onde, nos anos 60, fervilhavam as tertúlias meio culturais, meio oposicionistas, de gente que logo se afirmaria como uma nova geração de artistas. Fui lá ter com ele e com o seu amigo Pedro Vilas Boas, depois, julgo, da sua primeira participação conjunta no Paris-Dakar (fizeram a prova juntos, ele a pilotar, o Pedro a tirar os azimutes, em 1982, 1983 e 1984, sempre no "jipe português", o UMM) para me contarem a aventura. Escrevia então no Expresso e não tardou que me entusiasmasse por uma actividade que então estava a nascer: andar de jipe por montes e vales. Fundadores do Clube Todo-o-Terreno, que ainda hoje se continua a dedicar ao turismo "fora de estrada", estariam de novo juntos na criação do Clube Aventura, este já com um cariz mais desportivo e que José Megre dirigiu até há poucos anos. As actividades foram-se multiplicando e cruzei-me muitas vezes com ele nas mais diferentes situações. Recordo-me, por exemplo, de como num raide Tomar-Viseu todos o saudaram quando conseguiu descobrir um trilho alternativo para ajudar a desencravar a caravana que ficara presa num imenso lamaçal. Ou de como, nuns penedos não longe de Ribeira de Pena, descobriu forma de montar um trial realmente competitivo que acabaria por decidir o vencedor de um dos primeiros Transportugal, a volta a Portugal fora de estrada. Ou ainda de o ver no paddock do Estoril como comissário de prova num dos Grandes Prémios de Fórmula 1 que aí se realizaram.

Nesses anos (1983, 1990), andar de jipe era uma experiência que pouco se assemelha à de hoje. Os modelos eram, com raras excepções, muito básicos e rústicos, nada confortáveis e pouco potentes. Na minha estreia, por exemplo, guiei um Portaro, um modelo montado em Portugal que tinha apenas 85 cavalos, bancos longitudinais atrás e nada de ar condicionado. Dominavam os UMM e recordo que um dos divertimentos dos mais experientes quando aparecia um novato era deixá-lo atolar quando este se esquecia que não bastava ligar a tracção às quatro rodas, era também necessário parar o veículo e sair para "bloquear os cubos" no eixo da frente. E se alguém passava de vidros fechados, sinal de que o modelo tinha ar condicionado, não faltavam os piropos daqueles para quem o pó, a lama, a chuva, o vento, o frio e o calor eram tão importantes para um dia bem passado como chegar ao topo de uma montanha e avistar o que de outra forma não era possível.

Profissional da aventura Tudo isso antes de participar em dois dos grandes raides que o José Megre organizou, ambos para a Nissan: primeiro o Terrano II Sul América, que acompanhei desde Cusco, no Peru, até Buenos Aires, na Argentina, com a tal inesquecível passagem pelo Salar de Uyuni, e o Terrano II Tibete, em 2001, quando cruzámos os Himalaias por duas vezes, para ligar Katmandu a Lhasa. Nessa altura já se tornara um profissional da aventura e ganhava o suficiente para continuar a viajar freneticamente, a coleccionar passaportes, carimbos e vistos, sobretudo a coleccionar experiências e a descobrir novos mundos. "Já estive em 94 países", disse-me numa grande livraria de Buenos Aires enquanto escolhia os vários quilos de livros de viagens que haveria de comprar. "Ainda me falta metade do mundo para visitar." Quando estivemos em Lhasa, no Tibete, já tinha começado a ir aos mais pequenos e estava confiante que haveria de conseguir pisar o solo e andar alguns quilómetros em todos os países independentes do Mundo. "Nesta altura muitos dos que me faltam são de fácil acesso", explicou-me, referindo-se a várias nações europeias recém-criadas, como os países bálticos e as diferentes repúblicas saídas da ex-Jugoslávia. "Mas há um aonde vai ser difícil ir", provoquei-o, sabendo que nessa altura ainda tinha um trunfo na manga. "Na Arábia Saudita não entra quem quer mas quem eles deixam", acrescentei, contando-lhe como, durante a primeira Guerra do Golfo, tinha podido conhecer um reino que achara desinteressante.

José Megre, que descobrira pouco tempo antes - e de lá viera encantado - o Iémen, não desistiu, e eu que não o via há tanto tempo descobri agora que, afinal, a Arábia Saudita até lhe abriu as portas por duas vezes. De fora, para seu desespero, só ficou o Iraque, o único dos 194 territórios ou nações independentes que nunca conseguiu visitar. E só porque a morte o encontrou aos 68 anos na cama de um hospital, não num dos muitos lugares remotos que percorreu com a sabedoria de quem conhecia os limites e calculava os riscos. A doença levou-o quando procurava resistir-lhe num canto de Lisboa, bem longe das imensidões desérticas que amava e que ensinou tantos a amar também. Adeus, Zé, e juro que ainda hoje sorrio quando me lembro daquela vez em que, durante as provas de selecção para ir ao Sul América, nos fizeste rebocar os jipes duas vezes para atravessar um arrozal perto de Canal Caveira antes de, logo a seguir, nos deixares no meio da serra de Grândola apenas com uma bússola e um azimute. Todas as pragas que te roguei eram injustas: o teu lado de ex-comando sabia que, no alto do Andes, poderíamos passar por momentos bem mais difíceis. Como aquele em que o jipe onde eu ia capotou..."

PÚBLICO - 28.02.2009, José Manuel Fernandes
 
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