O pedantismo sempre presente. Assim foi e assim é. Também concordo que certos programas são de facto aberrantes, posso até dizer vergonhosos, mas curiosamente mais para os protagonistas do que para os telespectadores, que o podem ou não ser, paradoxalmente.
Como não sou nem tenho pretensões de ser sociólogo, psicólogo ou analista do "social", quedo-me pela minha experiência. Como diria a velhinha dos reclames do Continente, ainda sou do tempo em que no Canal 1/2 passavam séries sobre História Mundial, Geografia, em hora específica programas dedicados a crianças e adolescentes, um programa de entretenimento com o Herman, as sempre oportunas notícias e quase sempre o remate feito por um ou dois filmes que passavam a partir das 22.00h, havendo até as semanas dedicadas a realizadores e actores. Ainda há bem pouco tempo o semanal dedicado ao Kubrick, ao Eastwood, entre outros, foram bastante interessantes, por exemplo.
Mas voltando atrás. Falamos de uma época em que as várias disciplinas ditas dignas apenas estavam ao alcance dos menos abonados por estas vias. Muita gente adorava poder ver o "BBC Vida Selvagem" todos os dias, ao invés de ter de se sujeitar a estar ao domingo às 11 horas em frente à televisão. Coisa que a parabólica resolvia, e dinheiro pela frente dava acesso a esse mundo de conhecimento. Isto quando ainda não havia Internet disponível em todo lado e aos bolsos de todos. Nem Meo, nem Zon, nem nada disso.
O acesso democratizou-se, rezam as crónicas do progresso. Temos internet a custos suportáveis, incluída nos serviços de TV, e mesmo que o não sejam, é quase uma obrigação, dada a quantidade de processos que hoje se realizam exclusivamente online. E quem quiser ter acesso à tão badalada cultura, tem à distância de um clique. No Youtube ou em centenas de sites que têm à disposição conteúdos do género. Porque certamente não quer estar a perder tempo a ver os reality shows travestidos e repetitivos que grassam no Discovery, Biography ou Odisseia. Ele é o homem que transforma uns carros e descreve o seu quotidiano, as ralações com funcionários e respectivas discussões...Ou a mulher que decide transformar a casa numa lixeira por desleixo, e é ajudada por sábios psicólogos que lhe diagnosticaram uma patologia, chamam-lhe acumuladores eu chamaria porcos...Ou o velho barbudo que tem uma má relação com o filho mas ainda assim trabalha com ele e protagoniza espectaculares montagens de motos, tudo condimentado com ameaças de morte pelo meio.
Com o poderoso comando na mão podemos ainda mudar de canal e satisfazer a nossa curiosidade científica. Afinal como funcionam as grandes cidades? Aí está um bom programa. Um tipo com ar idiota faz perguntas idiotas e faz cara de idiota ao ouvir as respostas. E ficamos a saber que há um estranho fenómeno, coisa a que chamam de "gravidade", que permite que possamos ter água em nossas casas sem gastar energia eléctrica...fantástico. E ainda ficamos cientes de que se morarmos num sítio alto, aí sim, é posto em marcha um plano maravilhoso, que consome alguma energia produzida. Umas espectaculares bombas de elevação que são monitorizadas por um marmanjo que até conta que a filha pode pegar uma carrada de chatos e outras doenças venéreas a eventuais interessados. Isto sim, serviço pago e de qualidade.
Enfadado com a lição de Física rudimentar, tento o canal seguinte. Versa sobre celebridades e as suas experiências. Melhor era impossível. Por curiosidade sempre quis saber onde foi Henry Ford a ideia de produção em série, ainda que ela já existisse, mas pronto... Afinal a celebridade era Paris Hilton e perorava acerca da sua relação com as drogas.
Com isto tudo chega-se a hora de jantar, de preparar as coisas, e cometo um sacrilégio....TVI...Casa dos Segredos. Uma dezena de desmiolados e pu**s estão no ecrã. Enquanto bato o bife para retirar a água, vou espreitando o rabo de algumas miúdas giras mas acéfalas.....Who cares?
Tou farto de trabalho...quero é descanso...