Máquinas de fazer pão

O melhor que fiz até hoje
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E receita?
 
"Ando para desistir de comprar pão no supermercado. Só que é o que tenho mais perto de casa e aprecio comer pão fresco ao pequeno-almoço. Gosto do pequeno-almoço em família, partir e partilhar o pão que compro pela manhã, e dos breves minutos de solidão e caminhada que o ato me proporciona. O problema é o pão. Já nem é aquilo a que, na infância, chamávamos “carcaças do Barreiro” que, ao fim do dia, ficavam secas e com um aspeto desconsolado, nem as “bolinhas de água” em que, acabadas de sair do forno, a manteiga e o queijo se derretiam numa fusão quase lasciva.

O que há ali, para além de uns cacetinhos industriais e regulamentares e uns pães de centeio que têm o mesmo sabor dos pães de outros cereais – sabem todos vagamente a pão, como se já não fossem pão, mas qualquer coisa “tipo pão” –, são umas atrevidamente designadas “bolas rústicas”, talvez para sugerir fabricos artesanais e origens campestres, mas que pioram a cada dia. Mais do que o sabor neutro deste pão tipo pão, com ligeiras reminiscências do verdadeiro pão, a gota de água foi mais prosaica: o tamanho variável destas bolas rústicas, não só de um dia para o outro, como na mesma fornada.

Queixei-me à funcionária, que, coitada, me respondeu com aquela distância impessoal em relação às coisas que fazemos: “a culpa não é nossa, vêm assim do fornecedor, nós só as pomos no forno.” Tive de lhe lembrar que, por muito que gostasse, não me era fácil chegar à fala com o fornecedor e que, como tal, teria de ser ela a ouvir os meus lamentos pelo estado atual da indústria da panificação. Porém, aquelas palavras esclareceram-me quanto ao motivo deste pão ser o que é e saber ao que sabe. Quem não tem culpa é o pão. Ele é apenas o culminar de todo um processo sem alma, sem orgulho e sem brio. É um pão de ninguém. Nem do fornecedor que entrega a massa de madrugada e se escapa furtivamente antes do sol raiar, nem da funcionária que funcionalmente o mete no forno deitando um olho preguiçoso à temperatura, nem meu, que o mastigo tristemente ao pequeno-almoço.

O pão é um assunto sério. Era o único alimento que beijávamos três vezes antes de deitar um bocado fora. Havia pelo pão um respeito religioso, um provável resquício da prática eucarística ou memória atormentada dos tempos de escassez. O pão da minha infância era aquele pão alentejano que durava dias e eu detestava por causa da côdea dura e dos dias que durava, um pão que o meu avô fatiava com a navalha e que lhe exigia uma tal força que as veias do braço latejavam à medida que ele o abria como se abrisse respeitosamente um animal sacrificial. Com aquele golpe lento, real, honrava-o. Por momentos, homem e pão pareciam ser feitos da mesma massa, ter vindo do mesmo chão.

Aquele pão representava a antítese de tudo o que as crianças gostam: era duro, difícil, resistente. Tinha algo de montanhoso, escarpado e agreste, como se o tivessem extraído do flanco de uma serra. Pertencia ao mundo dos adultos como os bolos, os berlindes e os balões pertenciam ao mundo das crianças. Era dos adultos como os copos de vinho e as navalhas e as terrinas e o borrego estufado.

Aquele pão solene, sério e majestoso como um rosto de velho ainda hoje continua nas mãos do meu avô, mesmo que o meu avô tenha morrido há muitos anos, enquanto eu reúno as migalhas deste pãozinho de supermercado que se esfarela e, como memórias frágeis que se dissolvem em pouco tempo, se esquece."

O pão é assunto sério
apr:)
 
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