Miguel Sousa Tavares ameaça denunciar suspeitos de calúnia
Só na segunda-feira é que Miguel Sousa Tavares decidirá sobre a inclusão do nome de dois suspeitos da autoria do blogue freedomtocopy (que, desde o dia 20, o acusa de plágio literário em Equador) na queixa-crime contra incertos que será entregue na Polícia Judiciária.
"Um dos suspeitos é bloguista do Bloco de Esquerda que gosta de pôr coisas anónimas, por uma questão de traumas pessoais, e o outro é um escritor falhado e invejoso, cuja produção literária consiste em destruir os outros" revela, ao DN, o escritor e jornalista.
Era meia-noite de sábado quando o redactor de um matutino lhe telefona a pedir comentários ao blogue - que desconhecia. "Senti-me totalmente indefeso e vulnerável", recorda. E acrescenta: "A calúnia causou danos. Em meia hora consegue-se 'sujar' um nome e o mérito de um trabalho de anos."
O autor lamenta que mesmo que se descubra quem é o autor e este vá a tribunal, "só será condenado daqui a dois anos, quando ninguém se lembrar do caso".
Falcatrua primária</u>
O DN comparou os textos que estão na base da acusação anónima e concluiu que esta é infundada. Miguel Sousa Tavares não plagiou no romance Equador (Oficina do Livro) a obra Esta Noite a Liberdade, de Dominique Lapierre e Larry Collins, sobre a independência da Índia - cuja capa da primeira edição (Círculo de Leitores) reproduzimos.
Por ser difícil a explicação escrita de ambos os textos, copiamos em baixo as versões do blogue e a página 11 do livro de Sousa Tavares. O anónimo sugere, erroneamente, que o início de Equador seria decalcado quase palavra a palavra da abertura de Esta Noite a Liberdade (ver caixas), o que não acontece. E quais serão as consequências de ataques deste tipo? Não é o alcance da reprodução da calúnia na blogosfera - e respectiva repercussão nos media - mais amplificada do que o direito de resposta?
Blogosfera impune?</u>
"O impacto da demonstração da verdade é menor do que o da acusação, o que coloca problemas gravíssimos", observa ao DN, o presidente da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERCS), Azeredo Perdigão. E acrescenta: "O estigma fica amplificado na ideia do espaço público." Neste caso, a ERCS nada pode fazer, porque o blogue "não tem tratamento editorial", mas o responsável acha que o caso "levanta questões graves sobre o impacto dos blogues nos direitos fundamentais".
Miguel Sousa Tavares concorda. "Um blogue não pode ser uma manifestação de liberdade se não houver responsabilidade. Assim, é mera libertinagem", sustenta, advogando que "não devia ser possível abrir um blogue sem o autor ser identificado e tecnicamente confirmado".
O suposto "plágio" resume-se, na verdade, a apenas três páginas de Equador (págs. 245, 246 e 247), em que Sousa Tavares evoca diversos episódios exóticos da vida de marajás indianos - um tema secundário do romance. Comparadas as versões, além de se perceber que não há plágio no sentido estrito do termo, entende-se facilmente que as fontes históricas do escritor português sobre o assunto não se limitaram ao livro Esta Noite a Liberdade. O que o próprio confirma: "Uma das fontes foi a colecção da revista London Week News , da qual possuo números de 1878 a 1938."
O editor António Lobato Faria, da Oficina do Livro, não se mostra demasiado preocupado, porque acha que "o assunto terá pouco impacto a médio prazo". As vendas de Equador continuam a revelar um bom investimento. "Desde 2003, tem-se mantido entre os mais. Na 27.ª edição e com 270 mil exem- plares vendidos. E todos os anos continua a vender dezenas de milhar."
DN