Um artigo de um conhecido meu que escreve em O 1º de Janeiro.
http://www.oprimeirodejaneiro.pt/?o...3&subsec=&id=7818ff0f2c657431456d4a90eaf4c9f3
Portugal no Mundo
Gonçalo Coelho*
Esta semana vi Portugal através de um espelho – um espelho chamado Turquia. Por motivos decorrentes da minha ocupação profissional desvendei um pouco da forma como os turcos nos vêem. Como é sabido, uma grande parte de Portugal tende a dar maior atenção ao copo meio vazio do que ao meio cheio e, assim sendo, tendemos a receber mais opiniões de países que detêm uma imagem mais negativa de Portugal, do que opiniões positivas que o mundo detenha de nós. É assim que concedemos grande atenção à opinião que os franceses, ingleses ou alemães têm de nós e tendemos a comparar-nos com eles, a medir a nossa posição no percurso que eles escolheram seguir. Pessoalmente, gosto mais de ouvir opiniões dos asiáticos ou dos latino-americanos a nosso respeito. Por exemplo, no Brasil, o nosso queijo ou os nossos vinhos são considerados produtos de requinte e qualidade superior mas já em França, Espanha ou Inglaterra isso não acontece.
Muitos dirão que estamos na União Europeia e devemos olhar o nosso país no enquadramento europeu mas então e a globalização? O mundo português não pode ser apenas a Europa, ainda que tenhamos orgulho em ser europeus. A nossa ligação com o Brasil ou Angola (para citar apenas alguns) é bem mais forte do que com a generalidade dos países europeus e ultrapassa largamente a questão da língua. Ignorar estes laços e esta realidade seria um erro. É aí que entra a Turquia e o meu amigo turco. Através do espelho que colocou perante mim, voltei a ver a imagem do Portugal Global em deterimento da redutora imagem do Portugal Europeu, ou seja, um Portugal que é parte de um todo chamado Mundo que, um dia, ajudamos a descobrir e tornar mais próximo, não de um Portugal na cauda da Europa, geograficamente marginalizado. Se Portugal está geograficamente marginalizado na Europa, está longe de o estar no Mundo. Assim, o meu amigo turco, louvou a dieta mediterrânica, os longos almoços sem o número de obesos da Alemanha ou da Inglaterra; no Porto (onde ficou hospedado), a arquitectura típica, o belo enquadramento com o Douro, a ausência da abismal quantidade de McDonalds que reina no centro das cidades europeias; a paisagem minhota; a manutenção da indústria têxtil apesar da agressiva concorrência chinesa; o gosto das cebolas. Tudo isto sem a constante omnipresença daquela imagem que nos ofusca quando somos apresentados meramente como parte da Europa. A identidade portuguesa fica triste, pardacenta e incompleta, como um cão sem dono, quando vista apenas como parte da história e da realidade europeia. Portugal tem vocação mundial, muito mais do que europeia. Nós somos África, Ásia, América e Oceânia, sem nunca renegar que pertencemos orgulhosamente também à histórica construção europeia. Através do espelho do meu amigo turco vislumbrei uma vez mais o nosso país tal como ele é, enquadrado num espaço conquistado por direito próprio no mundo. É nesse mundo que poderemos encontrar crescimento económico, relações políticas e diplomáticas de impacto mundial, expansão e reconhecimento do nosso património histórico e cultural – em suma, um lugar único e o nosso verdadeiro único lugar.
goncalo.@.santosgmail.com
Escreve no JANEIRO quinzenalmente