DISSE: "TARADINHOS DO AMBIENTE"?
Dizem estudos recentes que, quanto mais tarde uma pessoa se deita, mais inteligente é – e, como há já uns anos eu andava desconfiado disso (mais uma prova de como sou inteligente), nem sempre estava acordado à hora do Bom Dia Portugal. Entretanto, porém, dei-me conta dessa pequena pérola da bem-aventurança e da técnica televisiva que se chama Minuto Verde, rubrica dividida entre Francisco Ferreira e uma série de raparigas da Quercus (para mim uma autêntica religião, mais até do que uma associação ambientalista) – e agora dou diariamente por mim em frente ao ecrã, a pasmar, ainda as filas na Ponte não começaram.
Minuto Verde é tão bom, tão bom, mas tão bom, que devia ser pelo menos uma Hora Verde. A minha esperança é que, mais cedo ou mais tarde, os nossos programadores percebam o potencial do eng. Ferreira e das suas Ferreirettes e lhes proporcionem uma gala de domingo à noite. Afinal de contas, gastamos tanto dinheiro em humoristas profissionais, em actores e em guionistas, em câmaras, em equipas de produção e em figurantes, e o humor está todo ali, num homem que fala para uma câmara só, sem guião nem nada. Stand-up comedy pura e dura, é o que é. E da boa, sem essas fórmulas de carregar-pela-boca que o Ricardo Araújo Pereira e o Nilton e o Bruno Nogueira foram roubar aos americanos e que, bem vistas as coisas, não interpretam o sentir nacional.
Em Minuto Verde, damo-nos conta de coisas tão importantes como a necessidade de levar no braço uma cestinha para trazer os ovos da mercearia, de forma a ensinar ao mundo que isso das caixinhas de papelão é no Djibouti e mais nada. Em Minuto Verde aprendemos que um português, para ser verdadeiro, come polvo na consoada, em vez de ir comprar bacalhau aos noruegueses, esses exploradores de petróleo. Quem alguma vez viu Minuto Verde de certeza não passou o Natal a dar presentes aos amigos todos, antes organizando lá em casa um “Amigo Secreto”, para acabar de vez com o consumismo. Se você quer mesmo ser um homem Minuto Verde, já se deixou há muito tempo dessa mania de tomar banho todos os dias – e, aliás, sabe também que não deve puxar o autoclismo de todas as vezes que vai ao WC, puxando-o apenas quando faz um “número 2” e deixando sem problemas os seus sucessivos “números 1” ali a marinar durante o dia.
Tem nojo? Então é porque é um capitalista. O homem do futuro não tem nojo do xixi nem do cocó. O xixi e o cocó são coisas naturais – tão naturais como o suor e o vómito, a saliva e os perdigotos, a voz e o próprio gesto de caminhar. O xixi e o cocó são apenas matéria orgânica – e, aliás, até deviam ser tratados de outra maneira. Segundo aprendi em Minuto Verde, por exemplo, podíamos perfeitamente dar outro tratamento ao cocó dos cavalos que andam ali nos Jerónimos a passear turistas. Bastava os cavalinhos usarem uma fralda grande que lhes apanhasse o cocó: ficavam as ruas limpas e ainda se podia aproveitar o cocó para a produção de energia. De resto, uma das minhas Ferreirettes predilectas até vai mais longe: tem no quintal uns quantos milhões de minhocas que lhe comem o xixi, o cocó e outras matérias perecíveis. De vez em quando entram-lhe duas dúzias delas pela casa adentro, mas paciência: as minhocas são elas próprias naturais.
Nunca se maquilharam, nunca se perfumaram e talvez até nunca tenham mudado de cuecas, as Ferreirettes. E, no entanto, não ficam por aí, as informações de Minuto Verde sobre a sua higiene íntima. Num episódio recente, fiquei a saber, por exemplo, que, em vez de pensos higiénicos, e sempre que se dão conta da chegada daquele incómodo período do mês (apesar de tudo natural, absolutamente natural), elas põem nas suas, digamos, partes um conezinho de silicone que vai aparando o, digamos, sangue ao longo do dia – e que, finda a jornada, pode ser lavado para utilizar de novo no dia seguinte. Eu não sei, mas a ideia com que fico é que até deve dar um certo aconchego. Se José Sócrates anda agora a chamar a esta gente “taradinhos do ambiente”, só pode ser perigoso. Quando vier o cometa, sempre quero ver se o senhor Primeiro lhe apanha a cauda. É o apanhas.
CRÓNICA ("Muito Bons Somos Nós")
NS', 1 de Janeiro de 2011