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Definitivamente Dante Alighieri estava errado quando afirmou que o inferno onde os gordinhos iriam pagar por sua gula era em um dos níveis do seu inferno, com Cérbero (o cão de três cabeças), o lamaçal de sujeira e os gordinhos imersos em seu próprio vômito. É provável que o escritor do século XIII estivesse querendo oferecer algum alívio a um possível amigo com excesso de peso. Percebemos isso quando refletimos sobre o real inferno dos gordos.
Aquele inferninho dos que possuem alta concentração de massa abdominal, proposto por Dante, é um parquinho de diversões quando comparado com o "verdadeiro" inferno vivido pelos gordinhos. Afirmo isso com propriedade, uma vez que vivo uma fase, duradoura por sinal, de "quilos a mais".
O "verdadeiro" inferno vivido pelos gordinhos começa ao abrir o guarda-roupas. As camisas, cuecas, calças, etc., fazem questão de denunciar cada dobra do corpo. "Quando foi que ganhei este peitinho?" Nem me lembro...
Uma vez vestido é a vez do espelho pedir para você dar dois passos para trás para que, assim, você apareça inteiro no espelho. Tudo bem, é só um espelho idiota. Ops, derrubei algo ao dar dois passos para trás.
Estou arrumado. Entro no carro e o volante decidi ir coladinho com a barriga durante todo o percurso. Chego no destino e todos cumprimentam dizendo que estou forte. "Forte? O Stallone é forte! E isso aqui não se parece com o peitoral do Rambo..." Os mais indelicados vão direto ao ponto: "Você engordou, hein!?". O espelho já tinha me avisado, pensei responder, mas sorri o sorriso do lagarto.
É uma festa. Todos estão sendo servidos e observam cada coisa que você come para evitar. "Vai que engorda", devem pensar. Quando há sobremesa, lhe servem a fatia maior. Acho que pensam que cabe mais comida num estômago de gente gorda. Faz sentido.
Ao fim da festa descubro que perdi o botão da calça jeans, que estava estufada. Só espero que o botão não tenha acertado ninguém quando saiu voando por aí. Abraços para lá, despedidas para cá e as esposas marcam de se encontrar mais vezes e fazer algum passeio. Chego em casa e vou dormir. Comi muito. Acho que foi a azeitona. Sempre ela. O sono não vem. Ou vem, mas a barriga está muito cheia para dormir.
Quando consegui dormir, adivinha? Pesadelo. Pesadelo que continuou depois que acordei no dia seguinte ao entrar na Internet e ver que postaram as fotos da festa. Mas que falta de bom senso postar justo aquela foto onde estou sentado e relaxado. E aquela outra onde estou de lado? Tenha dó! Nem mesmo Cérbero consegue infligir tamanha dor numa alma gorda.
Não tem jeito. O inferno dos gordinhos é aqui mesmo. Enquanto houver lasanha, picanha e sorvete, haverá choro e ranger de dentes de nossa parte. E para piorar a Bíblia fala que a porta é estreita. Até aí os gordinhos se deram mal, em caso da leitura literal for a mais acertada. O jeito é fechar a boca.
Francamente, estou-me perfeitamente nas tintas para esse grande atentado contra a liberdade de expressão na DREN não sei das quantas. Se a senhora directora de não sei quê - nem me interessa, nem sei para o que serve, se é que serve para alguma coisa - que tem cartão rosa encetou uma perseguição política ao senhor professor requisitado que tem cartão laranja, acho muito bem. Direi mais: considero justíssimo. Enquanto o povinho avulso não acorda da letargia e desata numa perseguição política -de preferência à bordoada - aos possuidores todos -e são muitos - de tão coloridos cartões, o mínimo que se pode e deve categoricamente exigir é que tais parasitas vorazes se azucrinem e persigam uns aos outros. Todos os dias da semana e todas as semanas do mês. Sob o pretexto a, b ou c, é indiferente - para uma prioridade desta natureza qualquer pretexto é bom. Sim, ao menos que o voto sirva para alguma coisa. Que de tanto e persistente mal resulte algum bem. Que mamem, mas não mamem em paz. Que chupem, mas com desassossego, em sobressalto, com incerteza pelo dia de amanhã. Que contraiam não só tacho, úbere farto, mas depressão alternada, stress permanente. Que experimentem ciclicamente aquela roda da sorte a que os antigos romanos chamavam da Fortuna. Que se digladiem compenetradamente como lhes compete e fica apropriado, ou seja, à maneira das famílias de ratazanas tão bem estudadas por Lorenz. Assim sim, assim é que é democrático e o povo agradece. E já que tem que sustentá-los, lautamente, aos palhaços, ao menos que colha a parca retribuição de se rir deles.Por isso, da próxima vez, senhora directora rosa, faça-lhe chegar a nota de suspensão acompanhada duma espalhafatosa tarte nas trombas. Ou duma cadeirada nos lombos. Tanta faz. A malta agradece. E cá fica a aguardar, em voluptuosa expectativa, pelo seu turno de ser também, hilariantemente, corrida a balde ou à mangueirada. Que diabo, o regime não há-de ter só defeitos!...
PS: E lembrou-ma agora outra enormíssima vantagem para estas perseguições políticas entre parasitas instalados: enquanto se ocupam em perseguições, emboscadas e minagens entre eles, não andam a subverter, a estupidificar e a poluir, com reformas peregrinas, a instrução dos filhos de todos nós.
PS2 : Mas, entretanto, tanta lágrima de crocodilo vertida só porque uma hiena mordeu num chacal.
Publicada por dragão à(s) 5/24/2007
http://www.vagueira.com/porcos.html
O porco é o único animal que se queima com o sol além do homem.
O orgasmo do porco dura 30 minutos.
Os porcos não conseguem suar, por isso chafurdam na lama para se refrescar.
Uma carga de porcos que se dirigia para a África do Sul teve de fazer uma aterragem de emergência em Londres devido aos peidos que eles davam. Os gases geraram tanto calor que fizeram disparar o alarme contra incêndio do avião.
Uma das curas usadas no século XIV para a Peste Negra era colocar um porco perto de uma pessoa que estivesse a morrer.
É fisicamente impossível um porco olhar para o céu.
Os porcos podem tornar-se alcoólicos.
Até 1997 haviam 2,47 porcos por cada habitante na Dinamarca.
Os hipopótamos são o maior membro da família dos porcos. Pensa-se que eles sejam descendentes dos cetáceos (baleias).
A China é o país com mais porcos (467.828.400) e mais cabras (170.993.000) do mundo.
Os Porquinhos da Índia são muitas vezes colocados nas gaiolas dos coelhos porque são uns óptimos guardas contra ratos. Eles sentem a aproximação dos ratos e soltam um berro alto e irritante que os ratos não aguentam e dão meia volta.
É proibido criar um porco em solo Israelita. Se o fizeres, o castigo será... matar o porco.
Os porcos que tenham um olho azul e outro castanho apenas têm 3 estômagos.
Um sinal de que vem chuva é ver os porcos andarem de um lado para o outro com paus na boca.
Um sinal de que vem chuva é ver os porcos andarem de um lado para o outro com paus na boca.
O que eu me ri.[Já vi porcas com um pau na boca e depois ficaram molhadas.
É muito comum ouvir falar elogiosamente da “homossexualidade na Grécia Antiga” a quem dá os primeiros passos na (auto)aceitação da homossexualidade – e mesmo a certo tipo de jornalismo ou de academia menos preparados. O tema faz-me sempre comichão. Por três razões.
Em primeiro lugar, porque sabemos que a suposta aceitação greco-antiga se limitava às relações entre homens mais velhos e mais poderosos, por um lado, e jovens rapazes menos poderosos, por outro. Sexo ou relação entre dois homens maduros era escandaloso. Deveriam estar casados – com mulheres. (E, já agora, das mulheres pouco se fala, claro, para lá das elucubrações em torno de Lesbos).
Em segundo lugar, porque o princípio “ativo”/”passivo” no sexo revela uma analogia entre hetero e homossexualidade, em que o masculino é visto como dominando, nem que seja simbolicamente, feminilizando um parceiro e masculinizando outro – e, o mais importante, fazendo disso uma hierarquia de prestígio (contida nas próprias expressões “feminilizar” ou “masculinizar”).
Em terceiro lugar, porque o recurso à “Grécia Antiga” (assim, uma grande generalização), além da ideia de que o antigo legitima o contemporâneo, serve para legitimar algo com base na narrativa etnocêntrica, e muito mitificada, das “origens da civilização europeia”. O sexo como a democracia, ora pois.
Acontece que há dias vi um documentário sobre a instituição “bachi bazi” no Afeganistão. Hoje. Trata-se de um sistema sexual, de uma economia-política do sexo, assente na servidão de rapazes imberbes, alugados ou comprados a famílias pobres por indivíduos poderosos ou ricos (associados sobretudo aos espólios de guerra e ao tráfico). Os rapazes são treinados na arte de dança feminina, dão espetáculos envergando roupa feminina para grupos de homens que não têm acesso a mulheres (no caso de serem exclusivamente heterossexuais…) e mantêm as suas trancadas em casa. O sexo entre os patrões/patronos e os rapazes é comum.
O padrão da homossexualidade instituída entre homens poderosos e mais velhos, “masculinos”, e homens dependentes mais novos, “femininos”, o padrão “ativo”/”passivo”, a assimetria de género com subalternização das mulheres, e a heterossexualidade normativa como mecanismo para a gestão do casamento e da transmissão da linhagem e da propriedade são comuns em muitas sociedades, particularmente no contínuo Mediterrâneo – Médio Oriente – Ásia Central (e havia/há variantes africanas). Foram-no de forma aberta e instituída em tempos, são-no de forma encapotada em virtude da globalização dos direitos humanos, e são-no de forma “interiorizada” nas relações entre muitas pessoas – e na apreciação pública de homossexualidades legítimas e ilegítimas, no Afeganistão ou no Cavaquistão, perdão, em Portugal.
Imaginei o espetador médio do documentário. Provavelmente – e com toda a razão, tendo-me acontecido o mesmo – chocado com a barbaridade do fenómeno, sobretudo através do atual filtro da “pedofilia”. Mas imaginei-o também atribuindo a barbaridade a “eles”, os afegãos (certamente confundidos com “árabes”, ou como metonímia de “muçulmano”, mas sempre devidamente metidos numa visão orientalista). Aí divergimos. O espetador médio é capaz de ficar chocado com o exemplo afegão e exigir uma intervenção militar-humanitária, ao mesmo tempo que é capaz de fazer uma vénia à homossexualidade da “Grécia Antiga” e nunca questionar o duplo padrão referido no parágrafo acima, hoje e aqui, naturalizando-o como parte da “natureza masculina”. Uma questão de grau de gravidade, apesar de tudo? Claro. Mas…
Martha Medeiros*
Peça para um homem descrever um mulherão. Ele imediatamente vai falar no tamanho dos seios, na medida da cintura, no volume dos lábios, nas pernas, bumbum e cor dos olhos. Ou vai dizer que mulherão tem que ser loira, 1 metro e 80, silicon@da, sorriso colgate. Mulherões, dentro deste conceito, não existem muitas.
Agora pergunte para uma mulher o que ela considera um mulherão e você vai descobrir que tem uma em cada esquina.
Mulherão é aquela que pega dois ônibus para ir para o trabalho e mais dois para voltar, e quando chega em casa encontra um tanque lotado de roupa e uma família morta de fome.
Mulherão é aquela que vai de madrugada pra fila garantir matrícula na escola e aquela aposentada que passa horas em pé na fila do banco pra buscar uma pensão de 200 reais.
Mulherão é a empresária que administra dezenas de funcionários de segunda a sexta, e uma família todos os dias da semana. Mulherão é quem volta do supermercado segurando várias sacolas depois de ter pesquisado preços e feito malabarismo com o orçamento.
Mulherão é aquela que se depila, que passa cremes, que se maquia, que faz dieta, que malha, que usa salto alto, meia-calça, ajeita o cabelo e se perfuma, mesmo sem nenhum convite para ser capa de revista.
Mulherão é quem leva os filhos na escola, busca os filhos na escola, leva os filhos pra natação, busca os filhos na natação, leva os filhos pra cama, conta histórias, dá um beijo e apaga a luz.
Mulherão é aquela mãe de adolescente que não dorme enquanto ele não chega, e que de manhã bem cedo já está de pé, esquentando o leite. Mulherão é quem leciona em troca de um salário mínimo, é quem faz serviços voluntários, é quem colhe uva, é quem opera pacientes, é quem lava roupa pra fora, é quem bota a mesa, cozinha o feijão e à tarde trabalha atrás de um balcão.
Mulherão é quem cria filhos sozinha, quem dá expediente de 8 horas e enfrenta menopausa, TPM e menstruação.
Mulherão é quem arruma os armários, coloca flores nos vasos, fecha a cortina para o sol não desbotar os móveis, mantém a geladeira cheia e os cinzeiros vazios.
Mulherão é quem sabe onde cada coisa está, o que cada filho sente e qual o melhor remédio pra azia.
Longa vida às mulheres lindas de morrer, mas mulherão é quem mata um leão por dia.
* Martha Medeiros é escritora best-seller e mulherão. O texto acima está no livro Trem-bala.
Já vi porcas com um pau na boca e depois ficaram molhadas.
A história é conhecida. Em 2013, Edward Snowden revelou ao mundo documentos classificados (classified documents) da NSA (National Security Agency), descrevendo - entre outras actividades classificadas - um programa top-secret conhecido como PRISM.O PRISM foi originariamente concebido para monitorizar e colher comunicações online de estrangeiros suspeitos de envolvimento terrorista. Mas posteriores investigações do Washington Post e do Guardian sugerem que o programa é muito mais invasivo e intrusivo. Permite às intelligence agencies ter acesso aos servidores de companhias bastante populares como a Google, Microsoft, Apple, Facebook, Yahoo, Youtube, Skype, entre outras. As intelligence agencies podem vigiar os cidadãos americanos sem necessidade de um mandado, monitorizando e arquivado emails, chats, transferências de ficheiros, etc.
Após estas revelações bombásticas de Snowden – acusado de traição pelas autoridades americanas e obrigado a pedir asilo político – foram realizados vários inquéritos sobre o assunto. Hoje, quase 90% dos americanos tem consciência de que as suas acções online podem ser interceptadas pelo governo. Mas as opiniões dos americanos dividem-se sobre estas actividades de vigilância do Estado.
57% dos americanos acha-as justificáveis por causa do combate ao terrorismo. Muitos dos defensores utilizam o argumento do “quem não deve não teme”. Parece-me um argumento perigoso. A questão não está em ter feito ou não algo de mal ou errado. A questão da privacidade tem antes a ver com a necessidade de esconder informação que os outros podem nalgum momento usar contra nós. Neste sentido, quase toda a gente tem alguma coisa que gostaria de esconder.
Ao contrário do que provavelmente se passa em Portugal, a maioria dos americanos tem também consciência de que tudo o que fazem na internet deixa impressões digitais. As "cyber-pegadas" não se apagam; é sempre possível recuperá-las, incluindo os posts que, por exemplo, eliminamos no Facebook. As mensagens ficam para sempre armazenadas nas profundezas do ciberespaço.
Alguns estudos mostram que a percepção ou consciência desta vigilância tornou os americanos mais prudentes acerca daquilo que postam na Internet. Por exemplo, num inquérito de 2014, 86% dos inquiridos responderam estar dispostos a discutir a fuga de informação de Snowden sobre o PRISM em fóruns offline(jantares e almoços de família e amigos), mas apenas metade disse estar disposta a postar sobre o assunto no Facebook ou no Twitter. A não disposição em expressar opiniões online acerca deste assunto é maior entre aqueles que sentem que os seus amigos nos social media não partilham a sua visão.
De forma optimista, muitos académicos acreditaram que a natureza descentralizada da internet permitiria uma maior variedade de opiniões. Como as redes sociais online permitem aos indivíduos estabelecer contactos com conhecidos mais distantes geográfica e politicamente (apesar de serem "weak ties"), o debate seria enriquecido, o espaço público alargado. Todavia, uma carrada de estudos realizados, em especial nos últimos 10 anos, tem vindo a alertar para um crescente esmagamento das opiniões minoritárias nas redes sociais.
O Nuno Amaral Jerónimo enviou-me há dias um artigo intitulado “Under Surveillance: Examining Facebook’s Spiral of Silence Effects in the Wake of NSA Internet Monitoring”, de uma senhora chamada Elizabeth Stoycheff. A autora estudou os efeitos da espiral do silêncio no Facebook, após as revelações de Edward Snowden.
Já aqui falei duas ou três vezes na espiral do silêncio, uma teoria apresentada pela cientista política alemã Noelle-Neumann em 1974. Basicamente, diz-nos que as pessoas dispõem de um “órgão” inato que ela chama “quasi-satistical sense”, que lhes permitiria avaliar, em cada momento, as tendências da opinião pública. Essas percepções formam-se, sobretudo, com base nas notícias dos media, mas também nas relações interpessoais e na observação directa.
Essa monitorização sobre as tendências das opiniões nasce do medo do isolamento, que faz parte da natureza social do Homem. Assim, quando os indivíduos percepcionam que a sua opinião está do lado da maioria, estão dispostos a exprimi-la publicamente. Caso contrário, preferem remeter-se ao silêncio. Esta teoria teve enorme sucesso, mas nunca foi muito bem aceite por muitos académicos e intelectuais, porque assenta no pressuposto de que a maioria das pessoas é conformista. Ora, numa sociedade que preza tanto a educação, a razão, o espírito crítico, etc., “conformista” e “conformismo” têm um sentido pejorativo; são rótulos que ninguém quer ver colados a si – quando muito, está disposto a colá-los nos outros.
Voltemos ao estudo que o Nuno me enviou. Conclusões? Os inquiridos que são contra a vigilância do Estado parecem menos sensíveis às opiniões dos outros. Ironicamente (ou talvez não), os que defendem a existência de programas como o PRISM mostram menos disposição para se colocar do lado de opiniões (aparentemente) minoritárias – não postam, não comentam, não linkam, não partilham opiniões nas quais se revêem, mas que sentem estar contra a opinião da maioria dos seus amigos do Facebook.
Elizabeth Stoycheff acha que estamos perante mais uma evidência do perigo do silenciamento de opiniões minoritárias em larga escala. A autora aventa ainda que talvez o maior medo dos indivíduos não seja o isolamento ou a ostracização social como defendia a Noelle-Neumann, mas sim o medo das possíveis retaliações do Estado.
No início do romance “Mil novecentos e oitenta e quatro” de George Orwell, ficamos logo a saber que “O Grande irmão está a ver-te”. Ao contrário do que imaginou o genial escritor inglês, o “Big brother” dos tempos modernos não avisou que nos estava a ver. Foi o Edward Snowden (e outros) quem nos avisou. Estamos avisados.
Durante debate ocorrido no mês de Novembro/2000, em uma Universidade, nos Estados Unidos, o ex-governador do Distrito Federal, Cristovam Buarque (PT), foi questionado sobre o que pensava da internacionalização da Amazônia. O jovem introduziu sua pergunta dizendo que esperava a resposta de um humanista e não de um brasileiro. Segundo Cristovam, foi a primeira vez que um debatedor determinou a ótica humanista como o ponto de partida para a sua resposta:
"De fato, como brasileiro eu simplesmente falaria contra a internacionalização da Amazônia. Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse patrimônio, ele é nosso. Como humanista, sentindo e risco da degradação ambiental que sofre a Amazônia, posso imaginar a sua internacionalização, como também de tudo o mais que tem importância para a Humanidade. Se a Amazônia, sob uma ótica humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro. O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazônia para o nosso futuro. Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou diminuir a extração de petróleo e subir ou não o seu preço. Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizadoSe a Amazônia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um dono, ou
de um país. Queimar a Amazônia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores globais. Não podemos deixar que as reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação. Antes mesmo da Amazônia, eu gostaria de ver a internacionalização de todos os grandes museus do mundo. O Louvre não deve pertencer apenas à França. Cada museu do mundo é guardião das mais belas peças produzidas pelo gênio humano. Não se pode deixar esse patrimônio cultural, como o patrimônio natural amazônico, seja manipulado e destruído pelo gosto de um proprietário ou de um país.Não faz muito, um milionário japonês, decidiu enterrar com ele um quadro de um grande mestre. Antes disso, aquele quadro deveria ter sido internacionalizado. Durante este encontro, as Nações Unidas estão realizando o Fórum do Milênio, mas alguns presidentes de países tiveram dificuldades em comparecer por constrangimentos na fronteira dos EUA. Por isso, eu acho que Nova York, como sede das Nações Unidas, deve ser internacionalizada. Pelo menos Manhattan deveria pertencer a toda a Humanidade. Assim como Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, cada cidade, com sua beleza específica, sua história do mundo, deveriam pertencer ao mundo inteiro. Se os EUA querem internacionalizar a Amazônia, pelo risco de deixá-la nas mãos de brasileiros, internacionalizemos todos os arsenais nucleares dos EUA. Até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição milhares de vezes maior do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil. Nos seus debates, os atuais candidatos à presidência dos EUA têm defendido a idéia de internacionalizar as reservas florestais do mundo em troca da dívida.Comecemos usando essa dívida para garantir que cada criança do mundo tenha possibilidade de ir à escola. Internacionalizemos as crianças tratando-as, todas elas, não importando o país onde nasceram, como patrimônio que merece cuidados do mundo inteiro. Ainda mais do que merece a Amazônia. Quando os dirigentes tratarem as crianças pobres do mundo como um patrimônio da Humanidade, eles não deixarão que elas trabalhem quando deveriam estudar; que morram quando deveriam viver. Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo. Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazônia seja nossa. Só nossa."
(*) Cristóvam Buarque foi governador do Distrito Federal (PT) e reitor da Universidade de Brasília (UnB), nos anos 90. É palestrante e humanista respeitado mundialmente.
Em 2008, o académico norte-americano Cass Sunstein publicou um artigo intitulado: “Neither Hayek, nor Habermas”. O tema central era a blogosfera. Com a ascensão das chamadas redes sociais, a blogosfera saiu, entretanto, de moda. Eu e o estimado leitor fazemos parte do grupo de sobreviventes deste ecossistema. Não interessa. As inquietações de Sunstein sobre os blogues podem estender-se a toda a internet. A web trouxe coisas maravilhosas. Passámos a ter acesso a carradas de informação, inimagináveis há 20 ou 30 anos. Qual é então o problema? Sunstein achava que a blogosfera levava à formação de grupos homogéneos e polarizados em termos ideológicos. Os bloggers e os seus leitores viviam em casulos ou bolhas de informação.Em 1945, Hayek (o famoso pai neoliberalismo) publicou um artigo intitulado “The use of knowledge in society”. Para o economista e filósofo austríaco, a questão económica fundamental é: como extrair a informação que está dispersa e desorganizada na sociedade. Este problema não pode ser resolvido por nenhuma pessoa ou direcção central. Os planeadores centrais não conseguem ter acesso a toda a informação na posse de milhões de particulares. No seu todo, a informação na posse de milhões de particulares dispersos é muito maior do que aquela que qualquer especialista pode deter, por melhor que seja esse especialista – e não se trata só de um problema de quantidade, mas também de qualidade, mas adiante. Como é que se agrega então toda essa informação dispersa e se separa o trigo do joio? A solução está no sistema de preços. Os preços funcionam como um dispositivo de coordenação e sinalização conciso e preciso. Além disso, os preços têm uma capacidade de adaptação automática à mudança. Por exemplo, se um produto deixou de funcionar eficientemente, a sua procura desce e os preços também. Ora, para Sunstein a internet e a blogosfera em particular não têm nada que corresponda a um sistema de preços. Ou seja, não há nada que agregue uma quantidade brutal de opiniões e gostos. Não é possível criar um superblog que corrija os erros e reúna as verdades. Há ainda outro senão. Os bloggers não têm um incentivo económico. Raramente, estão envolvidos em actividades comerciais e, por isso, têm pouco a perder ou a ganhar. Por exemplo, se espalharem informação falsa, têm pouco a perder. O mesmo não acontece com os media tradicionais, que podem ver a sua credibilidade comprometida.
O afastamento de Sunstein em relação a Habermas era, obviamente, diferente. O filósofo alemão acreditava que, nas discussões na esfera pública, pode vencer o melhor argumento. Sunstein acha essas esperanças irrealistas. A chamada polarização de grupos (group polarization), um conceito desenvolvido por psicólogos sociais como Robert Brown, aponta na direcção contrária. Após uma discussão, as posições dos indivíduos não se aproximam, tendem antes a extremar-se. A polarização de grupos foi testada centenas de vezes em vários países e os resultados têm sido consistentemente confirmados. Sunstein refere uma experiência realizada no Colorado em 2005. Foram realizados inquéritos para aferir as opiniões de 60 indivíduos sobre uma série de temas. Depois, formaram-se 10 grupos de seis, misturando-se sempre liberais (progressistas) com conservadores. Resultados? De acordo com os inquéritos, as opiniões de conservadores e liberais não eram muito distantes. Todavia, a partir do momento que começaram a discutir, tanto os liberais como os conservadores deslizaram para os extremos.
Sunstein avança com três possíveis explicações para a polarização, ou seja, para a concentração nos extremos. Primeira, em qualquer grupo com uma determinada inclinação, a maioria das pessoas tende a deslizar por aí abaixo. Felizmente, a maioria das pessoas ouve as outras. Mas se dentro do grupo a maioria acha, por exemplo, que o governo é péssimo, então a tendência é para prestar atenção a toda a informação que confirma essa posição e ignorar ou desvalorizar a que aponta em sentido contrário. Em segundo lugar, queremos ser bem vistos pelos outros. Por conseguinte, a partir do momento em que percebemos qual é posição maioritária dentro do grupo, tendemos a ajustar as nossas posições, pelo menos ligeiramente, na direcção dessa posição dominante. Por fim, há uma relação entre confiança, extremismo e apoio dos outros. À medida que ganham confiança, as pessoas tendem a tornar-se mais extremistas. Se os outros nos aplaudem, mais confiantes nos tornamos. E quanto mais confiantes nos tornamos...
A polarização de grupos foi estudada em pequenos grupos. Todavia, Sunstein achava que se podia aplicar à blogosfera. E, se tiver razão, também se pode, como é evidente, aplicar às redes sociais. Além da propensão natural dos indivíduos para o extremismo, as redes sociais permitem que cada um escolha a informação que recebe, desamigue, bloqueie, siga ou deixe de seguir, etc. Além disso, os algoritmos informáticos só deixam entrar a informação que confirma as nossas opiniões e preconceitos.
Em suma, como mostra a polarização de grupos, não foram as redes sociais que criaram os extremismos. As redes sociais alimentam e ampliam o extremista que há em nós.
Publicada por José Carlos Alexandre
iv19 de novembro de 2018 às 13:46iv19 de novembro de 2018 às 13:46
Só um pequeno ajuste: "Além disso, os algoritmos informáticos só deixam entrar a informação que confirma as nossas opiniões e preconceitos." Na realidade, é um bocado mais insedioso do que isso: os algoritmos usados são criados para aumentar o engagement, e portanto simplesmente "mais do mesmo" ou opiniões moderadas que confirmem a nossa opinião são preteridas em relação a conteúdo (mais extremo) capaz de gerar resposta. Ou seja, os algoritmos usados servem explicitamente para polarizar, e por construção levam à escolha dos conteúdos mais extremos...