O Lobby petrolífero
Um novo fôlego para o século XXI
A perfuração na zona fronteiriça atlântica apresenta muitas vantagens para as companhias petrolíferas, que podem arranjar fornecimentos para o mercado europeu do século XXI. O aquecimento do clima não faz parte das suas preocupações e não modificarão os seus projectos enquanto os governos não lhes derem directivas nesse sentido: os negócios primeiro, como habitualmente.
Foinaven e Schiehallion situam-se a oeste das ilhas Shetlands. As pesquisas permitiram descobrir aí importantes jazidas de petróleo no subsolo marinho. Mais de 30 companhias petrolíferas, nomeadamente a
BP (Inglaterra), Shell (Holanda), Esso (EUA), Texaco (EUA), Mobil (EUA), Total (França), Elf (França), Petrofina (Bélgica)... partilham os campos petrolíferos, objectos de todas as cobiças. Porquê este interesse?
Foinaven e Schiehallion servem de "laboratório" para a nova tecnologia, que permite às companhias perfurar profundamente no oceano. Até aos anos 90, a perfuração a grande profundidade não era possível neste oceano selvagem. As companhias petrolíferas privilegiavam nessa altura fontes mais acessíveis. Mas como os stocks de petróleo se esgotam, as companhias procuram novos recursos.
Para as companhias europeias, a fronteira atlântica constitui mesmo o primeiro terreno de ensaio para este tipo de exploração. Se tudo correr "como previsto", os lençóis submarinos profundos não continuarão por mais tempo inviolados e as companhias petrolíferas disporão de novo de reservas muito confortáveis. A mundialização da economia aumenta ainda mais as reservas disponíveis: as fronteiras do mundo desaparecem e as companhias podem escolher livremente os sítios em que desejam procurar petróleo e fazer furos. Por isso, há dois factores que aumentam a disponibilidade de reservas petrolíferas: a nova tecnologia permite actualmente explorar lençóis situados a uma muito grande profundidade e o desaparecimento das fronteiras aumenta as possibilidades de exploração.
Está aberta a caça
Tudo isto ilustra perfeitamente a hipocrisia dos nossos governos, cuja principal preocupação parece ser a redução do CO2, mas que se calam bem caladinhos na questão dos combustíveis fósseis. Pelo contrário, concedem generosos subsídios à pesquisa e exploração das fontes de energia fósseis, enquanto ignoram totalmente as fontes de energia não poluentes e renováveis. A mudança climática é provocada, entre outras coisas pela utilização de combustíveis fósseis. A combustão do petróleo, do carvão e (em menor medida) do gás natural, lança grandes quantidades de CO2 para a atmosfera. Este forma uma espessa camada à volta da terra retendo o calor e fazendo subir a temperatura. Por isso devemos esforçar-nos para reduzir estas emissões de CO2. Na conferência sobre o clima organizada pelas Nações Unidas em Kyoto em Dezembro próximo, as partes serão chamadas a decidir a redução de 20% nestas emissões até ao ano 2005 (20% menos que as emissões de 1990).
Uma riqueza espantosa
A vida sobre a terra é possível graças ao sol, que oferece generosamente luz, calor e energia. Uma grande parte dessa luz não penetra no oceano. E por isso as profundezas do oceano e o subsolo marinho abrigam uma vida extremamente rica.
Na zona fronteiriça atlântica, a água atinge 4 000 metros de profundidade em alguns sítios. O solo, aí, é caprichoso: canais profundos, bacias, zonas pouco profundas e colinas escarpadas alternam. Nas camadas inferiores, a água é gelada, enquanto que mais acima, as correntes tornam-se mais quentes. A sinergia destas correntes, o solo caprichoso e os rudes ventos oceânicos que levantam ondas da altura de casas tornam este oceano nada acolhedor e conferem-lhe uma péssima reputação. E contudo, este oceano guarda tesouros naturais de uma espantosa riqueza: a água é um pulular de plâncton e de pequenos animais invertebrados que constituem a base de qualquer cadeia alimentar. À vida por toda a parte, tanto por baixo de água como à superfície, bem como nas regiões profundas e sombrias do oceano. Os rochedos da zona fronteiriça atlântica estão cobertos de colónias de aves. As águas são habitadas por otárias, golfinhos e baleias. Os peixes adaptaram-se à sombra das profundezas. Os locais onde estes animais se reproduzem e procuram alimentos permaneceram até ao presente mais ou menos intactos. Os fundos marinhos albergam maravilhas, como corais de crescimento lento e esponjas. A Lophelia pertusa, um coral típico desta parte do oceano, oferece abrigo a umas 800 espécies de organismos marinhos, mas é muito sensível às perturbações e regenera-se muito lentamente.
No Inverno, centenas de milhares de gansos, cisnes, patos e aves pernaltas migram para os pântanos e foz de rios desta região. No Verão, chocam aí os ovos nas praias brancas e em pradarias floridas das ilhas Hébridas. Nas ilhas Shetlands, nas Orcades e nas ilhas Feroe vivem igualmente importantes colónias de aves. Mais ao largo do oceano atlântico a ilha de St-Kilda abriga igualmente grandes colónias de aves. Aí nidificam mais de 100 000 casais. Os papagaios-do-mar também lá habitam em grande número. É evidente que a poluição petrolífera constitui uma grave ameaça para essas aves. Com efeito, a exploração petrolífera é sempre acompanhada da poluição da água: quando se fala em transporte de petróleo, fala-se também de risco de maré negra... e catástrofe ecológica. A cultura dos crustáceos, a pesca em pequena escala e o turismo natural, actividades que desempenham um importante papel nas economias das Shetlands, das Orcades e das ilhas Feroe só podem praticar-se em águas puras.
Até aos anos 90, esta natureza esplêndida escapava às mãos ávidas da industria petrolífera, uma vez que não podia furar a mais de 500 metros de profundidade. Graças à nova tecnologia, as perfurações na zona fronteiriça atlântica são actualmente possíveis até aos 1 500 metros, com correntes fortes ou com tempestades, mesmo que as ondas atinjam 20 metros de altura.
Criaturas estranhas
Na sombra do oceano profundo, a vida é mais lenta. Os organismos que lá vivem adaptaram-se àquele meio e muitas espécies nunca vêem a luz do dia. As criaturas que se encontram neste meio extremo são todas mais estranhas umas que as outras. Tomemos o caso do hoplostethus atlanticus, o hoplostethus laranja. Este peixe só atinge a idade adulta entre os 20 e os 35 anos e pode viver até aos 150 anos. O hoplostethus laranja põe os ovos a profundidades de 750 a 1 800 metros. Tem poucos inimigos naturais. O cachalote é um dos raros caçadores que gosta de provar de vez em quando um pequeno hoplostethus. Foi aliás no estômago de um, que se encontrou pela primeira vez um hoplostethus. O fundo do oceano não é um deserto de areia estéril.
Mas a exploração petrolífera não é a única ameaça para estes animais. No momento em que muitas zonas de pesca quase já não têm espécies comerciais convencionais, a indústria da pesca espreita novas riquezas e quer tentar a sua chance com peixes de água profunda como o hoplostethus. No quadro desta actividade, os pescadores não hesitam em esbanjar estes preciosos recursos naturais: muitos peixes são directamente lançados borda fora ou são tão jovens que passam através das malhas das redes, mortalmente feridos. A pesca põe igualmente em perigo as esponjas e o coral de crescimento lento.
Muitos peixes de água profunda como o hoplostethus não se reproduzem tão generosamente como outras espécies de águas menos profundas. O hoplostethus deverá ser ainda mais sensível à exploração do que a baleia azul: é difícil de localizar, mas uma vez que isso acontece, torna-se fácil apanhá-lo. Muitas vezes encontram-se nas redes peixes de várias gerações. A pesca intensiva dizima populações que não se regeneram ou que só o fazem dificilmente. Quando não houver mais...
O oceano profundo é um habitat frágil que abriga uma incrível riqueza. Alguns investigadores comparam-no a uma floresta tropical. A sua exploração a todo o custo pode ocasionar danos irreversíveis. Há que reagir antes que seja tarde.
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