Terá sido Fátima um engano?

Bela e sã discussão aqui vai.
O Manuel, estão a faltar umas fotos para criar ambiente....[;)]


Voltando ao tema, pensem por vós mesmos...deixem-se de intermediários.
Também na Fé, porquê andar por atalhos e desvios quando o caminho mais perto está nas Auto-Estradas.

Temos que seguir o nosso caminho pois acima de tudo, devemos escolher um caminho e não esperar que nos arrastem para lugar nenhum ...[;)]

Um bom dia para todos .
 
II Parte

Pufoi:
Voltando aos factos, no dia 13 de Outubro de 1917, cerca de 60.000 pessoas, incluindo os videntes, assistiram às evoluções de um objecto, aparentemente estruturado, de forma esférica ou circular, que havia saído de uma nuvem, o qual executou uma série de manobras, provocando de igual modo vários efeitos; luminosos, cromáticos, caloríficos.
a) - Existiram mais alguns efeitos associados? Quais?
b) - Pode-se afirmar, sem dúvidas, que aquilo que foi observado por tanta gente, foi algo produzido por uma inteligência?

Joaquim Fernandes:
a) os efeitos essenciais são os descritos - luminosos, cromáticos, caloríficos - podendo acrescentar-se alguns casos de curas espontâneas, ou remissões de patologias diversas, por ocasião do fenómeno solar. É possível que algumas dessas afecções tivessem uma origem emocional e que a visão do fenómeno provocasse a sua remissão súbita.
b) julgo que, à luz dos nossos conhecimentos e informações, o fenómeno solar remete para algo exterior às testemunhas e à multidão que desconhecia a forma do “milagre” anunciado para esse dia. É difícil explicar o fenómeno por mecanismos alucinatórios colectivos.

Pufoi:
Existe algum outro caso no Mundo, com tamanho número de testemunhos?

Joaquim Fernandes:
Em termos de observação colectiva de um fenómeno no espaço próximo, penso que Fátima é o episódio mais significativo.

Pufoi:
O “fenómeno” de 13 de Outubro foi observado em outros lugares do País?

Joaquim Fernandes:
Conforme a nossa investigação detectou, existem observações simultâneas em localidades da região, a uma distância de 10 -15 quilómetros da Cova da Iria., além de outras mais distantes - 40, 50 quilómetros - onde testemunhos afirma ter visto alguma coisa no céu. É difícil saber se estes depoimentos foram, de algum modo, influenciados pelas notícias da Cova da Iria.

Pufoi:
Pode concluir-se que se tratou de um contacto com uma civilização muito evoluída, oriunda de um qualquer lugar do Cosmo?

Joaquim Fernandes:

Se isso significa um contacto de astronautas de um outro mundo, tecnologicamente superior, numa missão equivalente a um plano de exploração científica, responderia que não temos bases para o afirmar. Não diria implausível, mas improvável. É possível que seja uma leitura facilitada pelo nosso fundo cultural e tecnológico mais propicia e legitima. Os nossos olhos tendem a ver conforme as grelhas, as “lentes” culturais que se entrepõem. Mas a chamada “hipótese ET em primeiro grau” apresenta imensas dificuldades, reconhece-se. Sabe-se das dificuldades de transporte nas abissais distâncias entre as estrelas e planetas possíveis. Hoje, presumo que se tratou de uma forma, de uma experiência de contacto com um “psiquismo” de qualquer tipo, talvez uma forma de “inteligência” colectiva ou memória cultural da Humanidade. Nessa alternativa ao modelo astronautas de outros mundos, cabem, por exemplo, os arquétipo de Carl Jung, ou os “memes” culturais do biólogo Richard Hawkins, espécie de “noosfera” ( camada “mental” similar à memória genética biológica ) que rodearia o planeta. No essencial, creio que Fátima pode exemplificar um encontro de psiquismos, de dimensões de espaço/tempo ou de modalidades de consciência, com expressão concreta nos nossos sistemas de crença e religiões.

Pufoi:
Os eventos desse célebre dia, ficaram conhecidos pelo “milagre do Sol”. Quais as pesquisas que fizeram, no sentido de saber o que a ciência da altura havia registado de anormal no comportamento Solar ou meteorológico, capaz de esclarecer algumas dúvidas?



Joaquim Fernandes:
Investigámos todos os anais astronómicos e meteorológicos disponíveis, não havendo naturalmente quaisquer respostas ou factos invulgares, registados por esses meios nessa época, em parte alguma do mundo.

Pufoi:
Alguns investigadores sérios, da área dos não identificados, mantêm ainda alguma relutância em classificar alguns casos, de inequívoca acção extraterrestre, como tal.Outros investigadores menos “”exigentes”, estão constantemente convencidos que os ET andam por aí!
Quando, como e por quem se irão, um dia, “separar” as águas?
Relativamente a “Fátima”, qual o teu veredicto?


Joaquim Fernandes:
Vide resposta já dada sobre a hipótese ET em primeiro grau. Não temos meios de definir o que irão ser a Ciência e o Conhecimento futuros. Mas podemos asseverar, com base na História e no progresso incessante, com grande margem de segurança, que serão uma Ciência e um Conhecimento completamente distintos dos actuais. Porventura não nos métodos, mas ao nível das certezas e das incertezas, dos modelos explicativos. São essas as principais razões para acreditar na inteligência humana


Pufoi:
Naturalmente que durante os mais de 26 anos que tem durado a tua/vossa investigação sobre “Fátima”, pediram opiniões e pareceres a pessoas ou entidades que pudessem contribuir para o esclarecimento de algumas questões.
Fala-nos sobre este aspecto.


Joaquim Fernandes:
Durante todo este tempo não temos estado sós. Desde os finais dos anos 70 até hoje, com um crescimento de interesse e de colaboração que, há meia dúzia de anos, julgávamos impossível de obter. Claro que esta investigação exige informações e dados, praticamente, de todas as disciplinas científicas. Como ninguém pode ter a pretensão de saber tudo, temos pedido ajuda a outros especialistas, nacionais e estrangeiros. Um dos mais antigos, por exemplo, é o físico teórico Auguste Meessen, da Universidade Católica de Lovaina, com quem trabalho há cerca de duas décadas, sempre com um sentido de procurar a verdade, independentemente dos credos religiosos. Actualmente, está em curso o Projecto MARIAN ( Multicultural Aparitions Research International Academic Network ) que estamos a coordenar aqui no CTEC, na Universidade Fernando Pessoa, e que vai proporcionar a publicação da primeira antologia internacional de textos científicos sobre a fenomenologia das chamadas “aparições marianas”. Trata-se, de facto, de um avanço significativo na abordagem multidisciplinar destas situações anómalas, porque as compara com outras, como as experiências de quase-morte, as experiências fora do corpo e as narrativas de abdução por “entidades alienígenas”

Pufoi:
Durante a vossa investigação procuraram saber se durante o ano de 1917 (período de 1916 a 1918), existiram fenómenos deste tipo, relevantes no resto do Mundo?

Joaquim Fernandes:
Existem alguns acontecimentos interessantes no domínio dos fenómenos aéreos, nesse período, inclusive com descrições de entidades antropomórficas fora do quadro religioso, além de observações típicos de “não identificados”, dentro de padrões da época. Essas descrições estão citadas nos nossos livros, bem como o elenco das restantes aparições religiosas.

Pufoi:
Reflectindo sobre este ponto. Um longo período de acções dirigidas de um mesmo plano, sugere que “alguém” tenha gasto todo esse tempo, numa acção mais vasta, não apenas dirigida a um local preciso de um singular planeta.
Para quem tenha planeado essa acção, “Fátima”, não poderia ser apenas o único objectivo. Não faz qualquer sentido.
Olhando do “lado de fora”, o nosso Planeta é uma inesgotável fonte de informação para quem o queira estudar.

a) - Faz-te sentido este raciocínio?
b) - Toda esta acção faz supor que, durante um período considerável, tenha existido uma base fixa de apoio. Será lógico pensar assim? Equacionaram este problema?
c) - Se tudo se passou como estamos a imaginar, existem referências?

Em termos de pesquisa global, o que te sugere dizer sobre este assunto?

Joaquim Fernandes: Conforme ao raciocínio implícito na resposta que dei sobre a hipótese ET em primeiro grau, poderia dizer que, se essa acção presume calculismo e preparação, estamos a pensar à imagem das nossas futuras expedições a outros mundos. É uma hipótese que pode ser subentendida do processo da “operação Fátima”, mas que não podemos, certamente, provar. Julgo, aliás, antes disso, que o nosso projecto visou antes de mais estabelecer comparações que nos parecem inequívocas com processos actuais das aparições laicas contemporâneas, sobretudo aquelas que implicam contactos proféticos, em que parece existir uma aparente “preparação/adequação” dos mediadores/,mensageiros escolhidos.
joaqfern3l.gif
Pufoi:

Um facto constatado é a existência de uma mensagem. “Fátima” viveu de uma mensagem e parece ainda viver dela.
A Igreja interpretou-a, moldou-a e acabou por a divulgar.
Sabe-se ou adivinha-se que essa interpretação é “estanque”. Existe uma leitura diferente, racional, objectiva, pragmática, científica.
Qual é para ti o real significado dessa mensagem, para além de poder significar uma prova de contacto com alguém exterior à Terra?

Joaquim Fernandes:
A leitura da mensagem é feita pelo mensageiro. Como disse o conhecido Marshall Mc Luhan, “o meio é a mensagem”; ou seja, se queres saber o significado, a tradução da mensagem, procura saber quem é o mensageiro. Se a mensagem vem de fora ou de dentro da Terra é uma tarefa que, espero, os investigadores do futuro possam vir a resolver. Mas, parece pacífico que sem mensageiro não há mensagem.

Pufoi:
Em termos de “ovnilogia”, este caso é, como já foi referido, um dos mais importantes, senão o mais importante de todo o Mundo.
Ele tem sido referenciado por várias organizações internacionais que estudam a fenomenologia “ovni”. Entretanto, quem investigou “Fátima” não é referenciado.
Pensamos que não basta apenas divulgar este trabalho por meios literários. Nesse sentido, a justificação desta série de entrevistas aos autores.
Existe da tua/vossa parte algum plano mais abrangente de divulgarem este caso tão importante?

Joaquim Fernandes:
O grande óbice que prejudica a divulgação da nossa investigação deriva de dois pontos prévios: o primeiro é o convencimento dos crentes na versão oficial de Fátima que esta é uma matéria definida e definitiva e que não interessa procurar outras versões da verdade. Como é a “sua” verdade, ponto final. As crenças não são racionalizáveis, do seu ponto de vista. Em certo sentido trata-se de uma perspectiva fundamentalista - “crê e abstem-te - que o próprio existencialismo cristão já havia definido, por exemplo, através da filosofia do pensador dinamarquês Soren Kierkeggard, em finais do século XIX. Em segundo lugar, o facto de as nossa obras serem escritas em português, impedindo a rápida difusão e tradução das obras. Se estivessemos nos Estados Unidos, teríamos mais hipóteses de ver os livros traduzidos e editados em diversas línguas. Até pelos nossos confrades espanhóis! De toda a maneira, neste momento, o livro “Fátima - nos bastidores do Segredo” foi traduzido nos EUA e está pronto a ser editado para o mercado de língua inglesa. Aguardamos que o dr. John Mack possa fazer o prometido Prefácio.

:Pufoi:
Para finalizar, gostaríamos que, se algo de importante ficou omisso, o comunicasses.

Joaquim Fernandes
Julgo que a matéria de Fátima continua a ser suficientemente apaixonante para os investigadores criteriosos e que buscam a verdade, como os nossos colegas que fazem parte do Projecto MARIAN. Para além de apaixonante, o problema de Fátima tem sido visto de forma demasiado apaixonada, se calhar não tanto por parte da hierarquia da Igreja Católica mas mais pela sua massa crente que desconhece, na sua esmagadora maioria - diria mais de 95% - os aspectos fenomenológicos que apurámos na nossa investigação ao longo destes anos. Mas, como disse atrás, quem vai a Fátima por necessidade - e aqui temos de respeitar as suas opções - não lhe interessa todo o manancial de informações que o caso propicia. Ou seja, tudo quanto interessa à generalidade dos crentes em Fátima é a utilidade imediata no seu “comércio de promessas”, resolver problemas emergentes e urgentes das suas vidas sacrificadas e penosas, espelho da infelicidade em que se revê a maioria dos seres humanos. Estamos conscientes disso e daí não estarmos à espera de “milagres” de reconversão. As mentalidades são a estrutura mais resistente e inflexível da natureza humana...
 
[:D] E ainda... a reportagem de Avelino da Almeida sobre o Milagre do Sol. Este jornalista esteve no local das aparições e escreveu assim no "O Século" a 15 de Outubro de 1917.

Notem que os mediums e os psíquicos portugueses haviam previsto que algo de importante iria acontecer em 1917. O artigo está escrito em português antigo.



COISAS ESPANTOSAS! COMO O SOL BAILOU AO MEIO DIA EM FÁTIMA

As aparições da Virgem - Em que consistiu o sinal do céu - Muitos milhares de pessoas afirmam ter-se produzido um milagre - A guerra e a paz

Lucia, de 10 anos; Francisco, de 9, e Jacinta, de 7, que na charneca de Fátima, concelho de Vila Nova de Ourem, dizem ter falado com a Virgem Maria

OUREM, 13 de Outubro

Ao saltar, após demorada viagem, pelas dezesseis horas de Hourem, na estação de Chão de Maçãs, onde se apearam tambem pessoas religiosas vindas de longes terras para assistir ao "milagre", perguntei, de chofre, a um rapazote do "char-á-bancs" da carreira se já tinha visto a Senhora. Com seu sorriso sardoico e o olhar enviezado, não hesitou em responder-me:

- Eu cá só lá vi pedras, carros, automoveis, cavalgaduras e gente!

Por um facil equivoco, o trem que nos devia conduzir, a Judah Ruah e a mim, até à vila, não apareceu e decidimo-nos a calcoffiar corajosamente cêrca de duas leguas por não haver logar para nós na diligência e estarem, desde muito, afreguezadas as carriotas que aguardavam passageiros. Pelo caminho, topámos os primeiros ranchos que seguiam em direção ao local santo, distante mais de vinte kilometros bem medidos.

Homens e mulheres vão quasi todos descalços - elas com saquiteis à cabeça, sobrepujados pelas sapatorras; eles abordoando-se a grossos vara-paus e cautelosamente munidos tambem de guarda-chuva. Dir-se-hiam, em geral, alheados do que se passa à sua volta, n'um desinteresse grande da paizagem e dos outros viandantes, como que imersos em sonho, rezando n'uma triste melopeia o terço. Uma mulher rompe com a primeira parte da ave-maria, a saudação; os companheiros, em côro, continuam com a segunda parte, a suplica. N'um passo certo e cadenciado, pisam a estrada poeirenta, entre pinhaes e olivedos, para chegarem antes que se cerre a noite ao sitio da aparição, onde, sob o relento e a luz fria das estrelas, projetam dormir, guardando os primeiros Jogares junto da azinheira bemdita - para no dia de hoje verem melhor.

À entrada da vila, mulheres do povo a quem o meio já infêtou com o virus do céticismo, comentam, em tom de troça, o caso do dia:

- Então vaes vêr ámanhã a santa?

- Eu, não. Se ela ainda cá viesse!

E riem-se com gosto, emquanto os devotos proseguem indiferentes a tudo o que não seja o objetivo da sua romagem. Em Hourem só por uma amabilidade extrema se encontra aposentadoria. Durante a noite, reunem-se na praça da vila os mais variados veículos conduzindo crentes e curiosos sem que faltem velhas damas vestidas de escuro, vergadas já ao peso dos anos, mas faiscando-lhes nos olhos o lume ardente da fé que as animou ao ato corajoso de abandonar por um dia o inseparavel cantinho da sua casa. Ao romper d'alva, novos ranchos surgem intrépidos e atravessam, sem pararem um instante, o povoado, cujo silencio quebram com a harmonia dos canticos que vozes femininas, muito armadas, entoam n'um violento contraste com a rudeza dos tipos...

O sol nasce, mas o cariz do céu ameaça tormenta. As nuvens negras acastelam-se precisamente sobre as bandas de Fátima. Nada, todavia, detem os que por todos os caminhos e servindo-se de todos os meios de locomoção para lá confluem. Os automoveis luxuosos deslisam vertiginosamente, tocando as buzinas; os carros de bois arrastam-se com vagar a um lado da estrada; as galeras, as vitorias, os caleches fechados, as carroças nas quaes se improvisaram assentos vão ajoujados a mais não poderem. Quasi todos levam com os farneis, mais ou menos modestos, para as bocas cristãs a ração de folhelho para os irracionaes que o "poverelo" de Assis chamava nossos irmãos e que cumprem valorosamente a sua tarefa... Tilinta uma ou outra guiseira, vê-se uma carrocinha adornada de buxo; no emtanto, o ar festivo é discreto, as maneiras são compostas e a ordem absoluta... Burrinhos choutam à margem da estrada e os ciclistas, numerosissimos, fazem prodígios para não esbarrar de encontro aos carros.

Pelas dez horas, o ceu tolda-se totalmente e não tardou que entrasse a chover a bom chover. As cordas de agua, batidas por um vento agreste, fustigam os rostos, encharcando o macadame e repassando até os ossos os caminhantes desprovidos de chapeus e de quaesquer outros resguardos. Mas ninguem se impaciente ou desiste de proseguir e, se alguns se abrigam sob a copa das arvores, junto dos muros das quintas ou nas distanciadas casas que se debruçam ao longo do caminho, outros continuam a marcha com uma impressionante resistencia, notando-se algumas senhoras cujos vestidos colados aos corpos, por efeito do impeto e da pertinácia da chuva, lhes desenham as fórmas como se tivessem saído do banho!

O ponto da charneca de Fátima, onde se disse que a Virgem aparecera aos pastorinhos do logarejo de Aljustrel, é dominado n'uma enorme extensão pela estrada que corre para Leiria, e ao longo da qual se postaram os veículos que lá conduziram os peregrinos e os mirones. Mais de cem automoveis alguem contou e mais de cem bicicletas, e seria impossível contar os diversos carros que atravancaram a estrada, um d'eles o auto-omnibus de Torres Novas, dentro do qual se irmanavam pessoas de todas as condições sociaes.

Mas o grosso dos romeiros, milhares de creaturas que foram de muitas leguas ao redor e a que se juntaram fieis idos de varias províncias, alemtejanos e algarvios, minhotos e beirões, congregam-se em tomo da pequenina azinheira que, no dizer dos pastorinhos, a visão escolhera para seu pedestal e que podia considerar-se como que o centro de um amplo circulo em cujo rebordo outros espectadores e outros devotos se acomodam. Visto da estrada, o conjunto é simplesmente fantástico. Os prudentes camponios, abarracados sob os chapeus enormes, acompanham, muitos d'eles, o desbaste dos parcos farneis com o conduto espiritual dos hinos sacros e das dezenas do rosario.

Não ha quem tema enterrar os pés na argila empapada, para ter a dita de ver de perto a azinheira sobre a qual ergueram um tosco portico em que bamboleiam duas lanternas... Altenam-se os grupos que cantam os louvores da Virgem, e uma lebre, espavorida, que galga matagal em fóra, apenas desvia as atenções de meia duzia de zagaletes que a alcançam e prostram à cacetada...

E os pastorinhos? Lucia, de 10 anos, a vidente, e os seus pequenos companheiros, Francisco, de 9, e Jacinta, de 7, ainda não chegaram. A sua presença assinala-se talvez meia hora antes da indicada como sendo a da aparição. Conduzem as rapariguinhas, coroadas de capelas de flôres, ao sitio em que se levanta o portico. A chuva cae incessantemente mas ninguem desespera. Carros com retardatários chegam à estrada. Grupos de freis ajoelham na lama e a Lucia pede-lhes, ordena que fechem os chapeus. Transmite-se a ordem, que é obedecida de pronto, sem a minima relutância. Ha gente, muita gente, como que em extase; gente comovida, em cujos labios secos a prece paralisou; gente pasmada, com as mãos postas e os olhos borbulhantes; gente que parece sentir, tocar o sobrenatural...

A criança afirma que a Senhora lhe falou mais uma vez, e o céu, ainda caliginoso, começa, de subito, a clarear no alto; a chuva pára e presente-se que o sol vae inundar de luz a paizagem que a manhã invernosa tomou ainda mais triste...

A hora antiga' é a que regula para esta multidão, que calculos desapaixonados de pessoas cultas e de todo o ponto alheias ás influencias misticas computam em trinta ou quarenta mil creaturas... A manifestação miraculosa, o sinal visivel anunciado está prestes a produzir-se - asseguram muitos romeiros... E assiste-se então a um espectáculo unico e inacreditavel para quem não foi testemunha d'ele. Do cimo da estrada, onde se aglomeram os carros e se conservam muitas centenas de pessoas, a quem escasseou valor para se meter à terra barrenta, vê-se toda a imensa multidão voltar-se para o sol, que se mostra liberto de nuvens, no zenit. O astro lembra uma placa de prata fosca e é possivel fitar-lhe o disco sem o minimo esforço. Não queima, não cega. Dir-se-hia estar-se realisando um eclipse. Mas eis que um alarido colossal se levanta, e aos espectadores que se encontram mais perto se ouve gritar:

- Milagre, milagre! Maravilha, maravilha!

Aos olhos deslumbrados d'aquele povo, cuja atitude nos transporta aos tempos biblicos e que, palido de assombro, com a cabeça descoberta, encara o azul, o sol tremeu, o sol teve nunca vistos movimentos bruscos fóra de todas as leis cosmicas - o sol «bailou», segundo a tipica expressão dos camponeses.. Empoleirado no estribo do auto-omnibus de Torres Novas, um ancião cuja estatura e cuja fisionomia, ao mesmo tempo doce e energica, lembram as de Paul Déroulède, recita, voltado para o sol, em voz clamorosa, de principio a fim, o Credo. Pergunte quem é e dizem-me ser o sr. João Maria Amado de Melo Ramalho da Cunha Vasconcelos.

Vejo-o depois dirigir-se aos que o rodeiam, e que se conservaram de chapeu na cabeça, suplicando-lhes, veementemente, que se descubram em face de tão extraordinária demonstração da existência de Deus. Cenas idênticas repetem-se n'outros pontos e uma senhora clama, banhada em aflitivo pranto e quasi n'uma sufocarão:

- Que lastima! Ainda ha homens que se não descobrem deante de tão estupendo milagre!

E, a seguir, perguntam uns aos outros se viram e o que viram. O maior numero confessa que viu a tremura, o bailado do sol; outros, porém, declaram ter visto o rosto risonho da propria Virgem, juram que o sol girou sobre si mesmo como uma roda de fogo de artificio, que ele baixou quasi a ponto de queimar a terra com os seus raios... Ha quem diga que o viu mudar sucessivamente de côr...

São perto de quinze horas.

O ceu está varrido de nuvens e o sol segue o seu curso com o esplendor habitual que ninguem se atreve a encarar de frente. E os pastorinhos? Lucia, a que fala com a Virgem, anuncia, com ademanes teatraes, ao colo de um homem, que a transporta de grupo em grupo, que a guerra terminára e que os nossos soldados iam regressar... Semelhante nova, todavia, não aumenta o jubilo de quem a escuta. O sinal celeste foi tudo. Ha uma intensa curiosidade em vêr as duas rapariguinhas com suas grinaldas de rosas, ha quem procure oscular as mãos das «santinhas», uma das quaes, a Jacinta, está mais para desmaiar do que para danças", mas aquilo por que todos anciavam - o sinal do ceu - bastou a satisfazel-os, a radical-os na sua fé de carvoeiro. Vendedores ambulantes oferecem os retratos das crianças em bilhetes postaes e outros bilhetes que representam um soldado do Corpo Expedicionario Portuguez "pensando no auxilio da sua protetora para salvação da Patria" e até uma imagem da Virgem como sendo a figura da visão...

Bom negocio foi esse e decerto mais centavos entraram na algibeira dos vendedores e no tronco das esmolas para os pastorinhos do que nas mãos estendidas e abertas dos leprosos e dos cegos que, acotevelando-se com os romeiros, atiravam aos ares seus gritos lancinantes...

O dispersar faz-se rapidamente, sem dificuldades, sem sombra de desordem, sem que fosse mister que o regulasse qualquer patrulha da guarda. Os peregrinos que mais depressa se retiram, correndo estrada fóra, são os que primeiro chegaram, a pé e descalços com os sapatos à cabeça ou dependurados nos varapaus. Vão, com a alma em lausperene, levar a boa nova aos logarejos que não se despovoaram de todo. E os padres? Alguns compareceram no local, sorridentes, enfileirando mais com os espectadores curiosos do que com os romeiros avidos de favores celestiaes. Talvez um ou outro não lograsse dissimular a satisfação que no semblante dos triunfadores tantas vezes se traduz...

Resta que os competentes digam de sua justiça sobre o macabro bailado do sol que hoje, em Fátima, fez explodir hossanas dos peitos dos fieis e deixou naturalmente impressionados - ao que me asseguraram sujeitos fidedignos os livres pensadores e outras pessoas sem preocupações de natureza religiosa que acorreram à já agora celebrada charneca.

Avelino de Almeida

Publ.: "O Século", Lisboa (edição da manhã) 37 (l2.876) 15 Out. 1917, p. 1, cols. 6-7; p. 2, col. 1.
"



Fonte:
http://www.apovni.org/modules.php?name=News&file=article&sid=232&mode=nested&order=0&thold=0
 
Pois.
Historicamente pelos vistos houve lá alguma coisa.
Bastaria ler um bocadinho que não faria mal.
Garanto-lhe que seria mais tido em conta.

Alegadamente houve, no mínimo, uma concentração de cerca de 70.000 pessoas...

E alegadamente parece que aconteceu mais qualquer coisa...
 
Lá está você com as suas liçõezinhas arrogantes que não dão a lado nenhum.
Em todo o lado diz que foi visto por toda a gente. E se esse Sérgio disse que viu só nuvens, ele é que deve ter andado a alucinar porque pelas fotos dá perfeitamente para perceber que em muitos momentos estava sol. A chuva e as nuvens foi antes. Algumas pessoas abandonaram o sítio antes de acontecer o milagre.


Então parece que nem todos viram...[:D] [:cool:]

Eu por ver algo não posso afirmar que todos os que me rodeiam também estão a ver. Para ter essa certeza deveria ter o testemunho individual de cada um.[;)]
 
Já fui jornalista se quer saber.
As pessoas berravam e gritavam de alegria... Não preciso de mais.
Normalmente prefiro achar, que quando procuro fontes de conhecimento, procuro origens imparciais... Você foi buscar isso a um link de ateísmo enquanto eu fui buscar as minhas informações junto do jornalismo e não junto da Igreja, já viu?
Entenda o seguinte: eu não sou da Igreja nem isso me interessa. Se quero falar de algo de forma séria, tento ser justo e ver ambos os lados. Assim se você tem a sua posição que a tenha e que seja muito feliz que eu tenho a minha e juro-lhe que não me importo nada.

[:D] [:D] (desculpem:sh) )
 
O que me espanta e surpreende é o empenho com que alguns se ocupam em tentar desmoronar o sólido edificio da fé cristã.

Uma fé que sobrevive à dois mil anos, que sobreviveu a brutalidades incriveis e que mesmo assim ficou, perdurou. E ficou a palavra, afinal é disso que se trata, da palavra de um homem que nos legou um caminho para Deus e que se entregou por todos aqueles que amava. Nem precisava de fazer milagres, basta ouvir as suas palavras para perceber.

O que me intriga é o móbil que faz levar ao ridiculo aqueles que tentam pregar a sua própria falta de fé. É que ninguém é obrigado a ter fé, mas pregar, tentar espalhar?? Tentar convencer os outros??

Porquê?

Tens toda a razão. E aqueles que andam para aí a tentar espalhar a fé? Bandidos... (e alguns até andam de porta em porta...veja-se o ridículo...)




(sem querer ofender ninguém[;)] )
 
Bela e sã discussão aqui vai.
O Manuel, estão a faltar umas fotos para criar ambiente....[;)]


Voltando ao tema, pensem por vós mesmos...deixem-se de intermediários.
Também na Fé, porquê andar por atalhos e desvios quando o caminho mais perto está nas Auto-Estradas.

Temos que seguir o nosso caminho pois acima de tudo, devemos escolher um caminho e não esperar que nos arrastem para lugar nenhum ...[;)]

Um bom dia para todos .

Sempre[;)] [:cool:]
 
Então parece que nem todos viram...[:D] [:cool:]

Eu por ver algo não posso afirmar que todos os que me rodeiam também estão a ver. Para ter essa certeza deveria ter o testemunho individual de cada um.[;)]

Tens razão 69.999 viram. lool. Falando a sério não sei qts viram ou não, mas que foi muita gente foi. E posso tb adiantar que houve quem ( mas poucos) deixasse o local antes do milagre acontecer.
 
Última edição:
[:D] [:D] (desculpem:sh) )
Avelino de Almeida era o quê? E o outro jornalista que descreveu o sucedido, ( de um jornal anti-clerical) era o quê? Um padre? E o Dr. Almeida Garret? E mais uns tantos? Um de facto até era um padre, mas foi lhe perguntado apenas por supostamente, tal como os outros, ser uma pessoa de confiança. Mas vá mesmo, tirando o depoimento do tal padre, ficamos com o dos outros e chega-se ao mesmo.Ri-te lá agora que assim rimo-nos os 2.
 
Última edição:
Bela e sã discussão aqui vai.
O Manuel, estão a faltar umas fotos para criar ambiente....[;)]


Voltando ao tema, pensem por vós mesmos...deixem-se de intermediários.
Também na Fé, porquê andar por atalhos e desvios quando o caminho mais perto está nas Auto-Estradas.

Temos que seguir o nosso caminho pois acima de tudo, devemos escolher um caminho e não esperar que nos arrastem para lugar nenhum ...[;)]

Um bom dia para todos .

Como já tem sido hábito, estou 100% de acordo.
 
Avelino de Almeida era o quê? E o outro jornalista que descreveu o sucedido, ( de um jornal anti-clerical) era o quê? Um padre? E o Dr. Almeida Garret? E mais uns tantos? Um de facto até era um padre, mas foi lhe perguntado apenas por supostamente, tal como os outros, ser uma pessoa de confiança. Mas vá mesmo, tirando o depoimento do tal padre, ficamos com o dos outros e chega-se ao mesmo.Ri-te lá agora que assim rimo-nos os 2.

Não fiz nenhum comentário em relação a nenhuma pessoa concreta que estás a mencionar.

Se voltares atrás, percebes que o meu riso tem a ver com a associação que fizeste do jornalismo à imparcialidade, que, diga-se, nem hoje essa imparcialidade (e liberdade) é muita quanto mais à 90 anos...

[;)]
 
E que eu saiba nunca ninguém achou que algum fundador da alguma religião fosse Deus.


O sentido que se está a dar não é o da fundação mas sim o da invenção.

É curioso que alguns dizem que viram/ouviram uma certa Senhora pedir para rezarem. A partir daqui o que se faz teve uma origem "divina" e não do Homem. Houve intervenção divina para rezarem. Poderão ter ocorrido intervenções divinas que deram origem ou ajudaram a consolidar as religiões.

De qualquer modo, e como eu disse inicialmente, não me interessa quem é que fundou a religião. O que penso é que a religião é uma invenção do Homem e teve/tem vários objectivos.

[;)]
 
Por isso é que sou agnóstico.

Estas questões de índole religiosa e de fé nunca terão uma solução para nenhum dos lados.

Há quem tenha muita fé, à quem tenha pouca e há quem não tenha nenhuma. Há pessoas más que têm muita fé e são muito religiosas e há pessoas boas que nem sequer têm fé em nada.

Mais do que fé ou religião (que deve ser do foro íntimo de cada pessoa e não interferir com a sua vida em sociedade) nós todos devemos ter valores fundamentais comuns que nos permitam viver em harmonia em sociedade.

Respeito imenso a fé das pessoas, mas sou anti-clerical (por diversas razões) e da opinião que devem existir serviços religiosos de qualidade. A fé/religião não deve ser imposta (como acontece na maioria dos casos) mas sim demonstrada para que cada um seja livre de escolher.

Acima de tudo devemos estar bem com todos e não marginalizar ninguém devido às suas crenças ou não crenças.
 
Não fiz nenhum comentário em relação a nenhuma pessoa concreta que estás a mencionar.

Se voltares atrás, percebes que o meu riso tem a ver com a associação que fizeste do jornalismo à imparcialidade, que, diga-se, nem hoje essa imparcialidade (e liberdade) é muita quanto mais à 90 anos...

[;)]
E eu referia-me a isso do início ao fim. Pois tens razão, o que só reforça o que venho a dizer, pq o jornalismo até era muito anti-clerical na altura. Assim isso só valoriza o que disse. Não teriam interesse nenhum em testemunhar o que testemunharam. Seriam a fonte menos interessada na altura.
 
Última edição:
Voltar
Superior