A questão de dançar livremente, tem a ver com a censura. Há sempre uma censura nossa provocada pela aprovação ou desaprovação de quem nos observa, o medo do ridículo.
Eu tive uma experiência, para a qual umas colegas me convidaram, que foi o que se chama transe dance, não confundir com música transe. Era um encontro de pessoas, ligadas à expressão corporal que se encontravam lá. A experiência consistia, em se vendarem os olhos e dançar-se ao som da música, para evitarmos a inibição, provocada pelos olhares e expressamos o que a música nos fazia sentir . Em cada sessão o tema era um, nesse dia o tema era Àfrica. A única pessoa, que estava de olhos sem ser vendados era quem estava no som e duas ou três pessoas, que evitavam que houvesse alguém que fosse de encontro a algo, ou alguém, pois estavamos de olhos vendados. O objectivo era exactamente evitar a inibição, por ninguém nos estar a ver,...
Para mim a experiência não era totalmente nova, porque tive uma professora de dança moderna, admiradora de Isadora Duncan, que já nos tinha iniciado em coisas idênticas.
Inicialmente correu tudo bem, consegui estar com os olhos vendado durante sensivelmente uma hora,...mas comecei a sentir que estava a ficar em pânico, controlei-me o mais que pude, mas a sensação foi de tal forma forte, que tive que parar e tirar a venda, porque senti que estava a ficar completamente descontrolada. A sensação é que estava a passar numa ruela estreita, deserta e numa noite escura, sabendo que a qualquer momento, iria sair duma daquelas ruelas, alguma coisa (nem sei o quê,...perigosa). Estava cheia de adrenalina e pronta para reagir ao mínimo sinal, de perigo,...foi essa a sensação. Achei muito estranho o que senti. Saí do espaço e fui acalmar-me,...mas foi horrível, nunca tinha tido nunca uma sensação de pânico.
No final sentamo-nos todos e falamos nas sensações que tinhamos tido. Uma colega minha apoderou-se completamente a emoção dela e chorou,...não soube explicar a razão,...todos adoraram,...menos eu detestei.