Alpiger
Suspenso
O fim de uma era
A idade da pedra não acabou por falta de pedra. A idade do petróleo também não vai acabar por falta de petróleo.
Bruno Proença
Mas vai acabar. Vai chegar o dia em que o barril de petróleo vai ser tão caro que deixa de ser rentável. Esse dia já esteve mais longe. Na última semana, o preço do barril atingiu valores recorde e a dúvida já não é se vai passar a barreira psicológica dos 100 dólares, mas quanto tempo vai demorar. Esta crise pode ser o empurrão que faltava para o processo de reconversão energética começar de forma irreversível. Não é a primeira vez que o mundo vive uma aflição destas. Em termos reais, a crise de 1979 – associada à revolução iraniana – foi bem pior. Contando com a inflação, é preciso que o barril de petróleo chegue aos 110 dólares para se atingir uma situação semelhante. E dado o enriquecimento dos países do G7, só com preços de 120 dólares é que as populações vão sentir os mesmos cortes no poder de compra. Mas não haja dúvidas: estes preços vão chegar. É uma questão de tempo. No início da década de oitenta do século passado, os racionamentos de combustíveis foram uma realidade. Sabemos que o resultado vai ser igual se não se fizer nada. Portanto, está aqui a oportunidade para iniciar o processo de transformação que retire ao petróleo o trono enquanto fonte energética. As fontes renováveis – solar, eólica, hídrica, energia das ondas – têm que ganhar um peso que hoje não têm, até porque passam a ser um bom negócio. Com a subida do custo da exploração do petróleo, as energias renováveis ficam relativamente mais baratas, justificando mais investimentos em investigação para encontrar formas que facilitem a sua utilização massiva.
Como todos os processos de mudança, este também vai ser doloroso. Vai afectar todas as áreas da vida. As casas vão ser diferentes, os carros provavelmente mais pequenos e menos potentes, os hábitos do dia-a-dia mais preocupados com a poupança energética. No combate ao desperdício está o outro caminho para a resolução da crise. Essa estrada vai ter de ser percorrida em paralelo com o aumento do recurso às energias renováveis. No final, o ambiente também agradece. Ao contrário do petróleo, as energias renováveis são mais amigas do ambiente, pelo menos nas emissões de gases que têm motivado as alterações climáticas. Estando o diagnóstico feito e a oportunidade identificada, é preciso arrancar. Nenhuma parte do mundo deve ficar de fora, embora sejam compreensíveis as resistências dos grandes países que agora acordaram para o desenvolvimento A Europa, por sua vez, está a começar com o pé esquerdo. Os países da União Monetária estão a abusar da almofada do euro forte face ao dólar. Estão a esconder os efeitos do petróleo caro. Quem não tem sintomas, não sabe que tem uma doença para tratar. Mas a factura vai chegar, bem alta, e vai ter de ser paga.
Fonte: DiarioEconomico