Hábitos de consumo em causa
Mas a consequência aparentemente mais funda da alta do preço do petróleo deverá ser a aceleração da mudança de paradigma energético, para formas de energia alternativas mais limpas, com destaque para os transportes, que poderão passar dentro de algumas décadas a utilizar maciçamente fontes híbridas de energia, ou mesmo o hidrogénio.
Nogueira Leite e Mira Amaral são peremptórios: o hidrogénio vai acontecer, mas não sabemos exactamente quando. Nogueira Leite conta que há quem lhe fale em 20 anos, mas que os seus amigos na Galp lhe falam em 50 anos. O Departamento de Energia dos Estados Unidos tem mesmo em curso um programa para, em parceria com os grandes construtores automóveis do país, desenvolver veículos movidos com energia limpa e sustentável, para reduzir a dependência do país face ao petróleo importado.
Mas haverá também consequências importantes na produção de electricidade, embora ainda não seja claro como será o peso de cada uma das fontes. Estão no horizonte a eólica, volta-se a falar do nuclear e há a expectativa da fusão a frio, lembra Nogueira Leite.
Por outro lado é preciso fazer um investimento enorme na conservação energética nos escritórios e na habitação, dizem Mira Amaral e Nogueira Leite. Estará aqui “a mais importante fonte de poupança”. E quanto mais caro for o petróleo, mais compensa adaptar casas antigas ou investir nas novas construções para que tenham mais eficiência.
Assim, se a curto prazo é difícil reduzir drasticamente a dependência do petróleo, a longo prazo esse cenário afigura-se como certo.
João Ferreira do Amaral acha importante que as pessoas tenham a preocupação de poupar combustível, não só por causa dos preços, mas também por causa das emissões de dióxido de carbono para a atmosfera, que contribuem para o aquecimento global. “Olhando-se para as estradas, vê-se excesso de velocidade e os carros a entrarem na cidade só com uma pessoa.”
Defende a substituição do transporte individual pelo colectivo, mas diz que isso depende de o aumento do combustível ser suficiente para desincentivar as pessoas. Considera a opção pelo carro mais uma questão cultural do que de falta de transportes públicos e diz que o estacionamento na cidade é barato e não é disciplinado. No entanto, diz que “se o preço do petróleo se mantiver ao nível actual o impacto não será muito grande” neste domínio.