Há mundo para além das bolsas e day trading. Acho redutor o excessivo foco nas oscilações da bolsa.
Comparemos, por exemplo, as balanças comerciais China /EUA nos últimos 25 anos.
O problema de base é o déficite brutal entre EUA e China.
Importam muito mais do que o que exportam. As tarifas são também uma forma de relocalização da produção industrial em solo americano. Ou não?
O facto da China não ter nivelado as tarifas (manteve um gap significativo apesar de ter aumentado) é bom indicador de quem está a beneficiar mais no comércio internacional na actualidade e quer manter o fluxo de exportação para US.
Trump não mente quando diz que a China se está aproveitar dos US.
A China está efectivamente a impor o seu domínio com a
alavanca dos consumidores ocidentais. E quando falo de domínio, incluo capacidade militar.
Na Europa, usa o excedente financeiro da operação comercial
para comprar activos em jarda com os nossos euros.
Mas nós somos os espertos aqui.[
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"Foram muitos os que se permitiram tratar os impostos alfandegários anunciados pelo presidente americano como uma loucura. O risco para a circulação de bens e capitais que sustenta a maioria das economias do mundo é real, e daí a nervoseira das bolsas, e a sua recuperação quando Trump suspendeu as “tarifas”. O que não foi notado é que também Trump fala de loucura. Só que para Trump, a loucura não é tentar mudar as relações comerciais dos EUA, mas manter tudo como está. Os críticos de Trump falam do perigo de uma ruptura do comércio mundial. Trump fala do perigo da desindustrialização e endividamento dos EUA. Onde está a loucura?
Para os críticos de Trump, a sua preocupação não faz sentido: o défice comercial americano seria inofensivo, na medida em que os EUA puderem financiá-lo emitindo títulos e moeda que os seus credores usam como reserva de valor. A redução da economia americana a serviços financeiros também não seria mais do que um caso de especialização, e não impediria os EUA de enriquecer. Tudo estaria bem, não fosse Trump.
Acontece que o método de lidar com o problema é talvez característico de Trump, mas a ideia de que há um problema não é.
Biden manteve os direitos alfandegários de Trump contra a China e procurou também estimular a reindustrialização dos EUA. Só que, em vez de impostos sobre as importações, recorreu a subsídios, que aliás ajudaram à inflação de que agora alguns tremem de pavor, porque se trata de Trump, quando nunca a temeram quando se tratava de Biden. Mas deixemos por um minuto a questão do método.
O que move Trump é o que moveu Biden: a dependência dos EUA em relação a países hostis, como a China, ou inconfiáveis enquanto aliados, como uma UE desarmada e quase sempre dividida e evasiva quando se trata de confrontar ameaças.
O risco não é imaginário: consta que Trump teria cedido à pressão exercida por um país (o Japão?) através de vendas maciças de dívida americana: eis como se condiciona uma potência que pode ter muitos porta-aviões, mas também tem uma grande dívida. À preocupação de segurança nacional, juntam-se a angústia com défices colossais, e uma comiseração muito popular com a má sorte dos trabalhadores manuais, os mais valorizados na mitologia do trabalho, mas os menos premiados por uma economia de serviços financeiros.
Falemos agora do método. Trump não recorreu a subsídios, como Biden, mas a impostos sobre as importações – opção mais compatível com uma economia de mercado do que o dirigismo dos subsídios (e por isso, em 1981, Reagan também usou a ameaça fiscal contra o Japão). Houve quem gritasse contra o atentado ao comércio livre, e denunciasse a iniciativa de Trump como guerra comercial.
É de uma grande inocência ou hipocrisia. O único comércio livre que há no mundo é o dos outros países em direcção ao mercado americano. Em contrapartida, todos os países estão em guerra comercial contra os EUA, através de impostos alfandegários, regulamentação e manipulação da moeda.
A globalização funciona assim: Estados proteccionistas usam o mercado dos EUA para expandirem as exportações, enquanto dificultam o acesso aos seus mercados. É a isto que, sem noção do ridículo, o mundo chama “liberalismo”.
De facto,
esta globalização é a maneira de Estados que não se querem liberalizar anularem a vantagem americana de uma economia mais livre.
A revolução de Trump não tem uma etapa final definida. Pode chegar, através de negociações, a uma ordem liberal como agora não existe. Ou, através de retaliações, a um sistema de solidões económicas. Arriscado? Sem dúvida. Mas manter tudo como está, à espera de ver até onde pode subir a dívida americana, ou como os EUA, endividados e sem base industrial adequada, vão defender o mundo livre, talvez não seja menos arriscado."
Trump e as alfândegas: onde está a loucura? – Observador
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