Isso de entrar para a FP antes de ter o curso é sempre um problema desgraçado. É bem verdade.
Se bem que não acredito muito que tenhas saído da FP. Largar o trabalhinho descansadinho para ir para Alemanha?
Não é impossível. Uma pessoa pode mudar de carreira em qualquer idade.
Estamos a falar de 92, a taxa de licenciados na fp era muito baixa e tal como hoje, as cunhas reinavam.
Quem não tinha cunha ficava nos últimos lugares, se conseguisse entrar.
Nos níveis mais baixos não havia "trabalhinho descansadinho", como dizes, tinha de fazer e saber mais do que os chefes (que se resentiam de quem sabia mais do que eles) muitas horas não eram pagas e havia, tal como hoje, um problema de liderança.
Eram sobretudo gente com o 6° e 9° ano, alguns com 12° mas filhos e sobrinhos de famílias com dinheiro que não queriam seguir os negócios da família ou queriam uma reforma no final da vida e uma aparência de normalidade, entravam para o Estado com 35/40 anos para lugares de direcção, sem nunca ter trabalhado um dia na vida.
Não foi nada fácil estudar e trabalhar sem conseguir progredir, ao mesmo tempo que via gente a saltitar do banco de Portugal para o meu ministério e depois para a presidência do Conselho de Ministros ou para outro lado, sem ter habilitações nem para fazer o que eu fazia ou fui fazer lá fora.
O último diretor que tive no estado ainda me disse, quando soube que ia sair, "ainda te vou chumbar se voltares a concorrer para o Estado". Encontrei-o numas férias na Grécia há uns anos eu estava na suite presidencial do hotel e ele tinha acabado de chegar com a prima, com quem tinha casado há uns anos e com os filhos, todos parecidos com o motorista que ele tinha no ministério.