jomaso
O teu argumento assume que primeiro vem o desenvolvimento e só depois os salários, nada mais errado.
A evidência empírica diz outra coisa e por esta ordem, salários, direitos laborais e negociação coletiva foram instrumentos centrais DO desenvolvimento e não consequências automáticas.
A Europa, os EUA e o Japão tiveram décadas de crescimento acelerado porque apostaram em salários mais altos, qualificações, sindicatos fortes, estado social e políticas industriais (ver o New Deal e as políticas "ocidentalizadoras" logo após a 1 guerra mundial no Japão e a imposição Americana de aumentos salariais e sindicalização para criar procura interna e estabilidade social no Japão).
E há inúmeros exemplos que provam que salários podem subir antes da produtividade e além disso, ajudar a aumentá-la.
Quando escreves “Os países com melhores salários têm economias de maior valor acrescentado", não só não é verdade como se demonstra pela comparação entre Portugal e Espanha.
Portugal e Espanha têm produtividade quase igual, mas o salário médio espanhol ≈ +40% e o salário mínimo espanhol ≈ +30%.
Aqui a pergunta relevante é como chegar lá?
Chegamos lá como a Alemanha chegou com o modelo Renano, com negociação coletiva forte, aumentos reais anuais, co-determinação (os trabalhadores a fazer parte da administração das empresas) e sindicatos com poder.
A Alemanha subiu os salários enquanto reconstruía a economia, não depois.
É por pagar mais que colocas mais valor acrescentado, principalmente quando, reduzem a rotatividade e aumentam qualificação, criam incentivos à inovação (porque compensa investir em tecnologia em vez de trabalho barato), aumentam produtividade via melhor organização retenção e motivação e criam mercado interno (procura agregada), estimulando o investimento.
Quando escreves que "A Europa já era industrial antes das guerras", isso não aborda o ponto central.
O ponto central é este:
O salto para salários altos não aconteceu no séc. XIX, aconteceu no pós-guerra em resultado das políticas redistributivas, políticas industriais, expansão massiva da educação, fortalecimento da contratação coletiva, estado social e estabilização da relação capital-trabalho.
Não foi automático nem natural, foi o resultado das políticas certas e institucional.
Entre 1945 e 1975 em alguns países (que não Portugal) os salários reais cresceram a 3–5% ao ano a produtividade cresceu a 4–6% ao ano, a desigualdade caiu e os sindicatos chegaram a 80% de cobertura laboral.
Nada disto acontece sem políticas sensatas e informadas.
O problema é que vejo gente inteligente a repetir um discurso sem pensar muito bem no que escrevem, ouvem e repetem como autómatos.