A monotonia na condução existirá sempre, porque aquilo que a elimina temporariamente é a novidade. Fazer a A1 — que considero uma autoestrada monotonissima, sobretudo da zona centro para norte — a 120 km/h é, para quem viaja sozinho, uma experiência particularmente desgastante. Falo por experiência própria.
Há alguns meses, durante cerca de mês e meio, fiz deslocações semanais Lisboa–Porto–Lisboa, no mesmo dia, sozinho, enfrentando tanto boas como más condições meteorológicas. Ao fim de algum tempo, a monotonia tornou-se evidente. A solução passou por variar o percurso: algumas vezes fazia o trajeto de regresso pela A8 e, noutras, utilizava exclusivamente essa via.
Concordo que os limites de velocidade devam ser revistos em determinados contextos. Não apenas pela redução do tédio e da fadiga associadas a longas viagens em percursos praticamente lineares, mas também porque a evolução tecnológica dos automóveis foi enorme. A segurança ativa e passiva dos veículos atuais está incomparavelmente mais desenvolvida do que há algumas décadas.
Além disso, o comportamento dos grupos propulsores mudou significativamente. O aumento do número de relações nas caixas automáticas — cada vez mais comuns no mercado — e o melhor escalonamento das tradicionais caixas manuais de cinco e seis velocidades, permitem que os motores trabalhem de forma muito mais descontraída a velocidades elevadas, não prejudicando excessivamente os bons consumos. Atualmente, circular a 150 ou 160 km/h já não significa, necessariamente, viajar às 3.500 rpm num motor diesel ou às 4.500/5.000 rpm num motor a otto.
Naturalmente, qualquer aumento dos limites de velocidade deve ser aplicado de forma criteriosa, avaliando as características de cada autoestrada. No entanto, existem casos difíceis de compreender. Um exemplo é o troço da A1, no sentido sul-norte, antes das portagens de Alverca, onde o limite é reduzido para 100 km/h durante a descida. Qual é o propósito dessa limitação? Sinceramente, parece mais uma medida geradora de multas, trânsito e travagens bruscas do que uma decisão fundamentada em critérios de segurança.
O mesmo raciocínio aplica-se a alguns radares urbanos. Nas avenidas Infante Dom Henrique e Marechal Gomes da Costa, em Lisboa, o limite é de 50 km/h. Não defendo que seja aumentado para 80 km/h, mas considero perfeitamente razoável uma revisão para 60 ou 70 km/h, tendo em conta que são importantes vias de acesso à cidade - e é esse o limite praticado diariamente pelos condutores dado que há condições para tal. Desde a instalação destes radares, é notório o aumento do congestionamento diário.
Outro exemplo é o radar situado junto à Casa do Sal, no IC2, sentido norte, em Coimbra. O limite é atualmente de 60 km/h, mas durante o período em que a A1 esteve cortada devido ao temporal, esse limite foi temporariamente aumentado para 80 km/h. Posteriormente, regressou aos 60 km/h. Isto demonstra que a via reúne condições para suportar um limite superior, mas que, ainda assim, se opta por uma restrição mais baixa, o que inevitavelmente alimenta a perceção de que o objetivo principal é a arrecadação de receitas através de multas.
Quanto à sinistralidade rodoviária, os acidentes continuarão sempre a existir. Não acredito que a simples redução dos limites de velocidade ou a proliferação de radares — salvo algumas exceções bem justificadas — seja suficiente para alterar significativamente essa realidade. O que poderá fazer a diferença é uma fiscalização mais eficaz das manobras perigosas, da utilização incorreta ou inexistente da sinalização luminosa (nomeadamente piscas, médios e luzes de stop), uma formação mais exigente nas escolas de condução, inspeções automóveis verdadeiramente rigorosas e uma maior responsabilização dos condutores.
Contudo, dificilmente veremos mudanças profundas nesse sentido. Basta observar o peso que as receitas provenientes das multas têm nos cofres do Estado. A situação faz lembrar a fiscalização dos filtros de partículas nas inspeções periódicas. Há mais de uma década que se ouve dizer que "é este ano", mas a realidade permanece praticamente inalterada. Continuam a circular veículos em avançado estado de degradação, autênticas sucatas sobre rodas, bem como automóveis deficientemente mantidos que colocam em risco a segurança dos restantes utilizadores da via — assumindo, naturalmente, que os seus proprietários têm consciência do estado da viatura e optam, ainda assim, por continuar a utilizá-la.
No outro dia li uma reflexão interessante que defendia que os condutores que furam filas constantemente ou que vão mudando de faixa sempre que avistam uma pequena abertura, tendem a ter uma necessidade permanente de controlo e validação. A ideia era que, por detrás desses comportamentos, pode existir uma mentalidade do género: "eu é que mando", "eu é que decido quando paro ou avanço" ou até "eu conduzo melhor do que estes todos". Achei uma perspetiva curiosa e que me levou a refletir sobre a forma como a personalidade de cada pessoa pode manifestar-se ao volante.
Naturalmente, esta observação não deve ser interpretada de forma absoluta ou simplista. Existem situações legítimas que podem justificar uma mudança de comportamento na estrada, incluindo compromissos inadiáveis, circunstâncias de emergência (um nº2 maroto[

]). Refiro-me, sobretudo, aos casos em que este tipo de condução é um padrão recorrente e não uma exceção motivada por razões de força maior.