O Expresso curto de hoje:
As previsões apontam para um crescimento robusto da economia portuguesa durante o segundo trimestre de 2021, mas a extensão dos estragos causados pela pandemia de covid-19 é alarmante. Um estudo promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos descreve um cenário sombrio.
“Com os presentes dados é possível estimar com 95% de certeza que, entre
55% a 61% da população está numa situação de instabilidade económica, seja por estar em perigo iminente de entrar em desequilíbrio financeiro, ou por já ter entrado em desequilíbrio ao precisar de contrair dívidas para fazer face às despesas correntes do agregado”, afirma Maria Manuela Calheiros, professora da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa, que coordenou a análise social do trabalho. A conclusão é preocupante e as perspectivas podem tornar-se piores.
A recolha de informação para o estudo em causa foi realizada com
as moratórias ainda em vigor. Os impactos do fim deste regime, que tem permitido adiar o pagamento de encargos com créditos contraídos mas que
termina em Setembro próximo, estão por medir. Será nessa altura que se começará a perceber
quem se conseguiu salvar enquanto houve apoios para mitigar inevitáveis problemas de liquidez, mas que, após o regresso à normalidade contratual, terá de enfrentar o abismo da insolvabilidade, com as poupanças esgotadas e os rendimentos em queda.
O desastre que se desenha no horizonte exige uma abordagemmais pragmática e um novo equilíbrio entre as medidas necessárias para controlar a pandemia e aquelas que se destinam a recuperar a actividade económica. A aceleração do processo de vacinação é a aposta certa, mas tem de funcionar como o seguro capaz de cobrir os riscos de uma reabertura estável, previsível e coerente.
O garrote que asfixia negócios e famílias precisa de ser aliviado.
O sector da restauração é um daqueles que tem sido mais causticado, quase como se fosse a principal fonte de surtos e o grande responsável pela propagação do vírus e das respectivas variantes. As restrições que entraram em vigor neste fim-de-semana foram apenas mais um golpe duro, um rombo adicional em contrapartida de uma miragem de benefícios, semelhante àquela que fundamentou a contenção da mobilidade na Área Metropolitana de Lisboa. As autoridades policiais controlaram entradas e saídas de cidadãos na região, mas a variante Delta seguiu viagem.
O Expresso testemunhou salas vazias, e as consequentes quebras na facturação, com a excepção daqueles estabelecimentos que, numa atmosfera de crise insustentável, podem contar com o débil balão de oxigénio dos serviços de esplanada. “Não se compreende que não se façam as mesmas exigências no interior dos cafés e pastelarias ao fim-de-semana. Isso faz sentido?”, questionou o proprietário de um restaurante. Não faz, nem as contradições ficam por aqui. As praias encheram-se de veraneantes sem máscara, nem respeito pelo distanciamento recomendado,
os transportes públicos circulam apinhados e, ao contrário daquilo que sucede nos restaurantes, veículos e carruagens não são desinfectados antes de receberem os passageiros seguintes.
As incongruências descredibilizam as medidas sanitárias. A percepção, adianta o estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos, é a de que um terço dos cidadãos não respeita as recomendações da direcção-geral da Saúde. O Governo recebe nota positiva no combate à pandemia mas, na frente onde se acumulam danos e prejuízos, o veredicto é o de que está a falhar na gestão da economia.
A dieta do jejum intermitente imposta aos restaurantes é um exemplo do fiasco.