Meu caro Pé Leve espero que me perdoe, mas o texto que vou colocar parece que define um pouco algumas "visões" que por aqui grassam, embora seja um pouco OT, fica como um alerta para o cerne do problema que esquecemos.
Enquanto não se entender o conteudo deste texto não vão perceber o resto.
O Homem que não sabia nada
O Homem que Não Sabia Nada entrou um dia na Assembleia da República, passeou pelos corredores e, parando diante do porteiro, encetou com ele este diálogo:
- Lembro que quando subi, impressionei-me com as imensas escadarias que trazem à entrada: para que servem tantas pedras?
O porteiro respondeu, ao mesmo tempo em que cravava um cigarro. :
- Servem para simular, diante do homem da rua, que os ministros e deputados são uma gente inspirada, vivendo no alto, anjinhos mais perto de Céu do que eles: assim devem ser respeitados, mas ultimamente tenho visto muita gente a subir a escadaria gritando que eles são é mais diabinhos.
- Ah é? Mas que querem esses que sobem a escadaria? É tornarem-se políticos também?
- Nada disso! Querem manifestar a toda a gente em directo pela televisão! A esse tumulto de palavras de ordem gritos, faixas e cartazes ao alto chamam manifestação, embora a mais das vezes pareça uma magnifesta, e é um destes revilharos que em dias até aparece a polícia!
- Ah é? E há violência ? Terrível!
- Terrível nada! É bom! Dá mais publicidade televisiva! É chamada televisão impacto! É o impacto do cassetete e o impacto na opinião pública! Uma vez até aconteceu um paradoxo: houve uma manifestação de polícias, mas felizmente com tanto cassetete ninguém se magoou. Às vezes acontecem manifestações de militares, mas a isso costumam chamar revolução. No entanto têm havido cada vez menos manifestações: acho que é porque as pessoas, ao invés de virem fazer uma manifestação, preferem ficar sentados em casa a ver acontecer manifestações pela televisão.
- Então está bem.... Entremos... Aquelas portas, onde levam?
- À assembleia: um círculo de cadeiras a que falta um bocado. Eles distribuem-se pelas cadeiras por cores ideológicas procurando a melhor posição.
- A melhor posição? Como estar à janela?
- O melhor poleiro, e o melhor poleiro é o do partido com mais deputados, e a esse todos querem pertencer! E porque trocam amiúde de partido, de cargos e de posição, demonstram ter muito a filosofia das alternadeiras,
-Alternadeiras? Como? Oferecem-lhes copos?
-Copos e não só! Mas o que sucede é que os presidentes de Câmaras e cargos de mais orgãos da administração frequentemente se candidatam a deputado e vice versa, nunca esquecendo a filiação em clubes locais e mais grupos filantópicos: ocupam o lugar uns dias e depois regeressam ao lugar original: houve um há uns tempos que, como foi ser deputado europeu, abalou e deixou lá o filho.
-Mas falou à pouco das cores... Eles também pintam?
-Se pintam! Pintam o sete e fazem uma imensa manta de retalhos de discursos e conversa. Por isso se chama parlamento! Por haver muita conversa!... Mas isto hoje está calmo: estão poucos deputados porque é hora de ir à casa de banho...
- E vão todos os mesmo tempo?
- Sim, porque fazem parte do mesmo partido.
- Que é isso dos partidos?
- Existem muitos, entre maiores e menores: mas a sua grandeza é fluida, oscilando muito como uma balança tonta a cada votação: o que parece determinar a oscilação é, do lado de um, os escândalos, do dos outros, a arruaça.
- Onde está o maior partido agora?
- Ali à frente. Alguns lêem o jornal, uns contam anedotas, outros fazem discursos, alguns pedem aumentos ( deputados: querem ser aumentados? - Só quando fizerem uma manifestação! Visado pelo Armando ) e alguns fazem desvios. Mas a maioria não faz nada. Dizem que sim ou não.
- Como?
- Então, quando é para decidir alguma coisa eles primeiro conversam todos um bocado: lêem os jornais, informam-se das sondagens, riem um bocado ( Houve há uns tempos um que pôs a malta toda a rir quando falou em tomar medidas sérias contra o grave problema do alcoolismo: como é de ver eles têm um enorme sentido de humor! ), mandam bocas, enfim, passa-se um bom bocado. Depois vão à casa de banho e a seguir votam.
- Mas porque esse insistência em ir à casa de banho?
- Porque entretanto se encontram nos corredores!... Aí é que se decidem as coisas! Nos corredores, no tu-cá, tu-lá, no toma-lá, dá-cá, eles concordam... Essa é a maravilha da Democracia: nos corredores, longe das câmaras de televisão, eles são todos iguais e têm todos o mesmo interesse, que é o de manter-se por lá o mais tempo possível!
- E aqueles ali à frente, com ar chateado , quem são?
- São os ministros.
- São enfermeiros? O que ministram?
- Administram isto com injecções de dinheiro da UE e palmadinhas no rabo! E estão sempre chateados porque só conseguem ter o apoio da bancada do seu partido, e raro o apoio dos outros. Ainda há tempos injectaram dinheiro para acabar com as filas dos hospitais, acho que era para distribuir dinheiro nas filas para que os pacientes fossem fazer as operações noutro lado.
- São os mais fortes da Nação, não é?
- Bem, eles são fortes, mas há um mais forte que todos os outros, mas desse e à sua primeira família não temos visto recentemente. Tem estado a viajar - a Diplomacia é o seu forte: assina livros de honra distribui medalhas de mérito aos amigos e colecciona autógrafos. Afirma-se muito preocupado com a Nação, mas como viaja muito nunca se percebe de que Nação fala. E todos gostam dele porque na sua ausência fazem o que quiserem!
Ideia: Eduardo d´Orey