Ao fim de 17 anos sobre a apresentação do concept do Veyron e 11 anos de uma criatura que definiu novos patamares de performance e preço, e foi, indiscutivelmente, um feito de engenharia notável, seria de esperar que o Chiron avançasse com as regras do jogo e redefinisse novamente o panorama estratosférico onde reside.
Mas não.
Nunca fui o maior fã da filosofia por detrás do Veyron. Fazer mais com mais. O excesso, a opulência, o foco sobretudo nos números, não interessa como...
Sem dúvida que redefiniu a paisagem automobilistica. Deixou de haver apenas supercars, e passou a haver hipercars.
Apesar do maior triunfo do Veyron, a meu ver, ter sido o como conseguiram domar todo o potencial de performance do carro e tornar a criatura perfeitamente civilizada num uso mais quotidiano.
Quando comparado com outras criaturas de alta performance, que parecem ter saído de um circuito directamente para as estradas, sem praticamente nenhuma consideração pelos seus utilizadores, o Veyron demonstrava que havia outras possibilidades.
Para um automóvel tão marcante, seria de esperar que o próximo capítulo trouxesse novidades, novas abordagens, novas soluções. Seria de esperar que ao fim deste tempo todo, houvesse algum rasgo de criatividade. Ideias que estivessem prontas para saltar das mentes, do estirador, das simulações para a estrada.
Mas não.
É um pouco estranho ficar algo passivo quando é apresentado uma criatura de 1500cv, mas o Chiron teve esse efeito. É "mais um". A estratosfera onde reside já apresenta um outro exemplar que motivam mais interesse.
Talvez foi a forma que encontraram de rentabilizar todo o investimento efectuado para o Veyron, que, como se sabe, não correu lá muito bem.
Das 500 unidades previstas para o Chiron, mais 50 que o Veyron, pelo menos 180 já estão vendidas, e a um preço superior ao do antecessor. Talvez no final da produção, as contas batam finalmente certo.
O Chiron herda tudo do Veyron. O investimento deve ser consideravelmente inferior ao fazer tudo do zero. Pode ter uma nova monocoque em carbono, mas mecanicamente um é a cara do outro.
Sem alterações à receita do antecessor, seja na arquitectura ou na mecânica, não seria de esperar grandes invenções à forma.
Apesar do discurso algo negativo, nem tudo são más notícias, porque no que toca à pele, pelo menos pode-se reportar passos dados no bom sentido.
O concept original do Veyron, uma visão mais romântica e estilizada do que deveria ser a Bugatti do séc XXI, contrapondo-se à bitola mais funcionalista e "sport-protótipo" do EB110, evoluiu os temas do 18/3 Chiron de 98 desenhado por Fabrizio Giugiaro.
Hartmut Warkuss, da VW, foi o autor do Veyron, e apesar de vir com enorme e complexo 18 cilindros de 6.3 litros e 555 cavalos ou algo assim, o ditador Ferdinand Piech queria que aquela forma suportasse o dobro da cavalagem do concept.
Foi o suficiente para que o Veyron de produção perdesse maior parte da sua graça. As proporções, a finesse foi ao ar. Apesar de apresentar os mesmos traços estílisticos do concept, o sentido de proporção perdeu-se, o carro parecia tão pesado como as duas toneladas que pesava.
O potencial visual estava lá, mas nunca foi atingido, devido às condicionantes de fazer com que um carro de 1000cv e 400km/h funcionasse sem entrar em combustão espostânea ou fazer um back-flip após apanhar um ressalto a 300km/h.
Por isso é que se começa sempre pelas specs e packaging, e nunca pelo estilo. Por isso é que existem tantos carros tão "tortos" no mercado...
Felizmente, o Chiron corrigiu muitos dos males do Veyron.
Impressionantemente, o desenho do Chiron começa mais ou menos na altura do do próprio Veyron, ou seja, à mais de década e meia atrás, quando Walter da Silva também propôs a sua visão para o futuro hipercarro.
Não faz muito tempo que se conheceu essa proposta, e olhando para as imagens, percebe-se claramente onde o C que define o perfil do Chiron veio:
99' Walter da Silva Bugatti
O uso do C resulta bastante bem. Ajuda a criar um perfil único, e estrutura de forma simples e assertiva todos os volumes do carro, sem contar que é também uma solução eficaz para as típicas carroçarias bicolores que deverão ser a norma no Chiron.
Ainda assim, o maior trunfo do desenho do Chiron é ter-se livrado das "gorduras".
Sim, ainda continua a ser uma baleia de 2 toneladas que pensa que é um golfinho, mas desta vez, a percepção é de um veículo mais ágil e "fat free".
As proporções são superiores às do Veyron. Existe maior predominância de horizontais, a ferradura parece estar melhor integrada, todo o carro parece mais baixo.
Visualmente transmite muito melhor o seu propósito e o potencial de performance que possui.
Dito isto, falha em alguns aspectos, sobretudo na definição de certos elementos.
Começando com um pequeno pormenor, o manípulo da porta. Que raio está ali a fazer, perdido naquela extensa superfície sem ter ligação a nada?
Porque não dissimulá-lo e posicioná-lo mais acima, junto da janela. Considerando que isto deverá ser um carro bastante baixo, ter o manípulo praticamente a meio da porta parece-me algo ridiculo.
Mas "prontos"...
As óticas dianteiras. Apesar de revelarem uma vertente mais tecnológica, e de valorizar a simplicidade da solução, sem cairem dentro de contornos estranhos ou forçados, como acontece com tantos outros, não considero a solução ideal para esta criatura.
Faz lembrar centenas de sketches que já vi, onde pequenos contornos de luz são a escolha standard pela maioria dos designers. Falta alguma finesse nesta solução.
Talvez demasiado tecnológica na sua aparência. Retira um pouco da "alma" que um carro destes precisa.
Talvez o número de óticas seja em demasia, talvez pudesse ter uma principal maior, com as outras secundárias de menor dimensão. Não sei. Só "brincando"...
No entanto ajudam a contribuir para uma face de tom mais agressivo, algo que o Veyron nunca teve.
Mas aqui é pouca coisa. A barra traseira que contém as óticas é que não consigo encontrar justificação. Uma criatura marcada sobretudo por curvas. O enorme buraco na traseira é todo ele limitado por contornos curvos. Como é que espetam ali uma linha recta, que não encontra paralelo com nada?
Havia tantas formas de dar volta à questão.
Uma solução semelhante à do McLaren P1, com a faixa de leds a acompanhar as curvas da carroçaria.
Recuperar e reinterpretar os dois círculos por lado do Veyron.
Ou até ir pela via mais artística e criar uma constelação de pontos de luz, espalhados pela traseira. Com Leds as possibilidades são imensas.
O interior segue a tónica exterior. E ainda mais que o exterior, o interior é uma clara evolução do que foi apresentado no Veyron. Uma evolução mais estilizada e tecnologicamente actualizada. A consola central, a meu ver, reflecte perfeitamente o aligeiramento visual que vimos operado no exterior.
A meu ver, dos pormenores mais bem conseguidos. Uma "ponte" mais elegante e arejada, definitivamente mais tridimensional, em vez do bloco, com generosa superfície no topo, do Veyron. Tenho algumas dúvidas sobre a ergonomia e legibilidade dos comandos que nela habitam, mas só mesmo experimentando.
Mas tal como o Veyron, um interior que continua a ser muito convidativo. Com as combinações cromáticas certas.
Acho que no final, devido a ausência de real novidade por parte do Chiron, apesar das definições gerais da estética terem evoluido positivamente relativamente ao Veyron, parece-me que estagnaram.
Pode ser a criatura mais rápida do planeta, ter um milhão de cavalos, dar mais de 400 e certamente irá virar cabeças. Mas isso já o Veyron fez.
O Chiron teria de ter algo único para impor-se ao antecessor. E lamento, 300cv a mais não é o suficiente.