Para quem nunca trabalhou no Estado eu explico, já lá trabalhei e sei como está montada a engrenagem.
Antes do governo do Sócrates havia dois tipos de concursos públicos (haviam 3, mas o terceiro era para colocar os conhecidos e amigos em alguns lugares e tecnicamente não era um concurso, as pessoas entravam num concurso público para a empresa pública do azeite de amendoim, entravam na lista dos candidatos aprovados e desapareciam dos quadros da empresa ao fim de algumas semanas), o primeiro concurso era aquele que era aberto para os familiares ou amigos que já estavam a trabalhar nos serviços mas andavam a renovar contratos regularmente.
Abriam concursos para 10 vagas e as 10 eram para os tipos que já lá estavam. Depois como isto dava muito nas vistas, os concursos passaram a ser de 20 vagas, 10 para os mesmos familiares, amigos ou tias de Cascais que nunca tinham trabalhado na vida mas queria ter uma reforma, entravam para o Estado aos 42 anos e eram reformadas aos 46/48 anos e 10 vagas para a ralé que fazia o trabalho.
Depois como isso ainda assim dava muito nas vistas, criaram o cresap e a bep, uma fachada para manter um modelo de contratação pública assente nos contactos e para também colocar alguns a fazer alguma coisa.
Então o atual modelo agora é assim, abre vaga na bep para cargo de chefia, pedem licenciatura em estudos africanos de uma universidade específica com um código específico, conhecimentos no programa que só se usa naquele serviço e ter participado num retiro espiritual que se fez em 2003 em São Paulo.
Depois abrem concursos sucessivos para diversos serviços com 100 vagas, mas fazem questão de enunciar qual é o código de licenciatura da universidade, não vá aparecer um candidato da universidade do Algarve no concurso. O modelo é o mesmo, 10 vagas para os afilhados que foram dois dias à universidade, um dia para o reitor fazer uma visita guiada às instalações e outro dia com a família para participar na cerimónia da entrega do diploma.
Os restantes 90 são para trabalhar, mas não podem ser de uma universidade qualquer, tem de ser das universidades do "círculo especial", o estado não se pode dar ao luxo, de aparecer um licenciado qualquer que perceba do assunto e assim de repente, queira por aquilo a funcionar.
É complicado chegar um tipo a uma entidade pública já com experiência de trabalho, licenciaturas e estar a dizer ao chefe ou ao secretário de estado que vossas excelências são burros que nem portas e pertencem à família dos calhaus com dois olhos.
E claro que depois funciona tudo bem e os ministros coitados não sabem mais o que fazer. Então juntam uma serie de organismos de tias e tios, uma empresa do filho do amigo cabeleireiro e faz-se um sistema completamente especial para corrigir provas.
Quando o esquema é descoberto já não há dinheiro e ninguém é responsável, só os professores, os pais e os alunos que foram fazer provas é que são imprudentes...