André Lamelas (Faculdade de Engenharia da UP)
A maior parte das pessoas que
se lançam nessa grande aventura
que é o programa Erasmus
vêem nele uma óptima
hipótese de poderem estudar
num meio cultural diferente
e travar conhecimento com
diferentes pessoas de variadas
culturas, de diferentes países,
bem como de se divertirem “a
pacotes” nas inúmeras festas
que o espírito proporciona e
que os habitantes locais propiciam.
Serei talvez caso único, mas
confesso que, no primeiro dia
em que aqui cheguei, à cidade
onde estou a estudar ao abrigo
do programa Erasmus, a
minha vontade era apenas a
de agarrar nas malas e mandar-
me de volta para Portugal.
Trocar um sol radioso de
Setembro, a altura do ano em
que a luz do Porto fica mais
bonita, por uma cidade fria,
chuvosa e aparentemente cinzentona
pareceu-me uma péssima
ideia.
Não consegui deixar de recordar
todo o processo que culminou
com a chegada aqui e,
mais ainda, orgulhar-me de
toda a coragem que fui tendo
para conseguir hoje estar
aqui. Para mim, desde o início
de todo o processo, o truque
foi não pensar muito no assunto
e tentar despachar tudo
o mais rápido possível. Quanto
mais tempo pensasse no assunto,
mais cenários de terror
conseguiria imaginar. Para
alguém que não imagine os
cénarios de terror, chegar cá é
fácil. Preencher papéis, entregar
esta e aquela documentação,
comprar a viagem, fazer a
mala e meter-se no avião.
Chegar é fácil. Partir e abandonar
Portugal, essa é a parte
complicada. Dizer adeus,
mesmo que não seja por muito
tempo, é sempre difícil. E
quanto mais deixamos, mais
custa partir. Contudo, por
muito que me tenha custado
partir, sabia que a experiência
haveria de ser muito importante
para mim. Por um lado
há a aventura: viver longe de
casa, num país onde a língua
soa como se fosse tudo “chechechez”
e onde a cultura é
abismalmente diferente da
nossa, isto se compararmos
apenas com os países da União
Europeia, é algo que requer
um certo espírito de aventura.
Agarremos no chicote e no
chapéu e sejamos então Indiana
Jones à Europeia, prontos
para descobrir as Arcas Perdidas
da aventura Erasmus.
Não vim sozinho (Fernando,
és grande por me aturares)
mas “Por que raio me meti eu
nisto?” foi uma frase que não
me saiu da cabeça durante
toda a viagem entre a grande
cidade onde aterrei e a igualmente
grande cidade onde iria
ficar hospedado. Passou-me
tudo pela cabeça: o sol português,
os condutores portugueses,
as estradas portuguesas,
a estabilidade das rotinas do
dia-a-dia, os amigos, a família,
a namorada. Chegar ao
destino e ver tudo fechado,
uma cidade completamente
deserta às 11 da noite, estar esfomeado
e não haver um único
sítio onde comer só contribuiu
para a vontade de ir embora.
«Como se diz “mamã, quero
ir para casa?”», perguntei à
amiga local que simpaticamente
nos veio receber. Claro
que não me lembro de como
se diz «Mamã, quero ir para
casa», mas julgo que, naquele
momento, se me dessem a escolher
entre ficar ou regressar
a Portugal, escolhia regressar
sem sequer pensar duas vezes.
Sei que a minha experiência
não foi das piores: há gente
que chega sem sequer ter um
sítio onde dormir ou alguém
Cartas de Erasmus 1
“E pensar que troquei Portugal por isto...”
4 Capa > Cartas de Erasmus
para a acolher.
Fomos alimentados pela nossa
amiga local e, já com a fome
curada, não custou nada adormecer
numa cama que não era
a nossa, num quarto que não
era o nosso, num país que não
era o nosso. Voltei a pensar em
Portugal e adormeci a pensar
em Portugal. Curioso como
quando lá estou só sei pensar
em como funciona mal e como
os portugueses são isto e são
aquilo e aqui, a esta distância,
só me parece o melhor país do
mundo.
Acordar às 8 da manhã com a
claridade a bater-me na cara
(sim, porque as nuvens encobriam
qualquer raio de sol
que tentasse atingir os meus
olhos) fez-me perceber que
estava mesmo ali e era de dia.
Levantei-me, olhei pela janela
e vi gente. Gente como eu.
E, já que acabei por trocar
Portugal por isto, convinha
fazer disto uma casa: pego na
minha bandeira de Portugal e
prendo-a por cima da minha
cama. Vejo-lhe no verde e no
vermelho tudo o que deixei e
que espero não ter perdido no
dia em que voltar.
Até já, Portugal.
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