GP da Hungria: O caso da qualificação escalpelizado
Data: 05/08/2007 20:47
Lewis Hamilton realizou hoje uma excelente corrida que o levou até à sua terceira vitória na Fórmula 1, mas a sua exibição de hoje será sempre marcada pela a polémica de ontem, tendo o jovem inglês não estado isento de culpa em todo o processo.
Era claro desde o início da qualificação que a luta pela pole-position era um assunto a tratar entre os homens da McLaren Mercedes, parecendo Hamilton ter uma ligeira vantagem sobre Fernando Alonso.
Até aqui, tudo bem. Tudo parecia encaminhado para um fim-de-semana muito positivo para a formação de Woking. Mas os problemas estavam à espreita.
Lewis Hamilton foi o primeiro piloto da equipa a sair das garagens na terceira qualificação e Fernando Alonso o segundo, mas, de acordo com a estratégia da equipa, o espanhol teria que ser o primeiro em pista, dado que, segundo os responsáveis da McLaren Mercedes, era a vez dele ter uma volta extra para queimar gasolina. Ron Dennis assegura que, para manter a igualdade entre os seus pilotos, num Grande Prémio um deles tem direito a uma volta extra para queimar gasolina e no seguinte cabe ao outro piloto ter essa regalia. Porém, ao longo da temporada esta situação só aconteceu por duas ocasiões e Lewis Hamilton foi sempre o beneficiado.
"Os carros saem da garagem o mais rapidamente possível. No caso, o carro do Lewis atingiu a temperatura primeiro, portanto mandamo-lo sair e de seguida mandámos o Fernando. As características da fase para queimar gasolina significam que existe uma pequena vantagem que nós atribuímos ora a um piloto ora a outro de acordo com a natureza do circuito. Neste caso, era a vez do Fernando ter a vantagem de uma fase para queimar gasolina mais longa. Existia um acordo para trocar as posições durante a primeira volta", afirmou ontem Ron Dennis, poucas horas após a qualificação.
No entanto, Lewis Hamilton não acatou as ordens da equipa e nunca deixou passar Fernando Alonso, segundo ele, porque poderia perder também a sua posição em pista para Raikkonen que estava nos escapes do seu colega de equipa: "Estava no final do pitlane; estava eu, o Fernando e o Kimi. Nesta situação, não queria perder a oportunidade que tinha. Não queria perder a oportunidade ao trocar de posições ou qualquer coisa que teria de fazer, e facilitar a ultrapassagem ao Kimi e perder a minha posição. Neste caso não poderia realizar uma volta extra. Portanto, foi por isto que tivemos um desentendimento, porque não concordava e não fiz o que queriam que eu fizesse."
A partir daqui, e apesar de continuar a ter uma vantagem competitiva sobre as suas rivais, a qualificação da McLaren Mercedes começou a correr mal. A ordem dada a Hamilton anteriormente foi-lhe repetida exaustivamente, mas este ignorou-a sempre. Porém, até aqui a polémica estava dentro da equipa e ninguém suspeitava do que se passava. Até que Fernando Alonso entrou na boxe pela última vez para trocar de pneus.
O espanhol, após ter visto ser levantado o lollipop permaneceu parado durante dez segundos, tempo que foi decisivo para que Lewis Hamilton não pudesse realizar uma derradeira volta lançada. Durante a conferência de imprensa após a qualificação promovida pela McLaren Mercedes, Alonso afirmou que estava a ser monitorizado pelo seu engenheiro para que pudesse entrar em pista sem tráfego. "Os engenheiros estavam a realizar uma contagem decrescente. O meu engenheiro monitoriza-me sempre pelo rádio através de uma contagem decrescente. E foi assim que realizei as últimas qualificações", revelou o Bicampeão Mundial.
Aqui Fernando Alonso revela alguma incoerência com as suas declarações prestadas aos comissários desportivos, quando inquirido sobre a razão que o levou a manter-se na boxe após o lollipop ser levantado. "O Alonso foi questionado sobre o porquê de ter demorado dez segundos a abandonar os pits depois de ter-lhe sido dado sinal para arrancar. A sua resposta foi que estava a perguntar se tinha sido montado no seu carro o jogo de pneus correcto", podia-se ler no comunicado emanado pelos comissários desportivos ontem à noite.
Ora analisando as duas versões do espanhol, temos concluir que pelo menos numa delas mentiu. Como os comissários desportivos tiveram acesso às conversas do rádio da McLaren Mercedes, teremos que concluir que a versão verdadeira de Alonso é a segunda e que não existiu qualquer contagem decrescente. Ou seja, no fundo partiu quando achou que devia e não quando a equipa lhe disse para o fazer, até porque perguntar naquele momento se tinha os pneus correctos era irrelevante, dado que, caso não os tivesse, não teria tempo para os trocar e ainda realizar uma volta lançada.
Entretanto, Lewis Hamilton, que tinha desobedecido às ordens de equipa, estava nos escapes do espanhol à espera da sua vez para trocar de pneus e, com o tempo a passar, não pôde realizar mais uma volta lançada e assim defender a sua pole-position dos ataques do seu colega de equipa. Foi então que a conversa azedou através do rádio entre Ron Dennis e o jovem inglês, tendo sido trocadas palavras muito duras. Foi neste momento que o chefe de equipa da McLaren Mercedes atirou os seus headphones para cima da mesa do pitwall numa atitude de profundo desagrado pela atitude de Lewis Hamilton. "Estou com muitos problemas com o meu patrão", reconheceu o inglês que continua. "Provavelmente estou, mas as coisas são assim. (...) O Ron (Dennis) estava obviamente muito zangado comigo neste momento, não sei se ainda está."
Ron Dennis mostrou-se hoje ainda muito agastado com os acontecimentos de ontem, até porque a McLaren Mercedes viu-se privada dos pontos que conquistou para o Campeonato Mundial de Construtores, tendo deixado entender que foram os seus dois pilotos que criaram toda esta situação. "O que aconteceu ontem é inaceitável. Nós estamos apostados em manter a paridade (n.d.r.: entre os pilotos). Mas esta foi uma das ocasiões em que por muito que se tente, existe sempre uma divergência dos planos traçados, isso colocou a equipa numa posição extremamente difícil", afirmou esta tarde Dennis.
Parece claro que os pilotos da McLaren Mercedes agiram por conta própria e risco e que a permanência de Alonso na boxe foi a resposta do espanhol à desobediência de Hamilton às ordens de equipa, o que demonstra que Ron Dennis está a perder a mão nos seus pilotos e esse é um problema seu e da sua equipa.
A questão que se levanta é se a intervenção da FIA é legítima nesta situação. O facto de ter um ambiente bastante pesado no seu seio já será bastante penalizante para a equipa, e ser molestada com a não pontuação para o Campeonato de Construtores na corrida de hoje, parece ser demasiado para uma situação em que os seus pilotos não seguiram as suas ordens. Quanto a Fernando Alonso, o espanhol foi o homem mais rápido em pista e não existe qualquer regra no código desportivo que obrigue um piloto a abandonar a boxe assim que o lollipop seja levantado. Portanto, não parece ser justo que os comissários desportivos penalizem o Bicampeão por não ter cumprido a ordem interna da equipa (levantar o lollipop para que um piloto arranque, não passa de uma ordem de equipa), quando Lewis Hamilton foi favorecido por não ter... acatado uma ordem da equipa.
Este é claramente um caso em que houve um uso abusivo dos poderes dos comissários desportivos para tentar agradar ao grande público. Enquanto que casos há bem mais graves que, apesar de haver culpados, estes ficam impunes na tentativa de agradar a gregos e a troianos.
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