Coluna Warm Up:
Um fenômeno, só que...
Flavio Gomes
04/10/2007 - 17:43
Hamilton: fenômeno, nem que só por uma temporada
...só que ainda gostaria de ver Hamilton sozinho na McLaren, sem Alonso no carro ao lado, a conduzir um time inteiro às vitórias e aos títulos na condição de estrela solitária. O estreante mais bem-sucedido de todos os tempos teve uma oportunidade na vida, já disse isso antes, que raríssimos pilotos tiveram: começar a carreira numa equipe de ponta em boa fase, e totalmente adaptado a um ambiente que conhece há uma década.
Mas mesmo com tamanha moleza, nem todos fariam o que ele está fazendo, e aqui é preciso aplicar os mesmos critérios que sempre usei para afirmar, sem muito medo de errar, que Schumacher foi o melhor piloto de todos os tempos: a análise não só dos números, frios e às vezes enganosos, mas das realizações.
Schumacher foi campeão em equipe média, a Benetton, que por causa dele virou grande. E quando o alemão saiu, voltou a ser média. Depois, encarou de frente o desafio de tirar a Ferrari da fila, o que conseguiu com paciência e dedicação. Na hora em que as coisas se encaixaram, não deixou espaços para adversários e desandou a ganhar corridas e campeonatos. Foram suas maiores façanhas, além dos recordes sem fim que foram se acumulando como conseqüência da coragem que teve ao assumir o risco de afundar em Maranello como tantos de seus antecessores.
A grande realização de Hamilton pode ser a conquista do título no ano de estréia. Mas ele também foi capaz de enfileirar pódios e de demonstrar não ter medo de um companheiro bicampeão mundial. Nunca se intimidou e se impôs muito rapidamente entre seus pares. E tem a possibilidade de levar a taça aos 22 anos, transformando-se no mais jovem campeão da categoria. Fazer tudo isso, mesmo numa McLaren tinindo, não é para qualquer um.
Ainda acho que Alonso levaria o título se não tivesse abusado um pouco dos erros no começo da temporada. Se soubesse que Lewis é tão bom como é, faria um início de campeonato mais conservador e não desperdiçaria os pontos que jogou pela janela arriscando em algumas provas em que melhor seria chegar ao fim quietinho, somando pontos que seriam decisivos no final.
Mas não foi isso que aconteceu, e não se pode reescrever o roteiro quando chega o capítulo final. Portanto, azar dele. Hamilton, para mim, passou a merecer o rótulo de “genial” e “fenomenal” em Fuji, guiando como um veterano naquele aguaceiro todo. Era o que faltava.
É verdade que seu título dado como certo depois da prova de Fuji está agora ameaçado pela possível punição em função do desrespeito à regra que estipula parâmetros de comportamento atrás do safety-car. As imagens captadas por um torcedor que estava na arquibancada do autódromo japonês mostram que Hamilton não guardou a distância necessária para o carro-madrinha, desencadeando uma seqüência de fatos que resultou numa batida entre o segundo e o terceiro colocados.
Lewis estava muito perto do safety-car quando, provavelmente, alguém avisou pelo rádio que era preciso deixá-lo abrir pelo menos cinco
carros de distância. É o que está no regulamento. Enfiou o pé no freio e tirou para a direita, sem se importar muito com quem vinha atrás. Webber, de repente, se viu sem ninguém à frente e percebeu que se continuasse acelerando passaria o inglês. Poderia ser punido por isso e freou, também. Vettel, que vinha atrás sem enxergar nada, não conseguiu brecar e bateu no australiano. Alegou que se distraiu ao notar Hamilton à sua direita, quase parado. Achou que o carro da McLaren tinha quebrado. Se atrapalhou e arrastou junto o colega da Red Bull. Mas tudo começou com a proximidade de Hamilton do safety-car que o levou a tirar o pé de repente, disso não há dúvidas.
A manobra não tem cara de ter sido voluntária, nem lhe trouxe grandes vantagens na
corrida. Mas resultou no abandono duplo de pilotos que poderiam ir ao pódio, e por isso a gravidade da conseqüência de seu equívoco é que deve pautar a possível punição da FIA. No limite, até a desclassificação da corrida, ou perda de posições no grid da China, ou ainda acréscimo de alguns segundos ao seu tempo de prova que podem mudar o resultado final de Fuji, reabrindo o campeonato e recolocando Alonso e Raikkonen na luta.
De qualquer maneira, o inglês chega ao fim do ano contabilizando raríssimos erros e acumulando uma experiência ímpar que o difícil convívio com Alonso lhe deu. Aprendeu mais em meia-dúzia de GPs do que muitos pilotos conseguiriam absorver em ensinamentos por anos. Esta temporada, assim, já o coloca na história mesmo se ele não fizer mais nada na vida. E se isso acontecer, não voltar a brigar por títulos, parar de ganhar corridas e sumir no ostracismo, concluiremos daqui a algum tempo que ele foi o gênio de um ano só.
Mas, ainda assim, genial.
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