O Grupo VAG e a F1
Parece ser inevitável que continuem a surgir notícias de um possível envolvimento de uma das marcas do Grupo VAG na Fórmula 1, agora foi a vez da Audi que, de acordo com notícias oriundas na Alemanha, abandonará o seu projecto de Le Mans para se virar para o mundo dos Grandes Prémios já em 2014.
Os rumores que dão como certa a entrada de uma marca do maior construtor europeu no mais importante campeonato de automobilismo do mundo têm anos, muitas vezes instigados pelos próprios responsáveis que inúmeras vezes parecem gostar de ver as suas marcas associadas à imagem da Fórmula 1, muito embora não deem o passo em frente – ou porque não podem, ou porque não têm a coragem, ou porque não os deixam –, como foi o caso de Matthias Muller, o CEO da Porsche, que em 2010 afirmou que ou a Audi ou a Porsche deveria ingressar na categoria máxima do desporto automóvel, evitando um confronto entre as duas nas corridas de endurance.
Na verdade, conforme foi confirmado ao SportMotores.com há alguns meses por um responsável da Audi, o Grupo VAG esteve nas reuniões que definiram o regulamento de motores que entrará em vigor em 2014 – tendo mesmo sido o incitador das unidades de quatro cilindros em linha que acabaram por cair – o que demonstra que o conglomerado automóvel que teve na Volkswagen a sua origem esteve (ou está) realmente interessado na Fórmula 1.
Este facto acabou por alimentar os rumores que davam como certa a entrada da Audi ou da Porsche no mundo dos Grandes Prémios, surgindo esta semana nova notícia de que o construtor de Ingolstadt poderá abandonar o seu projecto de Le Mans e o Campeonato do Mundo FIA de Endurance para fornecer motores à Red Bull já em 2014, ano em que entra em vigor o novo regulamento de motores na categoria máxima do desporto automóvel.
No entanto, esta possibilidade encerra diversas imprecisões, uma vez que a formação que este ano venceu ambos os campeonatos – e muito embora a empresa de bebidas energéticas austríaca tenha fortes relações com o Grupo VAG – tem um contrato de fornecimento de motores com a Renault até 2017, para além de ter assinado recentemente um acordo com a Infiniti – uma marca do portfolio da aliança Renault/Nissan – para que esta se assuma como o patrocinador-título da formação sediada em Milton Keynes nos próximos anos.
Para além desta impossibilidade contratual, tecnicamente os homens de Ingolstadt não estão preparados para se baterem em pé de igualdade com a Mercedes, Ferrari e Renault, dado que a exigência técnica na Fórmula 1 é notoriamente superior aquela que a Audi está habituada em Le Mans e no Campeonato do Mundo de Endurance, como ficou demonstrado com a Peugeot – quando nos anos noventa passou de Le Mans para a Fórmula 1 – ou com a Toyota, no início do século.
Mesmo no que diz respeito à filosofia de abordagem técnica, existem diferenças claras, uma vez que na categoria máxima do desporto automóvel é necessário explorar totalmente cada aspecto do regulamento, ao passo que nas provas de resistência, fruto da falta de diversas equipas competitivas entre os LMP1 – e não um habitual duelo – a capacidade financeira dos grandes construtores acaba por ser determinante. A forma como a Toyota regressou às corridas de endurance, depois de uma passagem pelos Grandes Prémios, é bem demonstrativa, tendo concebido rapidamente um carro competitivo e capaz de bater a (não tão) poderosa Audi, que permanece na categoria há longos anos.
Portanto, para que a marca dos quatro anéis pudesse ingressar no Campeonato do Mundo de Fórmula 1 já em 2014, teria que ter já um departamento a trabalhar num projecto para um propulsor de acordo com os novos regulamentos, assim como num sistema hibrido, componente que actualmente compra a Williams para aplicar no R18, e contratar técnicos com experiência de Grandes Prémios para o liderar.
Contudo, e por outro lado, não faz sentido que a Audi e a Porsche entrem em confronto directo nas mesmas pistas, sobretudo num momento em que o mercado automóvel está em recessão, gastando somas avultadas de dinheiro para se baterem e entregando-se a uma luta fratricida em que, principalmente a marca de Estugarda não teria muito a ganhar em termos de imagem – um Porsche ser batido por um Audi não é um bom produto de marketing para o Grupo VAG.
Faz sentido, portanto, que um dos dois construtores abandone o Campeonato do Mundo de Endurance e Le Mans para se lançar em novos desafios, sendo a candidata óbvia a Audi, que já mostrou que consegue vencer na clássica francesa e que, a partir de agora, com concorrência à altura terá muito a perder.
Depois de Le Mans o passo em frente é, inegavelmente, a Fórmula 1, tudo resto é um retrocesso, e a categoria máxima do desporto automóvel é, actualmente, verdadeiramente global, com o regresso aos Estados Unidos, com uma prova na Rússia na calha, uma corrida sólida na China (um dos actuais principais mercados da Audi), tendo ainda a vantagem de se manter sob os holofotes durante de longos meses, ao passo que o Campeonato do Mundo de Endurance apenas durante a semana de La Sarthe se consegue impor noticiosamente.
Cabe aos homens do Grupo VAG darem o passo em frente e deixarem de andar em círculos, e enfrentarem o desafio que representa o Campeonato do Mundo de Fórmula 1.
Jorge Girão
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