Deixar um Executivo à solta no Colombo depois de uma entrevista de trabalho pode causar danos irreparáveis aos olhos do meu género de gaja.
Acontece quase sempre.
Bom, o resultado final das primeiras compras de um Macho a caminho do seu cubículo é: um fato quase sempre cinzento, cujo blazer tem SEMPRE botões a mais, uns ombros até à cadeira do cubículo seguinte e uma calça com demasiadas pregas, por conseguinte demasiado larga e geralmente muito comprida.
Como o Macho passa directamente da pré-adolescência para a vida adulta, tem de adquirir, no mesmíssimo dia todo o material.
É o regresso às aulas, sem mascote, mas com uma Dª Leopoldina que pareça uma Popota.
Da lista constam: o fato (check!), camisas, peúgas, cuecas e gravata.
TERROR.
E os sapatos...
No que às camisas diz respeito, só tenho duas questões: 1. para quê tanto colarinho?! 2. sabiam que se podem mandar arranjar/cortar as mangas?
Na compra das cuecas, a Mãe escolhe, mas o Executivo refuta.
É o Grito do Ipiranga!
Explica à Mãe que não gosta de se sentir preso com os slips...
Cria-se um clima de grande tensão.
Porém, o momento da grande emancipação dá-se quando ele assume (ao fim de vinte e tantos anos) que o gosta mesmo é de andar com a salada baldona.
Choque.
Suores frios em público.
Voltam, embora faça o tratamento hormonal, as sensações físicas da menopausa ao corpo da pobre Mãe.
Uma vida inteira de dedicação para isto.
Abaladíssima, a Mãe não pode dar parte fraca.
É o momento destinado à emancipação do seu Macho Bebé.
Sabia que ia ser difícil.
Mas não contava com esta.
Acede a pagar aquela roupa interior do Demónio e deixa-o escolhê-la sozinho.
Não acompanha aquele momento duríssimo.
Ahhhhh! Mas ele está feliz no meio de tanto boxer largo!
Agarra sofregamente todos os que consegue e ainda tem tempo - sob o olhar desinteressado, porém atento, da Mãe - de agarrar um par engraçado, com uma mensagem também muito engraçada. Em inglês.
Sente-se feliz e crescido.
Pode continuar.
A Mãe está muito fragilizada, pelo que passam à escolha do próximo item:
A gravata.
A Mãe volta a estar em posição superior, uma vez que está muito familiarizada com essa peça.
Primeiro: o Executivo não sabe fazer NENHUM nó de gravata.
Segundo: nem sequer faz ideia de que há mais do que um nó.
Terceiro: conta pelo polegar direito as vezes que usou gravata.
A Mãe avança no terreno e escolhe uma gravata.
OUCH.
Depois explica-lhe que pode usar as do Pai.
ERRO.
Como a última vez que a Mãe viu um Macho que lhe despertou interesse, foi nos anos oitenta, está um pouco desactualizada.
No entanto, as referências aplicáveis ao seu rebento são essas.
Mmmmmmhhhh...
Talvez nos anos noventa tenha visto um que lhe tenha dado algum frisson!...
Aaaaaahhhhh!
E Lembra-se!!!
E lembra-se daquele nó de gravata, bem largo, bem cheio...
E transmite-o ao seu Filhote.
"(...) - Vais ficar lindo! (...)"
O Sapato.
PAUSA PAUSA PAUSA PAUSA PAUSA.
PAUSA.
Jovem Executivo,
Ir ao Calçado Guimarães é muito mau, mas às vezes há coisas que até se safam...
Agora, ir ao Calçado Guimarães com a Mamã e aceitar os conselhos dela...
Eishhh...
Sapatos de biqueira quadradona, solas grossas...
Mas... Agora a sério, para quê tanta borracha?
Têm medo de ficar pegados à tomada da fotocopiadora?
Ou será da máquina de café que faz mau contacto?
E as biqueiras quadradas servem para quê?
Manter aberta a porta do comboio mais do que uma nesga e assim poder forçar a entrada quando o mesmo já está de partida?!
A sério...
Posto isto, terminado este processo, o Executivo está pronto a entrar no mercado de trabalho.
Vai para casa ao fim de um estenuante dia no Centro Comercial, cheio de sacos e abandona-se no sofá.
A Mãe prepara-lhe o jantarinho e o guerreiro tem o seu merecido descanso.
Chega o Grande Dia!
O Primeiro Dia.
E entra pela porta principal do grande edifício, como todos os outros Executivos, apetrechado.
Leva os boxers engraçados.
E está consciente disso.
A hora de almoço, é a prova de fogo:
Vai comer à tasca com os outros Executivos, consciente, porém, de que é ainda um Maçarico.
E tem de se afirmar.
É uma questão de vida ou morte.
De sobrevivência, vá.
Tem de mandar uns piropos, olhar para umas gajas...
Pá, fazer dessas coisas que os Executivos fazem em grupo.
O grupo, na melhor das hipóteses, aceita-o.
Conta-lhe umas piadas, ensina umas manhas e enuncia histórias, situações do último jantar da empresa.
O Executivo sonha com o próximo e espera pela camaradagem que há-de vir.
Tenho muitas saudades de quando morava no estrangeiro e havia Executivos giros a convidar-me para beber café.
Com fatos Lanvin (em Paris, várias vezes...).
Frequentadores de alfaiates.
Calçadores de sapatos ingleses de solas finas e sem tacões que parecem cascos.
Usadores de óculos de sol totémicos e afirmativos.
Portadores de bons cortes de cabelo.
Portadores de boas peles e bons dentes.
Portadores de unhas limpas e bem cortadas.
Detentores de muita classe.