As teorias da terra plana são tão pueris e autofágicas que dói, mas o fenómeno das teorias da conspiração propriamente dito tem o seu interesse. Há uns 2 anos estive num fórum de microeconomia, teoria da escolha do consumidor, marketing, etc, e achei muita piada a uma apresentação de um professor da universidade do Michigan sobre o tema das teorias da conspiração. Aquilo tinha mais que ver com a influência das teorias da conspiração nas escolhas do consumidor (lobby do petróleo, veganismo, etc), mas no fundo aplica-se a muita coisa. O fenómenos das teorias da conspiração está bem estudado por várias disciplinas, desde a psicologia, psiquiatria, sociologia e até teologia. Este professor é Psicólogo Social (já não faço a mínima ideia do seu nome).
De tudo o que senhor disse retive algumas coisas básicas, que relembrei fazendo umas buscas no google: as teorias da conspiração em geral nascem de 3 fenómenos sociais e psicológicos que estão bastante bem estudados: a teoria da influência social minoritária, também chamada de teoria da conversão; a teoria do pensamento mágico; e o chamado Zeteticismo(?) (Zetethic Method), que assenta bem nisto da terra plana.
A teoria do pensamento mágico diz-nos que o ser humano procura constantemente analisar e explicar tudo o que acontece à sua volta, passando a vida toda a sintetizar e a colocar a realidade em "caixinhas". Quando se depara com coisas que não compreende, fenómenos cujos mecanismos não atinge, recorre a explicações etéreas para conseguir arrumar o assunto na tal caixinha e dormir descansado. Estas explicações aparecem sob as mais variadas formas, desde as religiões, a aceitação de forças e energias ocultas, a necessidade de encontrar um sentido, um propósito para a vida, e coisas até bem mais simples como as superstições, o fetichismo em termos latos (atribuir algum tipo de poder ou mesmo significado a objetos), etc, etc. Quando o sujeito ignora uma coisa e contudo essa coisa apresenta-se-lhe na sua frente, tende a ir pelo pensamento mágico. Isto afecta-nos a todos, mesmo aos mais racionais. O problema é quando nos afecta tanto que nos leva ao absurdo.
A teoria da influência social minoritária diz-nos que, se aparecer alguém a dizer uma coisa diferente da voz corrente, e que se ela for suficientemente tenaz para a afirmar com uma convicção inabalável durante bastante tempo, então essa pessoa vai começar a granjear seguidores. Ou, como se costuma dizer, uma mentira repetida muitas vezes torna-se verdade. Este é, provavelmente, o motivo que estará por detrás do aumento do número de crentes nestas teorias da conspiração. É que o "palco" destes conspiracionistas convictos ganhou milhões de espectadores que antes não tinha, graças à internet.
Finalmente, o Zeteticismo. O Zeteticismo é um método alternativo ao método experimental utilizado pela ciência. O método experimental propõe hipóteses e testa-as. Um factor central do método experimental é não se fiar nos sentidos humanos. O método zetético, pelo contrário, baseia-se nos sentidos humanos. Ou seja, eu vejo, logo existe. Agora vou fazer o raciocínio e deduções necessárias para explicar o que vi. Eu olho em volta e vejo tudo plano. Portanto não há duvida que isto é tudo plano. Agora vamos la ver como é que, racionalmente, eu explico isto. Ora bem, não é de estranhar que o método zetético tenha sido totalmente relegado ao esquecimento (excepto por estes teoristas da terra plana): é que não funciona.
Mas falou-se de outras coisas. Falou-se por exemplo da arrogância da ignorância. Quem ignora, acredita numa coisa de forma muito veemente. Quem conhece, não acredita. Constata. Logo quem ignora, acredita com mais força do que quem conhece, e por isso é mais ruidoso do que quem conhece, fazendo-se notar mais.
Também falou qualquer coisa a propósito da necessidade que as pessoas têm de demonstrarem conhecimento num mundo cada vez mais complexo. Por exemplo, hoje em dia a física, a matemática, a química, a medicina, etc, estão tão avançadas que se tornou impossível discutir esses temas entre pessoas que não sejam especialistas. Não há ninguém a discutir física quântica ou a conjectura de Hodge nos cafés ou nas redes sociais. Então algumas pessoas pegam naquilo que o seu entendimento consegue alcançar (conceitos simples), e fazem tentativas fúteis de "descobrir a pólvora". O edifício da ciência já vai no 30º andar, e ainda não caiu, mas eles acham que descobriram uma falha fundamental e crassa ao nível do rés-do-chão!