Bom, como disse, embora não participasse, já há mesmo muito tempo que leio este tópico, mas o nível de disparates chegou a um nível em que eu não resisti mais em manter-me na sombra.
Ora bem, eis só algumas pérolas que já li, todas elas a meter o ónus na Ucrânia e nunca na Rússia, e todas elas a legitimar a invasão:
- "A Ucrânia é russófona e foi outrora território russo": Sim, e então? Por essa ordem de ideias, daqui a nada temos a Sérvia a invadir Montenegro, Eslovénia, Bósnia, Croácia e a Macedónia para completar o ramalhete. Ou melhor, toda a Europa devia ser italiana, porque o território foi outrora o Império Romano.
O facto de um território ter pertencido anteriormente a outro estado não dá, por si só, ao estado actual um direito de o reclamar. Ponto final! Caso contrário, praticamente nenhum mapa seria estável.
Mais: Sobre esta história em particular, a Ucrânia e os demais países soviéticos não são territórios que a Rússia deixou sair; as repúblicas soviéticas tornaram-se estados independentes e soberanos quando a URSS colapsou. E a própria Rússia reconheceu as fronteiras e a soberania desses mesmos estados. Só que entretanto virou o bico ao prego. Como em tudo o resto, aliás.
- "A Ucrânia procura aproximar-se da Europa Ocidental": Sim, e então? A Ucrânia é livre, independente e soberana, e portanto pode aproximar-se e aliar-se com quem entender. Isso é um dos princípios da soberania dos estados.
- "A culpa da guerra é da expansão da NATO para leste": De certa forma o seguimento do ponto anterior, o termo "expansão" dá a impressão de que a NATO foi simplesmente avançando sobre países contra a vontade destes, o que não é verdade. Pelo contrário, foram esses países que fizeram fila e entraram na NATO de livre e espontânea vontade. Muitos desses países tinham vivido sob a esfera soviética e não queriam repetir a experiência.
Se dissessem por aqui que a dita expansão da NATO contribuiu para a percepção russa de ameaça, ainda dava de barato. Mas não! O que basicamente dizem é que a Rússia tem o direito de impedir que os seus vizinhos escolham a NATO.
E há uma valente ironia nesta questão: a mesma proximidade da NATO à Rússia que Moscovo considera uma ameaça é precisamente uma das razões pelas quais estes países querem estar dentro da aliança.
E há uma regra muito simples no Direito Internacional: A Ucrânia pode escolher a NATO, como fizeram a Estónia, a Letónia, a Lituânia, a Suécia e a Finlândia. A Rússia pode não gostar, mas isso não lhe dá direito de veto sobre as alianças militares de Estados soberanos. Lá está, é um princípio da soberania dos estados.
Aliás, se aceitássemos que uma grande potência como a Rússia tem direito a determinar as alianças dos países vizinhos porque considera a sua aproximação a uma aliança militar uma “ameaça”, então estaríamos a reconhecer uma espécie de direito de veto geopolítico das grandes potências sobre os países mais pequenos, o que seria particularmente problemático para os países da Europa de Leste, porque significaria que a independência de 1991 desses países seria apenas condicional, do tipo "vocês são independentes, desde que Moscovo concorde com aquilo que fazem."
E aí voltamos ao que disse acima: os países que viveram sob a esfera soviética sabem muito bem porque é que querem manter a distância dela.
- "A Ucrânia deve ceder território": Eh pá, então mas a Ucrânia já não cedeu a Crimeia em 2014? E Rússia ficou-se por aí? Não! Acham que agora seria diferente se a Ucrânia cedesse ainda mais territórios? É preciso ser-se muito anjinho para ir nessa cantiga! À primeira todos caem, à segunda só cai quem quer, e a Ucrânia decidiu não cair na mesma patranha duas vezes.
A Rússia pura e simplesmente quer o braço todo, não um dedo. Aliás, por alguma razão já chamou a Roménia, a Moldávia e os Balcãs ao barulho.
Mais: Só li por aqui imposições de cedências a fazer por parte da Ucrânia. E as cedências por parte da Rússia? Whoops...
Nenhuma dessas frases está a legitimar a invasão.
Vamos lá ver se nos entendemos.
Uma coisa é aquilo que o putin diz, outra é o que nós pensamos. Isso que está a bold é aquilo que o putin diz e aquilo que ele defende. Isso ajuda a explicar a invasão da Ucrânia, não legítima a invasão. São coisas distintas.
A Ucrânia é um país especial para a Rússia. Primeiro que tudo é o país que deu origem à Rússia. A Ucrânia e a Rússia é como Portugal e Espanha, aliás até diria que são dois países mais interligados que Portugal e Espanha. É como a Coreia do Norte e a China ou como Taiwan e a China (a comparação mais próxima é capaz de ser mesmo esta!).
O putin não decidiu invadir a Ucrânia porque um dia acordou mal disposto.
A principal motivação dos russos para esta guerra foi o golpe de Estado que aconteceu em 2014 e que derrubou um presidente democraticamente eleito, Viktor Yanukovych. Este golpe de estado teve o directo envolvimento dos EUA e da UE e isso naturalmente enfureceu a Rússia. Perante o que aconteceu em 2014 seria mais do que certo que os russos não iriam ficar sem reagir. Basicamente os EUA e a UE meteram-se num ninho de vespas que não lhes dizia respeito. Primeiro porque a Ucrânia não é nem nunca foi um país da NATO, depois porque a Ucrânia não é e nunca foi um país da UE, depois porque a Ucrânia é apenas o país do Mundo mais importante para a Rússia e de longe com mais população russa fora da Rússia.
Tu imaginas por exemplo a Rússia a envolver-se num golpe de estado no país mais próximo dos EUA para derrubar um governo próximo dos EUA? Imaginas o que é que aconteceria a seguir?
Outra questão importante é que os protestos que ajudaram a derrubar o presidente ucraniano da altura aconteceram sobretudo em Kiev, um erro muito comum é confundir-se o sentimento da população da capital de um país com o resto do país. No caso da Ucrânia que é um país profundamente dividido, esta questão ainda é mais pertinente. Kiev tem menos de 10% da população da Ucrânia, aquilo que a população de Kiev quer pode não ser a vontade do resto do país.
Em vez do golpe de estado o que deveria ter acontecido era deixarem o presidente da altura acabar o seu mandato e depois aí sim o povo ucraniano se estivesse insatisfeito de certeza que iria eleger um presidente mais próximo da UE. Porque anteriormente a Ucrânia teve presidentes próximos da UE portanto o povo da Ucrânia poderia voltar a eleger um presidente mais próximo da UE do que da Rússia.
Depois, além disto tudo, outro argumento dso russos é que a Ucrânia tem uma elevada percentagem de população russa ou russófona e que após o golpe de estado essa população começou a ser perseguida. Isto é um argumento que faz algum sentido e que levou os russos a querer proteger essa população.
É preciso entender todo o contexto e o que é a Ucrânia para se tentar entender as razões que levaram os russos a invadir a Ucrânia.
Isto não é legitimar o que quer que seja, é explicar porque é que os russos decidiram invadir a Ucrânia.
Tal como os nazis ganharam as eleições na Alemanha devido à crise profunda do país por causa das sanções económicas do pós-primeira guerra mundial. Isso não é dar razão aos nazis mas sim tentar explicar porque é que aquilo aconteceu.
Como vivemos num país onde mais de 40% da população é analfabeta funcional e tem sérias dificuldades em perceber e interpretar textos básicos é necessário repetir isto várias vezes.
O facto de eu estar a tentar explicar um acontecimento não significa que concorde com ele. São coisas distintas.
Já agora tu és o único user aqui que não concorda comigo mas com quem se pode conversar porque não insultas quem não concorda contigo. Era bom que quem anda aqui constantemente a insultar aprendesse com este user a ser civilizado.
O chato é IA contra IA. Ficam textwalls e perde a piada
Amigo, eu não uso IA nos meus textos. Quanto vou buscar algo de IA faço printscreen.
Claro que esse
@WildChild tinha de utilizar IA e fazer de conta que é ele que escreve. Ele deve ter uma empresa tal como eu sou presidente da República. É com cada personagem na internet...
Bem apanhado. Mais depressa se apanha um mentiroso que um coxo.
Esse e os clones que aqui andam só me dão mais razão. Gente sem quaquer noção daquilo que diz e que precisa de insultar e de agir em matilha para tentar ter razão.
É muito triste mas há gente assim.