EUA: Jessica Lynch e irmão de Pat Tillman denunciam fraude
Heróis inventados pelo Pentágono
As histórias de coragem e heroísmo de Jessica Lynch e Pat Tillman correram Mundo. A jovem militar capturada após enfrentar sozinha uma legião de atacantes iraquianos e o ídolo do futebol americano heroicamente morto em combate no Afeganistão tornaram-se rapidamente símbolos de coragem e dedicação à pátria e levaram centenas de jovens norte-americanos a alistarem-se para combater no Iraque e no Afeganistão. Sabe-se agora que as suas histórias foram grosseiramente manipuladas pelo Pentágono para ajudar a vender a guerra aos EUA e ao Mundo.
Quatro anos depois de a sua captura e dramático resgate ter alimentado as páginas dos jornais, é a própria Jessica Lynch quem vem dizer que a história pouco ou nada teve de heróico. Ao contrário do que o Pentágono afirmou na altura, a jovem militar não enfrentou sozinha dezenas de soldados iraquianos, sendo apenas capturada após esvaziar o carregador da sua arma. Na realidade, ela não disparou um único tiro e os ferimentos que sofreu foram provocados pelo despiste do camião que conduzia durante a emboscada de que a sua unidade foi alvo nos arredores de Nassíria nos primeiros dias da guerra.
Quando regressou a casa, ficou chocada ao descobrir que era conhecida como “a pequena Rambo que tombou de armas na mão”. “Nada daquilo era verdade”, admitiu esta semana perante uma comissão de inquérito do Congresso que está a investigar os exageros na propaganda do Pentágono.
Outro caso, mais grave, foi o de Pat Tillman, a estrela da Liga Profissional de Futebol Americano que recusou um contrato milionário para combater pelo seu país. Quando Tillman foi morto no Afeganistão, em 2004, o Pentágono revelou que morreu de forma heróica, a comandar um ataque dos Rangers contra um bastião taliban. A realidade é, no entanto, bastante diferente: Tillman foi morto pelos próprios colegas, que perderam o controlo durante uma operação militar.
Durante quase um mês o Pentágono manteve a mentira, escondendo a verdade até da própria família de Tillman. O seu irmão, Kevin, que também testemunhou perante a comissão do Congresso, acusou o Exército de mentir deliberadamente. “Eles viram na morte de Pat uma oportunidade para desviar as atenções do escândalo de Abu Ghraib e da impopularidade da guerra”, afirmou. Um dos soldados da unidade de Pat Tillman, Bryan O’Neal, testemunhou ter recebido ordens para não revelar a verdade sobre a morte do colega, nem mesmo à própria família do militar. “O comandante do batalhão sugeriu que eu podia meter-me em sarilhos se o fizesse”, afirmou.