Essa questão das aprências (e em particular a história do fato) é das
coisas que mais me irritam nisto de se viver "em sociedade".
Só é uma sociedade para alguns, e a hipocrisia parece não conhecer
limites. Já usei fato para trabalhar e confesso que odeio, tento
sempre arranjar maneira de não ter que o vestir.
Também já passei por outro extremo da questão, na altura do cabelo
comprido, botas e calças da tropa, brincos, etc...
Uma coisa é garantida: a forma como nos olham muda consoante o nosso
aspecto. Claro que é uma coisa tão enraízada que muitos de nós não
têm como fugir disso em absoluto, mas há limites. Se vir um tipo todo
porco e mal vestido com os dentes em mau estado, com aquele típico
aspecto de agarrado, óbvio que vou tirar uma conclusão pouco favorável.
Até podia ser um filho de pais ricos e de bem que se meteu na droga
e se desgraçou, mas para estar na rua naquele estado é porque não
deve levar um modo de vida muito correcto, seja culpa da droga ou
não. O mesmo se aplica quando vejo um grupo de gajos de côr com a
típica indumentária Fubu a passearem-se na rua com uma atitude de
notória provocação e agressividade. Mas se forem brancos também penso
o mesmo.
Mas isto são casos já muito estereotipados, e possivelmente não tiro
conclusões precipitadas quando vejo uma miúda com rastas e roupa às
cores, ou um gajo do "metal" ou uma gótica. Isso já se tratam de
identidades que as pessoas
optam por adoptar e têm mais a ver
com estilo, com uma afirmação, com uma procura de identidade própria
de tenras idades, etc...
E o pessoal que anda aí de fato, todos arranjadinhos, e que não passam
de uns javardolas? Há-os aos montes. Às vezes ainda fico hesitante
por uns 2 segundos porque até me custa a acreditar em cenas que vejo
e que oiço. Regra geral, a imagem pouco diz duma pessoa.
Quando andava à procura de carro e já tinha o 206 como escolha mais
provável fui ao stand da Peugeot ali ao pé de casa. Não fui mal
atendido pelo vendedor, mas nota-se que se limitou a usar o discurso
da praxe e os valores normais, sendo algo vago na apresentação ou
sugestão de opcionais e afins. Daí a cara de espanto quando lhe disse
que levava o carro assim que fosse possível.
Também fui com um amigo meu a um stand da VW ali no Estoril, quando
andava ele à procura de carro. Entrámos, demos uma vista de olhos e
o vendedor nem se levantou. Dirigimo-nos à mesa dele, sentámo-nos e
ele nada. O meu amigo perguntou qualquer coisa sobre o Polo, versões
e isso... o homem rabiscou qualquer coisa no cartão e ATIROU o cartão
ao meu amigo. Eu nem disse nada, acho que ficámos os dois incrédulos,
mas virámos costas e o cartão ficou lá em cima da mesa.
E depois é o que se sabe... pessoal que faz trinta por uma linha
apenas para ter um bom carro à porta (bom, não: caro!), pessoas de
"bom nome" que não têm onde cair mortas, dívidas que se acumulam,
créditos para pagar créditos, etc...
A minha Mãe trabalha num banco e conhece "n" casos assim. Mas depois
vem um empreiteiro mal vestido na sua pick-up e aquilo é notas por
todo o lado e contas bem recheadas.
Portanto, é natural que haja pessoas capazes de desprezar alguém pelo
carro que conduz, pela roupa que veste, pelo aspecto que aparenta ou
pela conta bancária. Até é natural que essas mesmas pessoas tenham
telhados de vidro. Cabe é a cada um de nós dar a devida importância
a essas pessoas, ou seja, nenhuma.
Eu achava um piadão quando o pessoal na estrada me mandava esses
olhares quando eu andava com o 33. Se fossem daqueles que se armam
muito, então, era ouro sobre azul, porque se punham a acelerar ao
meu lado nos semáforos e depois ficavam para trás
Dantes eu tinha uma sucata italiana, agora tenho carro de gaja, e
como devem calcular estou muito preocupado com o que os outros pensam
