"'Fogo!' gritou Ron Hoodenpyle, tapando os ouvidos ao sair de um Mazda 3 novinho em folha em que acabara de instalar detonadores. De repente, todos os seis airbags do carros explodiram ao mesmo tempo.
Em poucas horas, o sedan azul metálico teria seus líquidos drenados e suas entranhas extraídas, seria esmagado e retalhado - e milhares de outros teriam o mesmo destino nesta cidade no Estado de Oregon, no extremo noroeste dos Estados Unidos. Os carros são novos, a maioria não tem nem 20 quilômetros rodados.
Montadoras normalmente procuram a melhor maneira de fazer veículos. Hoje em dia, a Mazda Motor Corp. está tentando achar a melhor maneira de os destruir.
Isso tudo começou cerca de dois anos atrás, quando um navio que levava 4.703 Mazdas novos quase afundou no Pacífico. O cargueiro, chamado Cougar Ace, passou semanas inclinado num ângulo de 60 graus em alto-mar até finalmente ser endireitado.
O incidente criou um dilema: o que fazer com os carros? Eles tinham permanecido seguramente amarrados durante todo o processo, mas ninguém sabia que tipo de estrago, se algum, poderia ter sido causado aos carros que ficaram tanto tempo num ângulo tão agudo. Será que fluidos corrosivos entraram em compartimentos onde nunca deveriam ter ido? Será que o Cougar Ace agora estava cheio de abacaxis?
A montadora japonesa, controlada pela americana Ford Motor Corp., poderia facilmente achar quem ficasse com os veículos. Centenas de pessoas ligaram indagando sobre como comprar Mazdas baratos. Escolas os queriam para cursos de mecânica. Hollywood tentou obtê-los para filmagens.
A Mazda recusou todos os pedidos. Ela temia ser processada se, digamos, um airbag não acionasse direito devido à exposição excessiva ao ar oceânico.
Ela também temia que pilantras achassem um meio de escamotear os carros para fora dos Estados Unidos e vendê-los como novos. Isso aconteceu com milhares de assim chamados 'carros Katrina' retirados da enchente de New Orleans três anos atrás. Esses carros, com a parte elétrica destruída e areia no motor, receberam pintura nova e foram empurrados para compradores na América Latina como se fossem novos, o que prejudicou a reputação dos fabricantes.
A Mazda não encontrou nenhum meio fácil de se proteger contra essas possibilidades. Então decidiu destruir o equivalente a cerca de US$ 100 milhões em automóveis zero. 'Não podíamos correr o risco de prejudicar a marca que a Mazda trabalhou tanto para desenvolver ao longo dos anos', diz Jeremy Barnes, o diretor de assuntos corporativos da montadora para a América do Norte.
Ela descobriu que destruir carros não é simples.
'Tivemos de criar uma linha de desmontagem, praticamente', diz Bob Turbett, o executivo da Mazda que supervisiona o processo de destruição.
Levou mais de um ano para chegar a um plano que satisfizesse todo mundo. O município de Portland queria garantias de que fluidos perigosos dos quase 5.000 carros não causariam acidentes. Seguradoras da Mazda queriam ter certeza de que a companhia não revenderia nenhuma peça para ter um lucro à parte.
Por isso, cada roda de liga de aço tinha de ser fatiada, cada bateria desativada totalmente e cada pneu avariado a um ponto irrecuperável. Todos os tocadores de CD tiveram de ser esmagados.
As latarias foram trituradas em peças do tamanho de um cinzeiro na Schnitzer Steel, um ferro-velho à beira-mar que tem um enorme triturador de l. Montes desses pedaços de l são despachados de volta para a Ásia, onde serão reciclados.
O gerente da Schnitzer, Jamie Wilson, olhava uma dessas pilhas prestes a ser levada à doca do ferro-velho e concluiu: 'Isso tudo provavelmente vai acabar voltando como carros.'"
parece que tiveram o final mais infeliz...