E se Jardim usasse a 'técnica' de Clinton?
O presidente do Governo regional da Madeira está em luta aberta com o Governo nacional devido à nova Lei das Finanças Regionais, que atingirá fortemente a Madeira. Já pediu a demissão do primeiro-ministro e do ministro das Finanças, anunciando tempos muito difíceis, para todos, e prometendo um confronto sem tréguas. Salvaguardada a escala, o sistema e o País, João Jardim, de alguma forma, vai viver, na pele, o que aconteceu há alguns anos nos EUA, quando Newt Gingrich, recém-chegado a speaker da Câmara dos Representantes, decidiu, através de um "Compromisso com a América", reduzir fortemente a despesa federal, não aprovando o Orçamento apresentado pelo presidente Clinton.
Em termos mais simples, o Congresso, que era dominado pelos republicanos, queria obrigar a Casa Branca a cortar fortemente em todos os gastos da Administração Federal, com consequências imediatas para todos os departamentos (ministérios) da União.
A batalha verbal prolongou-se durante semanas, com intensidade crescente, sem que da parte do Congresso existisse, na verdade, uma vontade aberta de negociar e chegar a um acordo, e isso levou à decisão mais "brilhante" de Clinton - muito influenciado pela mulher - e que produziu uma derrota e um recuo histórico do todo-poderoso speaker da Câmara, iniciando com isso o seu declínio político.
Que fez Clinton? Atirou para o Congresso toda a responsabilidade dos seus actos: mandou fechar todos os departamentos que eram objecto da profunda proposta de cortes, explicando simplesmente, e claramente, que o Congresso não aprovava o Orçamento federal, e que sem isso não existia dinheiro público para pagar os ordenados e serviços prestados.
Foi o caos: milhares de funcionários viram-se, de repente, sem a garantia do seu salário, "tecnicamente" desempregados, e com o seu local de trabalho encerrado por falta de verbas para assegurar as funções vitais, como pagamentos de água, electricidade, telefones, computadores e toda a logística de base.
Multiplicado pelo conjunto dos serviços federais dos 50 Estados americanos, esse efeito foi catastrófico para o Congresso, que ao fim de algumas semanas cedeu e aprovou o Orçamento proposto pela Casa Branca. Mas isso foi apenas o princípio.
Clinton, que estava pelas ruas da amargura nas sondagens nacionais, e na percepção dos americanos em relação ao desempenho da sua Administração, viu-se publicamente redimido e atingiu índices históricos de aprovação na opinião pública. O Congresso, pelo contrário, afundou-se perigosamente, e a primeira consequência foi a derrota dos republicanos nas eleições seguintes. Newt duraria pouco mais como líder da Câmara dos Representantes, e o GOP esteve anos a tentar recuperar a sua imagem de partido moderado.
Extrapolando para Portugal, com todas as cautelas, a lição deveria servir à da maioria PS para agir com redobradas cautelas na forma como decide, sem dar explicações claras e após negociações exaustivas com as partes, sejam locais ou regionais.
O princípio de aplicar ao todo nacional as medidas de contenção da despesa é nobre e aceitável, mas a forma como pretende chegar lá, confiante de que nesta fase todos aceitarão tudo, é uma política perigosa e que rapidamente poderá ser suicidária.
As posições de força, sem cuidar de ouvir e negociar, levam, por natureza, a recuos inimagináveis, e isso deveria ser tomado em conta. É estranho, aliás, que o primeiro-ministro não se recorde desse desastre político da maioria que então dominava o Congresso americano - a fonte de todo o poder nos EUA - e o que daí foi tirado como ilação política para confrontos que à partida pareciam vitoriosos, mas que rapidamente se transformaram numa derrota global sem precedentes.
Convém ser claro: o que ali esteve em causa, para além da política partidária, foi a ideia de que as maiorias se esgotam quando são cegas e excessivas.
As posições de força,
sem cuidar de ouvir
e negociar, levam,
por natureza, a recuos
inimagináveis, e isso deveria ser tomado em conta
Luís Delgado
Jornalista
http://dn.sapo.pt/2006/10/09/opiniao/e_jardim_usasse_a_tecnica_clinton.html