Por Henrique Neto...
O Processo MarquesMarquês
Ao longo da minha vida profissional sempre soube compreender e valorizar as qualidades das pessoas com quem trabalhei, razão por que, com uma única excepção, tive colaboradores de grande qualidade ao longo dos anos, o que constituiu a base do sucesso que possa ter tido nas empresas que dirigi. Digo isto para recordar que José Sócrates nunca me enganou, desde o dia em que o António Guterres me pediu durante a pré-campanha eleitoral de 1995 para fazer a apresentação do Sócrates em Peniche, onde ele faria uma intervenção pública sobre questões ambientais. Não o conhecia pessoalmente, mas durante a intervenção que ele ali fez, sussurrei a um amigo ao meu lado: “este tipo é um aldrabão”.
Mais tarde, quando o José Sócrates começou a procurar apoios no partido e chegava acompanhado de um seu conterrâneo, Fernando Serrasqueiro, recordo o então ministro João Cravinho dizer: “lá vem o Sócrates com a sua tendência”, que era a forma de desvalorizar a ambição oca do futuro primeiro-ministro. Mais tarde, quando José Sócrates se candidatou a Secretário-Geral do PS, publiquei um texto a avisar os meus então camaradas sobre o perigo que seria apoiar José Sócrates. Já nesse tempo os socialistas tinham pouco tento nas escolhas que faziam e, sem surpresa, a partir daí passei a ser muito mal visto no Largo do Rato. Coisas da vida.
Como muitos portugueses, segui o percurso de José Sócrates como primeiro-ministro e escrevi inúmeros textos a combater muitas das suas decisões, explicando sempre as consequências que tinham para o País. Critiquei, por exemplo, a escolha de Manuel Pinho para ministro da Economia, claramente a mando do BES, como de António Mexia para a EDP - o que era fácil de ver depois do desastre da intervenção dele na Galp, empresa salva pela administração de Manuel Ferreira de Oliveira - como denunciei a recusa da OPA da SONAE sobre a PT, um dos muitos serviços prestados por José Sócrates a Ricardo Salgado. Num dos textos então publicados escrevi mesmo que José Sócrates era um mau vendedor de automóveis, o que muito indispôs contra mim aquela categoria de profissionais.
Claro que hoje o percurso político e pessoal de José Sócrates é conhecido, mas levei anos a alertar os portugueses e em primeiro lugar os socialistas, para muitas das estranhas actividades dos governos de José Sócrates, como nos casos da dispendiosa tentação de controlar toda a comunicação social que o criticasse. Que várias gerações de socialistas não tenham dado por nada, representa uma tragédia para o partido e para o País, ao ponto de António Costa, seguidor fiel do seu chefe no governo, ter criado mais tarde a ficção de que “à Justiça o que é da Justiça”. De facto, estão bem um para o outro.
Repito, o caso do Processo Marquês representa uma tragédia para a democracia portuguesa, para o PS e para a própria Justiça. Tragédia pelas consequências para a economia, para a sociedade e para o futuro da democracia portuguesa, tragédia para o Partido Socialista, que ao longo dos anos tudo fez para não ver o óbvio, tragédia também para a Justiça portuguesa, que teve o seu ponto mais alto no caso do juiz Ivo Rosa. Aqui chegado, confesso a minha total repulsa pelo que aconteceu, devido à delinquência de um juiz que, desde o início, mostrou uma de duas coisas: ou estar decidido a matar o processo e a ilibar Sócrates, por razões que até hoje não são conhecidas, ou ser de uma incompetência verdadeiramente trágica, mas conhecida por força das sucessivas derrotas das suas decisões em sede da Relação. Desse dia fatal da apresentação do resultado da decisão do juiz Ivo Rosa, guardo a memória da cara de espanto do Procurador Rosário Teixeira. Que tudo se tenha passado sem a intervenção da magistratura e dos governos, mostra até que ponto a justiça e a democracia portuguesa estão doentes.
Sobre o julgamento que agora se iniciou umas pequenas notas: (1) esperemos que a senhora juíza seja firme ao extremo, ao não deixar que o julgamento se transforme numa chicana de mau gosto, a mando de réus e de advogados que não poucas vezes usam a comunicação social para adiar o inevitável ; (2) Esperemos que o julgamento não trate apenas de José Sócrates e deixe de lado dos holofotes mediáticos algumas outras figuras sinistras, como Zeinal Bava e Henrique Granadeiro, que têm no seu currículo a destruição da maior e melhor empresa nacional e foram pagos para isso; (3) que, por uma vez, a comunicação social e os seus comentadores de serviço atentem ao interesse do País de forma verdadeira e pedagógica; (4) que o presente Governo da AD aprenda alguma coisa com esta tragédia da democracia portuguesa, para realizar de forma séria e competente as reformas necessárias; (5) que Ricardo Salgado seja clara e justamente condenado, ainda que no fim possa ser deixado fugir à prisão; (6) finalmente, que seja feita Justiça.
O Processo Marquês não é o único grande problema que Portugal enfrenta no nosso tempo, infelizmente a democracia portuguesa vive dificuldades existenciais, a primeira das quais, como não me tenho cansado de escrever, é não ser uma verdadeira democracia, pelo menos enquanto os portugueses não puderem escolher os seus representantes e deixem que isso seja feito pelas direcções partidárias. De alguma forma, o que aconteceu e que deu origem ao Processo Marquês, é o resultado do excesso de poder de um partido, no caso o PS, como do facto dos portugueses serem sistematicamente arredados de participarem no controlo das decisões dos governos.
Notas: ao fim do primeiro dia de julgamento, a defesa de José Sócrates já demonstrou estar ali para destruir a justiça e a democracia e não deixar que isso continue é uma responsabilidade nacional."