Nunca acreditei que o jornalismo pudesse ser imparcial. Até um jornalista tem direito à indignação. Uma notícia pode ser escrita de forma propositadamente neutra, cingir-se aos factos, refugiar-se nos substantivos, mas nunca será imparcial.
Uma máquina é imparcial, um ser humano não; mas estamos tão dependentes de máquinas que criámos o mito de que o ser humano é capaz de agir como uma. Achamos que o jornalista tem o dever de ser imparcial, mas é uma falsa questão: o jornalista é um ser humano e, por isso, o seu dever é
ser honesto.
Ao contrário das máquinas e dos computadores, somos inteligentes e criativos nas associações que estabelecemos, fazemos escolhas a partir de convicções éticas e morais que aprendemos (ou não) ao longo da vida. Poderá chegar a altura em que máquinas sejam capazes de fazer essas escolhas, mas só nós poderemos
sentir por que razão são feitas.
O pretenso jornalismo de investigação à volta do
caso Freeport, justificado pela sacrossanta «
independência» em relação aos poderes, não foi imparcial, como dizem, foi
desonesto.
Exemplos? O Correio da Manhã noticiou que uma funcionária da empresa Smith & Pedro, promotora do Freeport, declarara à Polícia Judiciária, em 2004, ter
ouvido dizer que Manuel Pedro, seu patrão, pagara «
400 mil» ao responsável pelo licenciamento do
outlet, se pagara em contos ou Euros não sabia, mas tinha
ouvido dizer. A Polícia Judiciária não achou o depoimento credível e deixou-o cair.
Cinco anos depois, em pleno circo mediático, o Correio da Manhã recupera a história. A concorrência, incluindo o jornal de referência
Público, pega na cacha, dá-lhe mais ressonância. No título ou
lead do Público não se informa que tais declarações já têm cinco anos e que foram rejeitadas por quem
de facto faz investigação. No Correio da Manhã idem-idem aspas-aspas. Esse dado
insignificante surge quase no fim dos textos…
Quantas vezes suportaram a berraria de jornais e televisões a propósito da famosa carta rogatória dos ingleses? Demasiadas, aposto. Pois o grupo americano Carlyle, actual proprietário do Freeport PLC, fez hoje um desmentido oficial após a auditoria às contas, garantindo que, afinal, não foi detectado nenhum buraco financeiro nem qualquer pagamento de luvas…
Intrigante, não é? «
Não há fumo sem fogo», diz o povo, esquecendo-se que o fumo também pode ser criado por quem deseja queimar um inocente. Agora façam o seguinte exercício: observem atentamente a forma como esta notícia em que se desmentem luvas e buracos financeiros vai ser transmitida nos noticiários; comparem o tom mais recatado, circunspecto, quase tímido, ao pagode jornalístico dos últimos dias.
Sempre que um editor ou director de jornal ou televisão faz um discurso sobre independência fico com vontade de rir. Mas quem pensam estes tipos que estão a enganar? Numa sociedade capitalista ninguém é absolutamente independente: no caso dos jornais é preciso vender, angariar publicidade e segurar os melhores clientes. Os jornais fazem fretes a quem lhes coloca lá publicidade. Não é vista como uma questão ética, é uma questão de sobrevivência. Uma notícia aqui, uma breve ali, às vezes nota-se mais, às vezes nota-se menos, mas fazem-no. A diferença estabelece-se entre o que se está disposto a vender, uma breve ou a própria alma, não entre quem é, ou não é, independente. Todos somos dependentes. Dependentes do dinheiro.
Quando falam em «
independência» e «
imparcialidade» para justificar uma campanha noticiosa cujo objectivo principal sempre foi o lucro, as audiências, as vendas… A sério, a hipocrisia de todo este processo dá-me a volta ao estômago. Tudo conduz ao dinheiro, diz o
Pedro e com razão.
Investiguem, sejam o contra-poder, usufruam de todas as liberdades que nos deu o 25 de Abril mas, por favor, não se esqueçam também das responsabilidades. E não nos façam de parvos.