O Direito ao Delírio
Hugo Tavares da Silva
31.01.2022 *
Não era suposto. Não era suposto agigantar-se naquele desporto. Não era suposto ser um exemplo*para tantos miúdos. Não era suposto ser tão castigado pelas lesões. Não era suposto ter de interromper, algumas vezes, o seu ofício para sarar o corpo amarrotado. Não era suposto continuar a ganhar tanto. Não era suposto ser uma besta insaciável e um cavalheiro*ao mesmo tempo. Não era suposto deixar de suar. Não era suposto ter medo*de não voltar a ser quem era. Não era suposto regressar*assim. Não era suposto estar mais de cinco horas no court. Não era suposto o rival, com menos 10 anos, perguntar-lhe “não te cansas?”. Não era suposto sorrir e emocionar-se como quem começou ontem. Ou era?
Rafael Nadal, desenhado e afinado com peças de um tipo de maquinaria que já não existe, talvez não tenha pensado tanto nisso e, ao não ser réu no pesaroso julgamento do pensamento, continuou, como se só lhe restasse continuar. Talvez tenha optado pelo direito a sonhar, ou até pelo*direito ao delírio. Uma vez, para explicar*um texto*numa televisão qualquer, Eduardo Galeano recordou a frase do amigo e cineasta Fernando Birri. Perguntaram-lhe, numa universidade em Cartagena das Índias, para que servia a utopia. O escritor uruguaio até sentiu pena do companheiro, mas acabou por ouvir algo que considerou estupendo. “A utopia está no horizonte”, refletiu Birri. “Eu sei muito bem que nunca a alcançarei, que se caminho 10 passos ela se afastará 10 passos. Quanto mais a procurar, menos a encontrarei, porque ela se vai afastando à medida que me aproximo. Boa pergunta, para que serve? A utopia serve para isso: para caminhar.” E Rafa caminhou.
Depois de 5h24, o espanhol bateu o colossal Daniil Medvedev na final do Open da Austrália (2-6, 6-7, 6-4, 6-4, 7-5) e transformou-se, ao ganhar o 21.º torneio do Grand Slam,*no maior tenista de todos os tempos. Houve de tudo, pancadas divinas, trocas de bolas longas, curtas, geniais, inusitadas. Houve também o suor que*explicava*quem era Nadal. A certa altura, Medvedev pôde fazer o 4-2 no terceiro set – ganhara os dois anteriores – e tinha três pontos de break. E Nadal, excelso competidor, entrou no seu estado de euforia, de monstro que sua como quem saliva por mais, que joga para dormir em paz. O mental engoliu a dúvida,*e empurrou para o esquecimento a hesitação que nunca lhe chegou aos músculos e às feridas. “Há um mês e meio não sabia se jogaria ténis outra vez”, desabafou depois da final. Enfim, o direito ao delírio.
O Open da Austrália costuma ser a melhor maneira de começar o ano que arranca sempre com o travão de mão puxado. Olvidando o óbvio, o notável e glamoroso ténis que oferece, aquele torneio rega o mundo inteiro com histórias especiais, como as de*Danielle Collins*e Ashleigh Barty, que*interrompeu a carreira*por uns tempos para tratar de uma depressão, viajar, jogar críquete e viver como uma adolescente normal. Hoje, Barty é a número 1 e foi campeã em casa. Mas também houve o maravilhoso e caótico ténis de Nick Kyrgios: o artista errante*caiu, nos singulares, com Medvedev e recompôs-se*ganhando em pares*ao lado de Thanasis Kokkinakis