Crónica - Pedro Couceiro: Sponsors
Data: 07/03/2006 13:36
Ao terminar a crónica de Janeiro último referi que iria seguidamente falar sobre Patrocinadores. Fi-lo porque pretendo dar aos textos por mim aqui apresentados alguma sequência lógica, sobretudo no que toca aos (no meu entender) maiores problemas do Automobilismo Português. Se me permitem, vou contar-vos um pouco da minha história dentro da competição e a relação com os Sponsors ao longo de todos estes anos e com esse exemplo tentar mostrar algo nem sempre constatado à primeira vista por todos nós. A destruição dos já poucos apoiantes do desporto motorizado em Portugal.
O que é na verdade um Sponsor?
Quando em 1982 o meu Pai me ofereceu um kart, tive a felicidade de ter tido o meu primeiro patrocinador, o chamado “Pai-trocínio”. Se é verdade que quase todas as histórias no desporto motorizado começam desta forma, certo é também que cedo me apercebi que, ou começava trabalhar para encontrar quem me ajudasse financeiramente na minha carreira, ou não teria grande futuro. Se, como disse, tive a felicidade de ter um Pai que me deu o primeiro empurrão, sempre soube, também, que ele não teria os meios para me ajudar com muito mais do que isso. E mesmo que os tivesse, não era esse o meu propósito, pois se queria ser profissional teria de me habituar a viver pelos meus próprios meios.
Desde muito cedo, em parceria com o meu irmão Nuno, parti em busca de empresas, amigos, parceiros, enfim… todos quantos pudessem e quisessem dar uma “ajudinha” neste meu princípio de actividade.
Propostas para um lado, telefonemas para outro, mais as reuniões, apresentações e os balanços de final de temporada, fizeram com que desde muito tenra idade fosse confrontado com a difícil realidade de ter que prestar contas a quem em mim investia. Julgo que este foi o primeiro grande ensinamento que tive das “Corridas”.
“Somos nós quem deverá estar ao serviço dos Sponsors e não os Sponsors ao nosso serviço”.
Porque continua um Sponsor a apostar num determinado projecto?
As minhas épocas, desde a Júnior ás categorias “maiores” do Karting Nacional, foram correndo relativamente bem e eis que chegou a altura de dar mais um salto no desconhecido… “A Competição Automóvel”.
Sem nunca ter tido na família alguém ligado ao desporto motorizado, podem acreditar que não se afigurava nada fácil entrar num meio tão restrito e onde o factor financeiro, mas também os conhecimentos desportivos, tinham tamanha importância. Estávamos em 1989 e uma vez mais o Nuno e eu decidimos arriscar. Pedimos dinheiro emprestado a um amigo para comprar um Fórmula Ford e fomos ao encontro de “velhos” parceiros, mas também de novos investidores.
Com um carro muito bem dividido conseguimos encontrar a verba para dis****r todo o campeonato e depois, em 1990, repetir a “dose” e sagrar-me Campeão Nacional. No “entretanto” muitos foram os contactos que desenvolvemos, tanto a nível técnico como financeiro. Esses contactos/conhecimentos viriam a ser muito importantes pois foram alguns deles que me encaminharam para a desejada carreira “fora de portas”.
Após esse título nacional, virei-me para o exterior a 100%, uma vez que já tinha começado a desbravar caminho com umas corridas em Inglaterra. Só fora de Portugal teria as garantias de me tornar profissional, continuando a subir pelos diversos degraus do desporto internacional e foi isso que fiz.
Cada vez mais os patrocinadores tinham de ser bem trabalhados e demonstrados os verdadeiros benefícios de estarem presentes em tal projecto. Foi nessa altura que começamos a trabalhar com o apoio de uma empresa desconhecida no meio até então. A Memorandum.
Acredite-se ou não, somente passados quase 10 anos começou a ser rotineira a avaliação, por parte dos Pilotos, de dados tão importantes como aqueles que a empresa de Coimbra nos fornecia... e ainda hoje fornece.
A análise constante de dados, sua valorização e projectos de optimização do agora “vulgar” Retorno, fizeram com que a nossa abordagem ás empresas fosse cada vez mais profissional e proporcionássemos aos patrocinadores forma de calibrar os seus investimentos.
Subindo pelos diversos patamares, primeiro os Europeus de Fórmula Opel-Lotus e seguidamente os campeonatos de Fórmula 3, constatei, pela primeira vez, que nem sempre são os resultados, nem desportivos nem mediáticos, o mais importante no progresso desportivo de um piloto.
Porque continuam os Sponsors cada vez mais arredados da nossa modalidade?
Tinha terminado a temporada de 94 na Alemanha. A época desportiva tinha sido melhor do que as melhores previsões. 7 Pódios no ano de estreia na competitiva Fórmula 3 Alemã, 5º lugar final no campeonato e somente suplantado por pilotos oficiais foi resultado suficiente para ser chamado pelo Dr. Helmut Marko (este mesmo que agora gere os destinos da Red Bull competição e do nosso Filipe Albuquerque) para integrar o Team Oficial Fiat e guiar o carro campeão dessa temporada.
Mas algo estranho se começou então a passar! Eu, que tinha sido um dos pilotos internacionais com melhores resultados nessa época deparava-me agora com enormes dificuldades em encontrar, ou mesmo continuar, com os meus parceiros de até então.
Nunca, como naquela altura, tinha percebido tão bem como “as más-línguas” e uns tais de “opinadores” poderiam ter um papel tão destruidor.
Uma vez mais consegui “levar a água ao meu moinho” e em 1995 fui piloto oficial da Fiat, melhor representante da marca italiana no “Alemão de Fórmula 3” e, uma vez mais, um dos pilotos nacionais com maior “retorno” dos seus patrocinadores. Com tudo isso consegui dar o salto e cheguei à Fórmula 3000 Internacional, patamar último antes da Fórmula 1.
Esta foi sem dúvida a fase mais difícil da minha carreira, mas, acreditem, também aquela que mais força me deu para continuar e demonstrar que sempre podemos avançar sem pisar ninguém. E não imaginam a vontade que ás vezes tive!
Em 1996 havia em Portugal dois pilotos na velocidade com destaque superior à média. O Pedro (Lamy), com uma carreira brilhante e que havia regressado após o complicado acidente em Silverstone – 1994, e eu próprio, que assumia este posto também pelo simples facto de estar numa das mais importantes categorias do desporto motorizado internacional.
1996 e 1997 foram dois anos em que fui simplesmente “bombardeado” por alguns sectores do desporto motorizado nacional. Alguns “Pilotos” e “Jornalistas” tentaram, felizmente em vão para mim, menosprezar os meus feitos ao lançarem “lenha” para uma “fogueira” que acabou por mais “queimar” quem essas hostilidades iniciou.
Sou-vos o mais sincero possível se vos disser que ainda hoje não compreendo esse “ódio visceral” com o qual fui confrontado. Tudo pelos Sponsors que tinha, deixava de ter, que em mim investiam ou deixavam de investir. Seria para mim fácil dizer que era inveja, mas acredito que não era essa somente a razão de tantos e variados ataques.
Ainda hoje fico com um “sorriso” quando volto a rever algumas notícias da época. Essencialmente houve dois pontos com o qual fui “atacado” na altura e que, passados estes quase 10 anos vos gostaria de resumidamente falar. Penso que esta minha curta descrição será um bom exemplo do porquê dos Investidores estarem cada vez mais longe da nossa modalidade.
Logo após as duas fortes épocas que realizei nos campeonatos de Fórmula 3 e quando entrei na Fórmula 3000 Internacional, alguns “pilotos” e “jornalistas” começaram a tentar passar a ideia de que eu era um piloto sem “curriculum” e apenas com forte “lobbie” politico. “Mas porque razão”… perguntava-me várias vezes… “estes ataques tão desenquadrados da realidade?”
Ao nível de campeonatos de Fórmula 3 era o piloto que melhores resultados apresentava, após a passagem, “fantástica” diga-se, do Pedro (Lamy) por essa modalidade. Nos campeonatos de Fórmula 3000, e apesar de inúmeras desistências forçadas tinha pontuado na minha primeira prova na disciplina (facto que até hoje continuo a dividir exclusivamente com o Pedro) e tinha alcançado um segundo lugar em Silverstone (ainda hoje o segundo melhor resultado de sempre alcançado por um português nesse escalão, depois da vitória de Lamy no Grande Prémio de Pau em 1993).
Depois, ao nível de apoios financeiros, diziam que estava apoiado num forte “lobbie” político, leia-se Partido Socialista, e que somente por isso conseguia granjear tantos e tão bons apoios.
Esqueciam-se os ditos, “Pilotos”, “Jornalistas” e outros “Opinadores” que todos os outros que como eu tinham atingido tão elevado patamar teriam já tido, tinham ou viriam a ter sponsors condizentes com o “grau” da carreira que então tinham atingido. Mais… A contrastar com muitos que inclusivamente me criticaram na altura, tive na base dos meus apoios muitas empresas privadas nacionais e internacionais.
Expressões como:
“Pedro Couceiro – Uma história cor de rosa”, “O piloto do - Jobs for the boys…..”, ou declarações de alguns praticantes da época a tentar passar a imagem de que eu tinha patrocinadores por via politica e que eles nada conseguiam, foram prática corrente nessa altura.
Hoje, posso afirmar-vos com todo o rigor que são situações como as de então que fazem com que Sponsors vitais para todos nós venham a desaparecer do mundo desportivo automóvel. Estão cansados de se verem “manchados” por estas “guerras”, essencialmente lançadas por elementos “fracos”. Alguns desses pilotos desapareceram do “mapa desportivo”, outros continuam num verdadeiro “chove mas não molha”, mas todos eles, acredito, aprenderam que para se conseguirem patrocinadores é necessário trabalho, resultados e… o tão difícil e invejável “Retorno de Imagem do Investimento”.
É fácil dizer mal…. Isso todos nós o sabemos. Difícil é fazer melhor que os nossos adversários. Para tal é necessário trabalho e, infelizmente, muita dessa gente que tanto critica, anda nos automóveis somente para se divertir.
Encontrei neste Desporto mais do que uma paixão. Encontrei uma profissão. Também eu, como tantos outros, tirei um curso superior e bem podia estar de 2ª a 6ª feira a projectar qualquer coisa, para depois chegar ao fim de semana e me pôr atrás de um volante.
Ao invés, estou 24 horas por dia, 365 dias por ano com a cabeça nas “Pistas”, nos “Motores” e nos “Patrocinadores”. Só assim podemos dar “retorno” a quem realmente investe nas nossas carreiras.
Gostava que fossem ao meu WebSite e lessem a crónica “Carta Aberta” publicada no semanário Autosport, e por mim escrita em 1997. Apreciem como está mais actual do que nunca! E em como o trabalho e a verdade são como o azeite…. “Vêm sempre ao de cima”!
Como já o fiz na anterior crónica, gostaria de vos dar o “mote” da minha próxima crónica aqui no Sportmotores.com. “Carreiras” será o tema e tentarei abordar tudo o que está relacionado com o evoluir da carreira de um piloto.
Um abraço a todos e até breve.
Pedro Couceiro
www.sportmotores.com
CARTA ABERTA - AUTOSPORT
Sopram novos ventos no Automobilismo nacional. Mudar nunca foi fácil e como sempre, primeiro é preciso acabar com os “Velhos do Restelo”. Há quem os procure na anterior entidade federativa. Um erro. O maior perigo está escondido atrás das barreiras do bairrismo e da pequenez de quem as desfralda, muitas vezes por simples incompetência.
É mais fácil dizer mal do que lutar pelo bem comum. E aqui não falo apenas de dirigentes. Também nos pilotos, que no fundo devem ser o motor de tudo isto, existem exemplos dessa e de outra forma de estar, bem mais destrutivas. Basta ver os casos de quem vem a público defender fórmulas e métodos por simples interesse pessoal e (bastas vezes) circunstancial.
Vou aproveitar esta coluna para debruçar-me sobre os pilotos que fazem carreira além-fronteiras. É o meu “mundo” e também porque somos nós a mola para o desenvolvimento da modalidade. Quantos atletas nasceram dos sucessos de Carlos Lopes e Rosa Mota? E quantos futebolistas não pretendem ser um espelho de Eusébio ou Figo? Será essa a responsabilidade que recai sobre nós, os “chamados” pilotos internacionais. Somos o exemplo e devemos preticá-lo no dia-a-dia.
Têm-se visto carreiras internacionais feitas das mais diversas formas:
- Amadora Com perfeita consciência disso.
- Amadora, mas Sem consciência disso.
- Profissional, com a consciência correcta do que tal acarreta.
Na minha opinião, sustentada por 14 anos de presença no Desporto motorizado, sete dos quais além-fronteiras, competindo nos mais difíceis campeonatos, só a última das três permite atingir o topo e o sucesso. Uma carreira não se constrói de fogachos, mas sim com muito empenho, muito trabalho e, claro, alguma felicidade.
Não nasci num berço de ouro e jamais corri com dinheiro próprio... nem quero fazê-lo. Isso é a antítese do profissionalismo. Tive de encontrar patrocinadores. Comecei com pequenas e médias empresas, ainda no tempo do Karting, mas logo aí com grande respeito por quem passa o cheque e quer ser recompensado. Um patrocinio não é uma prenda, antes um negócio. As empresas ou os patrocinadores integram as acções de Sponsorship na estratégia de Marketing e Comunicação, querendo tirar dividendos positivos para a sua imagem.
Nos últimos tempos, há quem tente por-me nas bocas do mundo, ainda que ninguém tenha a coragem de referir directamente o meu nome, por ter alguns patrocínios de empresas de capitais públicos no meu projecto.
Mas quem não os teve ou não os tem, pergunto?
Será que a Galp, Portugal Telecom, TMN, TAP, Gás de Portugal, Transgás, Portgás, etc., pintados nos carros de Rui Madeira no passado ou no presente, são nomes de empresas privadas?
Será que o Turismo do Algarve e Terra de Loulé que marcam presença no F3000 de Rui Águas, estão lá por simples amizade?
Falo desdes dois pilotos por serem aqueles que recentemente se mostraram chocados com a minha, opinião deles,”situação de favor”. Se há alguem que quase só corre com verbas estatais, são curiosamente Rui Madeira e Rui Águas....
Mas há muitos mais exemplos. A grande maioria dos pilotos que competem (ou competiu) internacionalmente faz ou fez projectos apoiando-se em empresas estatais. Estas participações são bem vindas, mas não as tomem como uma obrigação. Os patrocinadores estatais não são um dever, antes um negócio. Como tal, aposta-se em quem dá mais retorno e em quem tem melhor imagem junto da opinião pública, resultado de uma atitude profissional e correcta dentro e fora das pistas.
Nesse aspecto, os números falam a meu favor por várias razões. Sou o único piloto em Portugal que dispõe de profissionais a trabalhar a 100% no meu projecto. Ao contrário de outros não me divido por outras actividades. Abdiquei do meu “canudo” de engenharia civil para ser piloto a tempo inteiro. O meu tempo é ocupado em corridas, contactos e trabalhos para os meus patrocinadores, bem como a cuidar das relações públicas e imagem.
Não sou piloto ao fim-de-semana e Doutor, Arquitecto ou simples banhista nos outros dias. Estou sempre disponível para tudo e para todos.
A equipa de profissionais que comigo trabalha descobriu muitos novos patrocinadores, a maior parte privados, entre os quais algumas multinacionais. Fomos e somos criativos.
Muitos limitam-se a enviar propostas tentando aliciar patrocinadores por nós trazidos para o mundo automóvel. Procurem, cativem novas empresas.
Nunca como até aqui, um patrocínio criou tanta celeuma, como o da EDP.
Será que alguém, no passado, apresentou uma proposta a esta empresa? Lembraram-se que a empresa ia ser privatizada com um consequente investimento na imagem?
A minha carreira tem sido pautada por projectos com pernas para andar. Nunca, ao contrário de outros, entrei em aventuras sem ter as bases necessárias para as levar avante. Nunca caí no ridículo de a meio da época ter de clamar por mais verbas ao Estado. Nunca vim para a Comunicação Social afirmar só ter “X” de verba depois de me ter proposto a realizar um projecto com custos de “X+Y”, ou pior ainda, antes mesmo de ter o projecto, utilizar os “Media” para fazer pressão sobre quem decide, clamando que caso não haja dinheiro será a maior das injustiças...
Meus senhores, apesar dos meus 27 anos, dou-vos um conselho: Trabalhem!
Sei que é mais fácil criticar; é o passatempo preferido de alguns – quem tem sucesso é o alvo a abater.
E quando tentam desacreditar o trabalho por mim desenvolvido, vem por vezes à baila a falta de resultados.
É verdade que não ganho uma prova desde 1992, mas tirando o caso Pedro Lamy, é difícil e muito subjectivo dizer qual o piloto português com melhor palmarés na velocidade internacional.
Por isso não faço comparações, mas fico chocado e espantado quando Rui Águas afirma ser, a seguir a Lamy, o melhor piloto nacional. Como pode afirmá-lo quando em anos recentes jamais foi o nosso melhor representante. Em 1995, perdeu largamente no confronto comigo na F3 alemã. Em 1996 foi novamente batido em confronto com Manuel Gião, ainda no mesmo campeonato.
Convém lembrar que na era pós-Lamy passaram 6 pilotos nacionais neste campeonato de projecção mundial, levando Eu sozinho mais vezes a bandeira nacional ao Pódium que os restantes cinco pilotos em conjunto. Também nesta temporada e até ao dia em que vos escrevo estas linhas sou o melhor representante nacional no Campeonato F3000, á frente de Águas.
Uma coisa é certa. Nunca senti necessiade de mentir em relação ao meu palmarés, nem nunca o farei. Mas eu e todos os que estavam pregados ao televisor, já viram Águas optar por essa via, na SIC, mentindo descaradamente, ao afirmar ter sido segundo na F3 Alemã em 1996 e campeão nacioanl de karting. Onde e quando? Convém lembrar que o piloto em causa jamais foi campeão de coisa alguma.
Também nunca prometi mundos e fundos, títulos e mais títulos. O meu lema sempre foi fazer o melhor possível, pois sei que no Desporto Automóvel o piloto é apenas uma peça da engrenagem. Quando se trabalha com seriedade, com profissionalismo e não apenas com maledicência, consegue levar-se a água ao moinho. A melhor prova disso são os meus patrocinadores que desde sempre têm apoiado a minha carreira.
A maior motivação para continuar.
Segunda-Feira, 18 de Agosto de 1997
http://pedro-couceiro.alto-debito.com
Isto vai dar em pancadaria [8)]