Maré de turistas em busca de ondas muda hábitos
Agora, as lojas abrem ao fim-de-semana, mini-mercados fazem escalas entre si, como se fossem farmácias de serviço, e há barcos e colchões insufláveis à venda, a exemplo de uma qualquer praia do litoral, contou à Lusa o presidente da Câmara, Fernando Lopes.
"Houve uma mudança de mentalidades e ainda bem. É muito positivo para que os visitantes não deixem de ter o que lhes faz falta. Este investimento [na piscina fluvial] fez as pessoas acreditar que era possível desenvolver Castanheira de Pera" observou. A piscina fluvial, conhecida como Praia das Rocas, é a maior com ondas do País e foi concebida partindo da recuperação da Ribeira de Pera, que atravessa aquela vila do interior do distrito de Leiria.
O investimento, de cerca de três milhões de euros, cujo principal retorno, segundo os responsáveis autárquicos, "vai ser no desenvolvimento económico do concelho", deve a sua concepção ao anterior presidente da Câmara, Pedro Barjona Henriques, considerado como "o pai e a mãe do projecto", no mandato do qual foi inaugurado.
A zona balnear tem cerca de 10 mil metros quadrados de plano de água e inclui a piscina propriamente dita - cujo fundo foi calcetado - e um lago que proporciona aos visitantes passeios de 'cisnes' movidos a pedais.
Pequeno concelho do interior centro, situado no sopé da serra da Lousã e com 3.500 habitantes, Castanheira de Pera foi em tempos o terceiro centro de lanifícios do País.
Hoje, envelhecido pela crise da indústria têxtil, o concelho virou-se para o turismo, uma "aposta ganha" segundo o socialista Fernando Lopes. "Mede-se pelo números de pessoas que já nos visitaram" afirma, aludindo às 180 mil pessoas que, desde a inauguração, em Julho do ano passado, até final de Agosto deste ano, passaram pela Praia das Rocas, equipamento que só abre no Verão.
O autarca afirma que não é só a curiosidade que leva as pessoas a Castanheira de Pera: "se fosse vinham um vez e não voltavam. Mas temos indicações de que voltam mais vezes, ficam por oito ou 15 dias, sentem-se bem aqui".
Novos investimentos
O aumento do número de visitantes sente-se um pouco por toda a vila, nomeadamente entre os comerciantes. O 'Bazar dos 300 e outros', onde o Euro parece ainda não ter aparecido, prepara-se no Verão para a chegada dos turistas, que compram "o necessário, aquilo que se esquecem de trazer" disse à Lusa Olga Fernandes, empregada do estabelecimento.
"Dantes não havia sequer excursões, agora há e vem muita gente. Compensa ter a loja aberta no Verão, porque no Inverno é a morte disto", frisa.
Já na albergaria Lagar do Lago, um empreendimento com seis anos, fronteiro à piscina, fazem-se planos para ampliar as instalações. "Desde o ano passado o movimento cresceu bastante", observa Joaquim Conceição, gerente da albergaria, garantindo que os 11 quartos esgotam no Verão e o edifício "vai ter mais dez quartos".
Também a empresa municipal que gere a praia das Rocas, a Prazilândia, tem contribuído para o aumento do alojamento disponível, contou António Carreira, responsável da empresa.
Quando a reportagem da Lusa chegou à vila, Carreira estava junto ao lago, numa pequena marina onde 'descansam' quatro veleiros, supervisionando os retoques finais para que os barcos possam servir, em Setembro, de alojamento a um máximo de 20 pessoas.
Para além dos barcos - ali colocados com o auxílio de uma grua depois de transportados por estrada - António Carreira aponta os seis 'bungalows', 12 quartos, repletos em Agosto, que contribuem para que a oferta de alojamento em Castanheira de Pera tenha "triplicado".
Há ainda outros investimentos privados, como duas unidades de turismo rural e um parque de campismo em fase final de licenciamento.
Quanto à piscina propriamente dita, António Carreira garante que "não existe nada igual no País", considerando a infra-estrutura como "um fenómeno positivo de interioridade", que tem tido sucesso junto da população e, especialmente, nos visitantes que chegam de todo o País.
"Vêm de todo o lado: do Porto, Povoa do Varzim, curiosamente até de praias como Espinho ou a Figueira da Foz, de Lisboa, Leiria, Marinha Grande e outras localidades do litoral", garante.
Ondas artificiais
A grande atracção da Praia das Rocas são as ondas artificiais, que "aparecem" ao som de uma sirene de aviso, de hora a hora da parte da manhã, ou com intervalos de meia hora durante a tarde, em períodos de sete a dez minutos.
O sistema permite quatro tipo de ondas diferentes, as mais altas, com cerca de um metro, são obliquas, espraiam-se para a piscina contígua "e o barulho que se ouve, quando quebram na margem, é idêntico ao do mar", diz o autarca Fernando Lopes.
Quando a sirene toca é ver centenas de pessoas a correr para o local das ondas, alguns banhistas empunhando câmaras de vídeo ou de fotografia para registar o momento.
Maria da Glória, 44 anos, fez a viagem "de propósito" de Porto de Mós, a cerca de 100 quilómetros, acompanhada de dois filhos e um sobrinho até à praia das Rocas.
É a segunda vez que se desloca, este ano, a Castanheira de Pêra e vem "sobretudo por causa das crianças". Gosta das ondas artificiais, que "só tinha visto uma vez, em Espanha", mas acha que a piscina "não atrai os mais aventureiros".
"Não tem uma prancha e podia ter, na parte mais funda [cerca de 1,9 metros, junto ao local onde as ondas se formam]. E há muito espaço entre as ondas, só de hora a hora não dá luta", diz.
Já Paulo Emiliano, 46 anos, de Cascais, tem casa no vizinho concelho de Pedrógão Grande e revela-se um adepto de praias fluviais: "esta é excepcional, chama muita gente. Castanheira de Pêra é uma vila com pouca gente e nota-se bastante a diferença".
http://www.diarioleiria.pt/10978.htm