este blog é de uma amiga minha, que entretanto foi para Gaia, devido a problemas familiares, fica aqui o blog, que mexeu imenso comigo, principalmente quando li os topicos + antigos, que falavam sobre a pessima situaçao familiar que vivia
http://cheilapacheco.blogspot.com/search?updated-max=2008-05-23T18:43:00+01:00
realço este, que foi o que senti mais:
"Não! Não! Não quero sair da cama... Hoje, vinte de Fevereiro de dois mil e seis, e como todos os dias, o mundo lá fora é assustadoramente perigoso e assim que puser o pé fora desta cama, todos estarão de olho em mim, a reparar em todos os meus defeitos e à espera do próximo erro que eu faça, mas, por incrível que pareça, vão me ajudar a sentir o mais insignificante possível, porque vão ignorar tudo o que eu me der ao trabalho de dizer, por acreditar que é minimamente interessante, e ensinar-me, mais uma vez, que o mais inteligente a fazer é ficar na cama até anoitecer e ser demasiado escuro para que alguém possa ver o meu rosto e demasiado silencioso para eu ter coragem de falar...
Ouço alguém a falar alto fora do meu quarto... Será que fiz algo de mal? De certeza que fiz algo errado... Deixei alguma luz ligada durante a noite? Esqueci-me de fechar a porta do frigorífico? Não olhei pela minha irmã o suficiente e aconteceu-lhe alguma coisa? Não quero sair da cama! Mas tenho medo das consequências desta escolha... Posso fingir uma dor de barriga ou de dentes, mas não consigo. E amanhã só me sentirei culpada e com remorsos e terei ainda menos vontade de ir para a escola, porque a vergonha de me mostrar em público acumular-se-á e crescerá, até que se torne naquele monstro enorme que me acorda durante a noite e me paralisa durante o dia.
Levanto-me, enfrento o frio da manhã, típico daquela freguesia abandonada numa ilha açoriana, onde todos se conhecem, todos sabem de tudo sobre quem quer que seja, todos falam sobre todos, e todos sabem que sou alvo de chacota pelas pessoas da minha idade e todos sabem que sou um exemplo de impopularidade, aos quinze anos... Vergonha das vergonhas, não tenho amigos, estou sozinha. (...)Visto-me depressa porque já é tarde e se perder o autocarro, fico em maus lençóis. Penteio o meu cabelo – mas que caso perdido! Está fraco, seco e sem forma definida... Os meus olhos estão de uma cor negra provocada pelas olheiras, não de uma noite mal dormida, mas de uma pele muito má como a minha. Desço as escadas... O ambiente está pesado. A minha mãe está mal disposta pelo sucedido, o meu pai está com cara de poucos amigos. Nem me atrevo a dizer “Bom dia.”, mas isso só me prejudica, porque um minuto depois estou a levar com gritos que me repreendem por não ter dito nada e me acusam de ser uma mal-educada, ingrata e má filha, porque ele faz tudo por mim e eu só faço algo por ele quando tenho interesse. “Tu não mereces nada”, diz o meu próprio pai. Mas que afirmação que me foi dirigida anos a fio e na qual já acredito tanto que sempre que me dizem que mereço algo, sinto-me falsa, mentirosa, imoral... Por aceitar. Porque não mereço. Porque não presto. E é errado aceitar algo que não se merece. Naquela freguesia, daquela ilha, eu era a pessoa que menos merecia qualquer coisa, por mais insignificante que fosse.
Engulo em seco aquele pequeno-almoço que não mereço de forma alguma, enquanto faço força, sentido um nó na garganta, e olhando sempre para o mesmo local, para evitar que as lágrimas caiam e eu seja chamada de fraca e chorona ou que, mais tarde, se note que estive a chorar. O meu dever é parecer que está tudo bem e que integrei tudo o que me foi dito, naquela tão curta manhã, da melhor forma possível e fazê-lo acreditar que não se volta a repetir e que estou extremamente agradecida pelo aviso que me foi dirigido, porque me tornou numa pessoa melhor."