RTP prepara série sobre o regicídio

Cultura
Regicídio: Fado "Embuçado" é dedicado a D. Carlos que aprendeu a tocar guitarra e gostava de toiradas e fados

Lisboa, 28 Jan (Lusa) - O Rei D. Carlos, assassinado há cem anos, gostava de toiradas e de fados, indo ao encontro de uma tendência cultural das época que visava "revalorizar as coisas nacionais", disse à Lusa o historiador Rui Ramos.

O fado "Embuçado", da autoria de Gabriel de Oliveira, "é uma homenagem ao Rei que ia muito aos fados e tinha até aprendido a tocar guitarra portuguesa com João Maria dos Anjos", disse à Lusa o fadista Miguel Silva, 91 anos, que conviveu com o poeta, falecido em 1953.

"O Gabriel que ficou conhecido aqui na Mouraria [Lisboa] como `Gabriel, marujo` era uma integralista monárquico, e fez o fado para a Natália dos Anjos, que foi sua companheira, cantar, em homenagem ao Rei", disse Miguel Silva.

O tema "Embuçado" tornou-se conhecido na voz de João Ferreira Rosa, que o começou a cantar em 1962, com música de Alcídia Rodrigues, habitualmente designada como "Fado Tradição".

"Quem me deu a letra foi a fadista Márcia Condessa e gravei o fado em 1965, e de facto escolhi pela música do fado Tradição", disse João Ferreia Rosa.

Originalmente, Natália dos Anjos cantava-o na música do "Fado Natália" de autoria de José Marques `Piscalarete`.

O musicólogo Rui Vieira Nery afirmou à Lusa "que há de facto essa tradição oral de que o Rei ia aos fados e há documentação relativamente ao facto de ter aprendido a tocar guitarra portuguesa, ainda na juventude, com João Maria dos Anjos".

"Sabe-se que o Rei ia muito a patuscadas, nomeadamente para a Costa de Caparica, e neste contacto com as classes populares era natural haver fado", disse Vieira Nery.

Não há notícia de alguma vez ter tocado guitarra portuguesa em público, adiantou Nery, mas "sabe-se que aplaudiu entusiasticamente o guitarrista Petrolino, quando este actuou na embaixada inglesa em Lisboa, no âmbito da visita de Eduardo VII".

"Sabe-se também que o próprio Rei chegou a convidar o fadista Fortunato Coimbra para cantar no iate Amélia", acrescentou o musicólogo.

Nesta altura, explicou o investigador, começa a tornar-se hábito, fadistas populares serem "expressamente convidados para actuarem nos palácios dos condes de Anadia, de Burnay, de Fontalva, de Pinhel, da Torre ou do marqueses de Castelo Melhor para além das casa agrícolas de grandes latifundiários como os Palha Blanco ou Camilo Alves".

O historiador Rui Ramos salientou à Lusa que o gosto de D. Carlos enquadra-se "numa viragem no fim do século XIX em que se revaloriza o que é nosso, a vida rural, as toiradas, o fado, etc.".

"D. Carlos está muito identificado com esta tendência. Gosta do Alentejo, de se vestir de lavrador alentejano, gosta de estar e ser um deles, usa até expressões populares nas suas cartas", afirmou Rui Ramos.

Por outro lado, acrescentou o investigador da Universidade de Lisboa, este gosto vem "ao arrepio da tradição da monarquia liberal que é erigida contra a vida marialva que caracterizava a fidalguia, no esteio da fama de D. Miguel I".

"D. Luís, seu pai, não gostava de toiradas que foram aliás abolidas em 1834 pois eram vistas como um desporto bárbaro e que incentivava à ferocidade da população", acrescentou.

Segundo Rui Ramos, biógrafo do monarca, D. Carlos "não tem da vida uma concepção austera ou trágica como D. Pedro V, seu tio".

"Vive de estímulos externos, gosta da vida ao ar livre, gosta de caçadas, vela, nadar, jogar ténis, pratica esgrima, equitação. Não é um intelectual, não tem uma vida interior, no sentido de reflectir muito", disse.

Rui Vieira Nery afirmou que, de facto, o Rei "era dado a uma alegre convivência" e segundo Rui Ramos, D.Carlos gostava de companhias femininas e "teve várias amantes".

"Sabe-se que a partir de dada altura o casal real não tem vida conjugal. Viviam no Palácio das Necessidades [Lisboa] mas separadamente, D.ª Amélia na ala residencial e D. Carlos na ala conventual".

"Relativamente às suas amantes há até documentação, nomeadamente sobre um caso com a mulher do embaixador brasileiro, através dos escritos deixados pelo médico da Corte, Thomaz de Mello Breyner".

Rui Ramos salientou ainda "a dimensão de `dandy` do Rei, sempre vestido `muito à moda`, usava por exemplo chapéu de abas moles, chamado na época `republicano`", afirmou.

"Esta dimensão aproxima-o do Príncipe de Gales, seu contemporâneo", futuro Eduardo VII que visitará Lisboa e ouvirá fado.

NL.

Lusa/Fim

© 2008 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A.
2008-01-28 10:55:21

Em http://ww1.rtp.pt/noticias/index.php?article=322761&visual=26&tema=5

Vila Viçosa, Évora, Jan (Lusa) - A carruagem que transportava o Rei D. Carlos quando foi assassinado há cem anos é o principal atractivo da exposição permanente de carruagens de Vila Viçosa, no Paço Ducal, um núcleo do Museu Nacional dos Coches.

O Landau, antiga carruagem de tracção animal, de quatro rodas, com capota de abrir e fechar e dois bancos frente a frente, onde seguia a família Real quando ocorreu o regicídio, está exposto no Museu de Carruagens da vila alentejana do distrito de Évora.

A carruagem do final do século XIX, na qual são visíveis as marcas das balas, foi fabricada em Portugal.

De acordo com um guia do museu de Vila Viçosa, João Malta, "muita gente desconhece que aquela carruagem está em Vila Viçosa".

Em http://ww1.rtp.pt/noticias/index.php?article=322743&visual=26&tema=5
 
Estamos a escassos dias do centenário do criminoso acto fundacional da república que temos: O assassinato à bala do Rei D. Carlos e do Príncipe Real D. Luís Filipe, em pleno Terreiro do Paço, em Lisboa, quando regressavam, em carruagem aberta, de Vila Viçosa. Foi este acto tão repelente quanto absurdo, pois se destinou a eliminar uma das maiores figuras do seu tempo, pois além de ter sido um Chefe de Estado como em cem anos não voltámos a ter, foi ainda um notável artista, cientista, marinheiro, desportista, lavrador e diplomata.

O seu reinado começou com a humilhação do ultimato britânico, mas prosseguiu com notáveis vitórias militares em África, enquanto em Portugal o Rei travava uma outra batalha diplomática, promovendo visitas de Estado dos dirigentes das principais potências europeias, que terão contribuído para o adiamento do que veio a ser a Primeira Guerra Mundial. Estiveram, assim, em Lisboa, os reis Afonso XIII de Espanha, Eduardo VII de Inglaterra, o Imperador da Alemanha e o Presidente Loubet de França, só para mencionar os mais importantes.


Morto com apenas 45 anos de idade, deixou centenas de desenhos, aguarelas e pastéis de grande qualidade, que chegou a expor e a ver premiados. Foi pioneiro da oceanografia, com o Príncipe Alberto do Mónaco, com quem trocava correspondência científica e efectuou o levantamento das espécies marinhas da costa portuguesa, Madeira e Açores. Fundou o aquário Vasco da Gama no Dafundo, em cujas instalações se encontram ainda vários exemplares, pelo Rei classificados e conservados. Deu grande impulso a vários desportos até então desconhecidos em Portugal, como o ténis e o futebol. Exímio caçador, publicou, com ilustrações do seu mestre Enrique Casanova, um inventário das aves de Portugal. Foi grande lavrador, actividade que muito apreciava e desenvolveu, criando as Ordens do Mérito Agrícola e Industrial. Sob a égide da Rainha D. Amélia, foram criados os Institutos de Socorros a Náufragos e de Assistência aos Tuberculosos, que pela sua importância, ainda se conservam.


Profundamente moderno e liberal, neutralizou um golpe militar contra o desgastado e desacreditado sistema parlamentar, nomeando Mouzinho de Albuquerque educador do Príncipe Real. Fazendo-se eco de toda uma geração ilustre, que ficou conhecida pelos "Vencidos da vida", procurou salvar a Monarquia parlamentar, mau grado as dificuldades criadas pela matéria-prima de que dispunha. Pela pulverização dos partidos políticos e a inerente ingovernabilidade alcançada, dissolveu o parlamento e nomeou João Franco por um período transitório até novas eleições, que estavam já marcadas, quando ocorreu o Regicídio. Houve sempre liberdade de imprensa, largamente aproveitada pelos sete por cento de republicanos existentes, para difamar o Rei, pelos mais mesquinhos e prosaicos motivos.


Volvidos que estão cem anos sobre este infausto acontecimento, todos assistimos já a momentos de instabilidade parlamentar, que forçaram presidentes a demitir e nomear governos (de Ramalho Eanes a Jorge Sampaio), a perseguições a comentadores políticos por delito de opinião e até acabamos de assistir ao assalto pelo governo do último grande banco privado, diz-se que com o objectivo de transferir o respectivo fundo de pensões para a Caixa Geral de Aposentações, a bem do próximo orçamento de Estado. Vemos a nossa liberdade cada vez mais condicionada, seja por imperativos de segurança, seja por ridículas directivas comunitárias, zelosamente aplicadas por novos inquisidores. Falta explicarem-nos como é que a Segurança Social aguentará no futuro, toda a preocupação demonstrada agora com a nossa saúde…


Vivemos, enfim, um século depois do Regicídio, com este terrível dilema entre sermos um país ingovernável, sem maiorias parlamentares, ou um país insuportável, se temos maiorias arrogantes e prepotentes.

http://www.regicidio.org/artigo_vtg_1.htm
 

A acrescentar ao tema da Maçonaria (Grande Oriente Lusitano) não querer assumir responsabilidades na criação, suporte e patrocínio da Carbonária e por consequência dos carbonários dos quais Buiça e Costa eram iniciados.

Do site do Grémio Lusitano (GOL) o negrito e sublinhado é da minha autoria:

Maçonaria e República (1910-1914)

Nos começos do século XX, a aproximação entre Maçonaria e republicanismo foi crescendo. Existiam, sem dúvida, obreiros monárquicos. Mas a grande maioria dos maçons abraçava o ideal republicano. Nada havia de extraordinário nem de condenável neste facto, se fosse possível evitar a identificação entre Maçonaria e Partido Republicano.


Como força de vanguarda, era natural que a Ordem esposasse a causa de vanguarda. Sucedera outro tanto em 1820. Mas o que aconteceu foi recair-se precisamente no erro dos maçons dos começos do período liberal. A Maçonaria portuguesa tendeu a constituir um grupo elitário enquadrante de um partido político. Patrocinou a constituição da Carbonária, alavanca decisiva da Revolução de 5 de Outubro de 1910.

Machado Santos, um dos chefes da Carbonária e um dos chefes do 5 de Outubro, conhecedor dos bastidores do movimento, pôde escrever [A Revolução Portugueza. Relatório, p. 34] que «a obra da Revolução Portuguesa também à Maçonaria se deve, única e exclusivamente».


Esta politização resultou numa multiplicação das iniciações, dirigidas a finalidades que de maçónico só tinham parte. Com a proclamação da República, a Maçonaria passou a ser olhada como qualquer coisa de útil, de pragmaticamente necessário no curriculum do candidato a ministro, a deputado ou a simples funcionário público.


Os seus efectivos duplicaram em poucos anos, de 2000 para 4000 associados, com um correspondente aumento no número de lojas e de triângulos. No Parlamento, metade ou mais de metade dos representantes do povo pertencia à Ordem.


No Governo Provisório (1910-1911), cinquenta por cento dos ministros eram maçons, percentagem que, grosso modo, continuou a existir nos muitos governos republicanos até 1926.


Quanto às presidências, mais de metade dos ministérios foram presididos por maçons e a totalidade do seu tempo de governo elevou-se a nove anos e sete meses, ou seja, mais de 65 por cento do período completo de vigência da República Democrática.


Três presidentes da República - Bernardino Machado, Sidónio Pais e António José de Almeida - pertenciam à Ordem Maçónica. Tal como durante a Monarquia Constitucional, algumas das medidas mais progressistas adoptadas pelo regime republicano tiveram participação das lojas e foram subscritas por ministros maçons.



O âmbito da Maçonaria durante a 1ª República está ainda por determinar cabalmente, mas não parece exagerado afirmar que a história das duas instituições apresenta paralelos do maior interesse e que o declínio de uma correspondeu ou foi, em grande parte, causador do declínio da outra.
Ora, a aproximação entre Maçonaria e Partido Republicano, acentuada desde a proclamação da República, houve de reflectir também as dissensões dentro daquele Partido.



O Grão-Mestre eleito em 1907, Magalhães Lima, era amigo e admirador de Afonso Costa, maçon este também, simpatizando com a ala esquerda do P.R.P. que se colocou sob a sua bandeira. Outro tanto se diria do Grão-Mestre adjunto, José de Castro, figura de relevo dentro do Partido. Quando a cisão entre Afonso Costa e os outros dois maiorais do P.R.P., António José de Almeida e Brito Camacho, se consumou, em Outubro de 1911, o Grande Oriente Lusitano foi arrastado na órbita do primeiro.


Maçonaria (isto é, Grande Oriente Lusitano) e democráticos intensificaram a sua junção. A política da maioria das lojas tendeu a seguir a política radical do Partido Democrático. Acentuava-se, assim, e num sentido perigosamente divisionista e sectário, a politização da Maçonaria, que vinha já de longe. E se as divisões entre grupos republicanos eram de tal ordem que punham em perigo a existência da própria República, não parecia difícil profetizar que, mais cedo ou mais tarde, a Maçonaria portuguesa se dividiria também.
 
Governo proibe participação do exercito nas cerimonias evocativas do regicidio
http://sol.sapo.pt/PaginaInicial/Politica/Interior.aspx?content_id=78185

O assunto foi discutido também na comissão parlamentar de Defesa, onde todos os grupos parlamentares mandataram o presidente, o socialista Miranda Calha, para expressar ao ministro o repúdio pela participação daquelas unidades do Exército em cerimónias não oficiais, para mais organizadas por correntes monárquicas.

Sem qualquer tipo de divergência da linha do pensamento nos diversos grupos parlamentares.
 
Vale a pena pensar sobre isto ..


«O culto dos regicidas»


Após o regicídio de 1 de Fevereiro, as forças radicais desencadearam uma campanha fortíssima do «culto dos regicidas» em que os autores reconhecidos do crime foram glorificados, sem que quaisquer imposições das autoridades o tentassem impedir. Essas manifestações organizadas e persistentes prolongaram-se durante alguns anos, até se esgotarem já depois do 5 de Outubro com a cisão entre as facções do PRP e os choques com os anarquistas.
Como tudo o que resultava da colaboração entre as forças radicais, a campanha foi montada sistemáticamente e com enorme rapidez e poder de mobilização. Quanto menos crédito e verosimilhan*ça tinha a versão do atentado isolado, mais ruidosa se tornava. Alfredo Costa, o jovem caixeiro, e Manuel Buíça, o ex-sargento de Cavalaria tinham sido carbonários, com ligações à loja maçónica loja “Obreiros do Futuro” e fanáticos de António José de Almeida. Tanto bastava para que estas e outras organizações em rede por ela patrocinadas convergissem na manobra do “culto dos regicidas” com uma conivência e passividade do Governo que impressionou os observadores. O PPR aplicava a táctica de Brito Camacho: “Quanto mais liberdade nos derem, mais haveremos de obrigá-los às transigências que rebaixam ou às violências que comprometem.”
Os diários radicais - já sem a censura imposta por João Franco - deploraram o destino dos assassinos e não tiveram palavras de piedade para com as vítimas régias. O Mundo abriu nas suas colunas uma subscrição em favor da viúva e órfãos de Manuel Buiça que rendeu 64 contos de reis, uma quantia ao tempo fabulosa. Houve propaganda levada a cabo nas escolas.Uma subscrição pública foi aberta pela Associação do Registo Civil que patrocinou o funeral dos regicidas; os regicidas foram glorificados, e cobertos de flores os seus covais no cemiterio do Al*to de S. João. Promoveu ainda a construção de um monumento na campa dos mesmos, da autoria de Julio Vaz, em plena via e junto ao túmulo do anarquista Heliodoro Salgado.http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=10172169#_ftn1
O acto culminante da campanha foi o que o Conde de Arnoso chamou «a vergonhosa e vil peregrinação ao cemitério». Associações, grémios, delegados de diversos organismos radicais, redactores de diários das esquerdas desfilaram, previamente convocados, diante dos túmulos dos regicidas, depositando ramos de flores, coroas, e fitas com inscrições laudatórias. Nas montras das lojas da Baixa, em bilhete postal e em retratos, os regicidas tinham lugar de honra. E ainda Museu da Revolução, inaugurado apos a implantação da Republica, o capote de Buiça e as armas que ele e Costa tinham utilizado encontravam-se em exposição como relíquias de dois mártires.http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=10172169#_ftn2
Qualquer regime que se abandona sem defesas, está perdido. A opinião pública constatou que o Governo se abstinha de qualquer censura ou proibição ao “culto dos regicidas” e que os inimigos redobravam de insolencência. A Marquesa de Rio Maior solicitou a Ferreira do Amaral que pusesse termo àquela vergonha. «Agora - respondeu-lhe o Presidente - só penso em acalmar os ânimos». The Times escreveu: «O mundo civilizado observará, provavelmente, que os senhores assassinos é que mandam». A grande massa dos versáteis, num primeiro momento indignados pelo crime, achou inútil mostrar-se mais intransigente que o governo.

Os mais comprometidos nos eventos do 1 de Fevereiro - como José de Alpoim, um dos instigadores do assassinato - mostravam-se em público sem se expôr a incidentes desagradáveis. O regicídio começou a parecer desculpável, a partir do momento que o governo, apesar de instaurar o processo, renunciava à retaliação política (96).


Mas se o culto provocador dos regicidas desmobilizou boa parte da opinião pública e impressionou o mundo político, em contrapartida exasperou sectores que sempre tinham revelado lealdade ao rei, nomeadamente o exército. Correram rumores de golpe entre os oficiais das guarnições de Lisboa, exasperados com a inacção do poder e com as provocações sucessivas. A unidades foram confinadas nas casernas e ninguém surgiu a liderar o movimento. Talvez por isso, algumas semanas após o atentado uma centena de oficiais e sargentos foram saquear os escritórios do jornal O Mundo, abertamente republicano. Se D. Manuel II tivesse legitimidade para contrariar a politica do governo e agisse resolutamente contra as froças radicais orquestradas pelo PRP, decerto teria o apoio de todo o exército. Os quadros subalternos do exército, em particular, ficaram desiludidos com a inacção e foram aliciados para a causa da revolução onde se iriam distinguir os sargentos na Rotunda.



Dossier Regicídio: Um crime infame


Na história de Portugal, o regicídio de 1 de Fevereiro de 1908 é o passo decisivo para a revolução de 5 de Outubro de 1910 sendo, ainda hoje, objecto de repulsa pela maioria da população. Conforme sondagem recente da UCP (2002), 76.5 % dos inquiridos considera-o “um crime horroroso”, 18,8% “um mal necessário” e 4,6% “uma coisa boa para o país”. Os tempos mudam. Há cem anos atrás, o crime terrorista e a campanha de apoteose dos regicidas que se lhe seguiu, organizada pelas associações republicanas, foi um modelo para a “balbúrdia sanguinolenta” da 1ª República, entre cujas centenas de mortos em atentados tombaram um dos seus presidentes, em 1918 Sidónio Pais, e em 1921 Machado Santos, António Granjo e Carlos da Maia, seus fundadores, por mandato da loja Madrugada.
A conjuntura da tragédia do Terreiro do Paço é bem conhecida.
Em Janeiro de 1908 o presidente do Conselho, João Franco, confiava ter alcançado os objectivos da sua “ditadura” administrativa, tanto assim que marcara eleições para o próximo mês de Abril. Estimava enfraquecidos os oposicionistas monárquicos que dele troçavam, atirando-lhe o nome que, após o 5 de Outubro os envolveria, a todos, no mesmo desdém: Talassa!. Quanto aos republicanos, estava informado pela polícia que preparavam a revolução, em conjunto com os monárquicos dissidentes e o apoio de associações secretas, nomeadamente a então muito mal conhecida Carbonária. João Franco confiava que, caso os conspiradores viessem para a praça pública, sufocaria a revolta, o que efectivamente veio a suceder. Uma vez exilados os seus dirigentes, o Partido Republicano levaria anos a refazer-se.
Por seu turno, os conspiradores republicanos e “buissidentes” não podiam permitir a realização de eleições nem o regresso à normalidade constitucional sem se confessarem vencidos. Conspiravam activamente, o que fazia aumentar as hostes, para uma sublevação geral aprazada para 28 de Janeiro de 1908, aproveitando a ausência de D. Carlos em Vila Viçosa. A colaboração foi acompanhada de ordens dadas à Carbonária para assassinar João Franco e o rei, dando corpo a sugestões que vinham de longe e do alto, tomadas em reuniões de Paris, em Novembro de 1907. Em nota do Partido Republicano, publicada a 26 de Janeiro de 1908, dizia-se: «O Directório republicano julga necessário, neste momento de sobre-excitação, declarar bem alto, em contraposição aos ditadores, que o que ele, com o seu partido quer, é suprimir opressões e não os homens do regime.» Pretendia-se travar o crime em preparação ou alijar responsabi¬lidades futuras? O certo é que a referência à supressão dos homens do regime revela a existência desses planos.
Descoberta a revolta, os dirigentes foram presos, ou fugiram, e reprimiram-se atentados em sete ou oito locais de Lisboa. A 31 de Janeiro o rei assinava, em Vila Viçosa, um decreto permitindo o exílio dos cabecilhas capturados. Foi a última assinatura política de D. Carlos. No dia seguinte regressou a Lisboa e foi assassinado logo após o desembarque, juntamente com o Príncipe Real D. Luís Filipe. D. Manuel ficou ferido. João Franco escapou ileso. Confiara demasiado em que o apoio da «maioria silenciosa» e do rei desmobilizasse a conjura? Ou o simples acto do rei de se querer deslocar em carruagem aberta e sem escolta nessa tarde desafiou o destino? Certo é que os carbonários visaram o elo mais forte. Sem o rei, João Franco não tinha base política. O regicídio foi um ataque cirúrgico ao regime. D. Manuel II, um jovem de 18 anos, sobrevivera ao atentado, mas não sobreviveria aos políticos monárquicos que, de bom ou mau grado, escolheu para os seus ministérios.

Em torno deste acontecimento do 1 de Fevereiro, a historiografia actual tem traçado um panorama extraordinariamente rigoroso da primeira década do séc. XX em Portugal, e em particular dos frenéticos anos de vida pública que decorrem desde o governo de João Franco em Maio de 1906 até ao 5 de Outubro de 1910. Está provada a deliquescência de uma sociedade, para a qual a mudança de regime facilmente se tornou um sebastianismo, e um aliciante tão forte que tomou foros de religião política, pese embora a República não ter sido o D. Sebastião que se esperava. Ou foi mesmo, para mal dos pecados do sebastianismo. O regicídio acelerou a marcha para o 5 de Outubro. Os monárquicos aliavam-se pontualmente aos republicanos e estes aos anarquistas, através de associações secretas como a Maçonaria irregular e a Carbonária. Os governos sucediam-se, mas sabia-se e sentia-se que quem mandava eram outras forças, sem faltar a “permissão de Sua Majestade” britânica.
Contudo, permanece ainda oculta a trama exacta que conduziu ao assassinato da família real e que, segundo todos os indícios, foi um movimento premeditado juntamente com o golpe frustrado do 28 de Janeiro. Como escreveu Assunção Araújo “do ponto capital do prblema, como seja a sua tenebrosa concepção, as actividades e identidade dos conjurados e os nomes dos indivíduos relamente regicidas, quase nada ao país foi dado conhecer”. Por esta mesma razão é que as autoridades judiciais e policiais competentes - o Juízo de Instrução Criminal - levantaram um processo a partir de 7 de Fevereiro de 1908 e que foi completado e entregue a 27 de Setembro de 1910 ao Presidente do Conselho, Teixeira de Sousa. Este não o quis levar a juízo por recear perder o apoio dos dissidentes monárquicos que os autos demonstravam estar implicados no crime. Estava-se a uma semana da revolução. A república triunfante mandou arquivar o processo porque as revoluções nunca confessam os meios que servem os seus fins.
Jamais se conhecerá a verdade exacta sobre o regicídio. Mas cum¬pre averiguar, com objectividade, como se comportaram perante o grande crime as entidades implicadas na investigação no reinado de D. Manuel II - Tribunais, Polícias, Governo, Parlamento, Imprensa, Partidos - e quais as respectivas diligências para apurar a verdade. A monarquia constitucional era um Estado de Direito. Por isso este Dossier do Regicídio foca a actuação do Juízo de Instrução Criminal e dos seus juízes Alves Ferreira, Sousa Monteiro e Almeida Azevedo bem como Abílio Magro e outros agentes que levaram por diante as investigações, contra contratempos e bloqueios.
Contudo, do que se conhece dos autos do processo, não consta a identidade completa dos regicidas; nem os nomes de outros indivíduos que lhes guardaram a acção assassina e a retirada; nem quem concebeu o atentado; nem quem ordenou a sua execução, nem donde veio o financiamento. Todas essas revelações não constam dos autos do processo, removido dos olhares dos portugueses em circunstâncias de que adiante falaremos. Mas a história do regicídio está escrita fora desse autos em papéis, jornais e documentos decantados ao longo de cem anos de história, “cem anos sem rei”, em que cumpre destacar o papel de Assunção Araujo e Rodriugues Cavalheiro, que escreveu: “As realidades que vou revelar através destas págians produzirão sem duvida uma certa sensação no espírito público,,,,

Durante 32 meses da história de Portugal, o regicídio tornou-se a grande arma de arremesso político. Foi utilizado por todas as forças para se acusarem mutuamente, incitar ou perturbar a marcha da justiça e, numa dezena de casos, determinou assassinatos políticos; as vendettas da Carbonária deixaram para trás o rasto de sangue dos cadáveres de Eduardo da Silva, Joaquim Lima, Alberto Costa, Nunes Pedro, Ruy Salgado, e mais alguns “casos escuros”. Houve também os que se bateram na época, para que emergisse essa verdade: o conde de Arnoso; o padre Lourenço de Matos; o escrivão Abílio Magro e o juiz Almeida Azevedo, os jornalistas Álvaro Pinheiro Chagas e Homem Cristo, e poucos mais. Foi um processo do Juizo de Instrução Criminal mas que também corria na imprensa, espartilhada por grupos políticos e financeiros; nos governos, onde os ministros se dividiam quanto ao apuramento da verdade; na maçonaria irregular com adeptos republicanos e monárquicos; na Carbonária, cuja organização secreta foi descoberta no meio do processo e cujo desvendamento acelerou o 5 de Outubro.

SomosPortugueses.com
 
Estou curiosíssimo por ver o que a RTP vai dizer acerca deste tema...

É curioso que os que gostam de atacar os ideais monárquicos, normalmente sem substância, não trocam agora opiniões sobre os factos históricos que ora regressam à tona!...
 
...não trocam agora opiniões sobre os factos históricos que ora regressam à tona!...


Não sendo um monárquico dos Sete Costados, foi sempre sobre factos históricos e uma perspectiva mais desapaixonada, que tentei ver as razões do Regicido.
Da mesma Forma que tentei ver sempre o Assassinato dos Romanov
Sob uma perspectiva histórica e factual.

O que existe quase sempre, é uma mão cheia de arrivistas e anarquistas que tentam sempre levar a crer aos menos cultos, aos mais carenciados, que o sistema que irão implemantar será o melhor para todos.

Normalmente vendem um logro que demora anos a ser desmontado, e acaba por ser penalizador a longo prazo, para todos os que acreditaram em mudanças ... para melhor. :sh)
 
Não sendo um monárquico dos Sete Costados, foi sempre sobre factos históricos e uma perspectiva mais desapaixonada, que tentei ver as razões do Regicido.
Da mesma Forma que tentei ver sempre o Assassinato dos Romanov
Sob uma perspectiva histórica e factual.

O que existe quase sempre, é uma mão cheia de arrivistas e anarquistas que tentam sempre levar a crer aos menos cultos, aos mais carenciados, que o sistema que irão implemantar será o melhor para todos.

Normalmente vendem um logro que demora anos a ser desmontado, e acaba por ser penalizador a longo prazo, para todos os que acreditaram em mudanças ... para melhor. :sh)
Pois é...
 
É curioso que os que gostam de atacar os ideais monárquicos, normalmente sem substância, não trocam agora opiniões sobre os factos históricos que ora regressam à tona!...

quais ideais monárquicos? os que dizem que "há pessoas melhores do que outras à nascença"? [:vm)]

viva a igualdade de direitos!
 
Também não me apetece ser súbdito de ninguém...
Viva a República !

Viva a República!

Mas o assunto aqui em discussão não é a restauração da monarquia mas sim o culto aos regicidas e o encobrimento republicano [SIZE=-1]à[/SIZE] verdade dos factos de 1908 e pior que isso o virar de costas a um crime violento que mais que tudo é a antítese daquilo que é democracia e liberdade.

Por exemplo o famoso escritor Aquilino Ribeiro esteve imiscuido com os carbonários, com o movimento conspirador, conheceu os regicidas e sobreviveu a uma explosão quando os seus compinchas democratas preparavam bombas feitas de prego de sapateiro e ferragens e hoje em dia encontra-se no Panteão Nacional entre os heróis nacionais!
 
quais ideais monárquicos? os que dizem que "há pessoas melhores do que outras à nascença"? [:vm)]

viva a igualdade de direitos!


Bravo Luis Capelo ...

Mas já que estamos Off Topic e não se fala do assassinato, do crime , do homicidio ... e fazendo fé nas tuas palavras, do todos serem iguais, que são direitos consignados da Rep. Portuguesa ... vale a pena relembrar :


Constituição da República Portuguesa


Artigo 9.º
(Tarefas fundamentais do Estado)
São tarefas fundamentais do Estado:

a) Garantir a independência nacional e criar as condições políticas, económicas, sociais e culturais que a promovam;


b) Garantir os direitos e liberdades fundamentais e o respeito pelos princípios do Estado de direito democrático;


c) Defender a democracia política, assegurar e incentivar a participação democrática dos cidadãos na resolução dos problemas nacionais;


d) Promover o bem-estar e a qualidade de vida do povo e a igualdade real entre os portugueses, bem como a efectivação dos direitos económicos, sociais, culturais e ambientais, mediante a transformação e modernização das estruturas económicas e sociais;


e) Proteger e valorizar o património cultural do povo português, defender a natureza e o ambiente, preservar os recursos naturais e assegurar um correcto ordenamento do território;


f) Assegurar o ensino e a valorização permanente, defender o uso e promover a difusão internacional da língua portuguesa;


g) Promover o desenvolvimento harmonioso de todo o território nacional, tendo em conta, designadamente, o carácter ultraperiférico dos arquipélagos dos Açores e da Madeira;

h) Promover a igualdade entre homens e mulheres.


Artigo 12.º
(Princípio da universalidade)
1. Todos os cidadãos gozam dos direitos e estão sujeitos aos deveres consignados na Constituição.

2. As pessoas colectivas gozam dos direitos e estão sujeitas aos deveres compatíveis com a sua natureza.
Artigo 13.º
(Princípio da igualdade)
1. Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei.


2. Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual.


Artigo 16.º
(Âmbito e sentido dos direitos fundamentais)
1. Os direitos fundamentais consagrados na Constituição não excluem quaisquer outros constantes das leis e das regras aplicáveis de direito internacional.


2. Os preceitos constitucionais e legais relativos aos direitos fundamentais devem ser interpretados e integrados de harmonia com a Declaração Universal dos Direitos do Homem.


Artigo 17.º
(Regime dos direitos, liberdades e garantias)
O regime dos direitos, liberdades e garantias aplica-se aos enunciados no título II e aos direitos fundamentais de natureza análoga.



Artigo 21.º
(Direito de resistência)
Todos têm o direito de resistir a qualquer ordem que ofenda os seus direitos, liberdades e garantias e de repelir pela força qualquer agressão, quando não seja possível recorrer à autoridade pública.





Artigo 22.º
(Responsabilidade das entidades públicas)
O Estado e as demais entidades públicas são civilmente responsáveis, em forma solidária com os titulares dos seus órgãos, funcionários ou agentes, por acções ou omissões praticadas no exercício das suas funções e por causa desse exercício, de que resulte violação dos direitos, liberdades e garantias ou prejuízo para outrem.
Oh Luis Capelo consegues mostrar um artigo onde a REPUBLICA PORTUGUESA, não tenha já atropelados os direitos, liberdades e garantias dos seus cidadãos.

Eu garanto-te que diáriamente UM SÉCULO APÓS o crime de regicidio a REPUBLICA ainda faz tábua rasa (em alguns aspectos) dos seguintes:


Artigo 9º

Artigo 12º

Artigo 13º

Artigo 16º

Principalmente estes, os outros dou-te de bonus ...
 
Última edição:
Centenário do regicidio

Centenário do regicidio

Lembremos os 100 anos do assassinato do Rei D. Carlos I e do Príncipe Real D. Luís Filipe!

Amanhã ás 17.00h!
 
Por "lembremos" queres dizer "prestar homenagem" ou "celebrar"?

Quero dizer "prestar homenagem".

Sem querer entrar em polémicas, apenas digo que um pais que se esquece do seu passado não tem futuro.

Não é à toa que nas sondagens uma elevada percentagem de pessoas preferiam ser espanhóis!

É engraçado vermos que os outros povos da península tudo fazem para serem mais autónomos e, quem sabe, independentes! Enquanto que nós vamos no caminho oposto!
 
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