«No breve reinado de D. Manuel II (1908-1910) rende-se gradualmente a monarquia perante as investidas dos republicanos. Em 1910 (5 de Outubro) abolia-se enfim a realeza.
Fez-se então uma verdadeira República?
Não se fez.
Fora prematuro, sem dúvida alguma, o socialismo de Antero de Quental, pois que, antes de revolucionar de uma maneira profunda o regime social da produção, é necessário possuir-se algum que produza com um mínimo de eficácia, e era isso o que faltava entre nós; a propaganda republicana, porém, surgira abstracta e atrasada, não somente em relação a Antero, mas em relação a um Herculano e um Garrett.
Não passava de formalismo político (de simples negação, por assim dizer, da monarquia e do clericalismo) sem conteúdo concreto reformador na economia e na educação.
Nem se aperfeiçoou a economia existente, nem se democratizou realmente nada; nenhum dos factores de importância básica na vida económica e moral (como a propriedade, o crédito, a educação ou a assistência) sofreu as reformas que se faziam mister segundo o espírito da democracia, nem se abriram campos de actividade útil ao trabalho agricola e industrial (reforma agrária e da técnica agrícola; aproveitamento da água dos rios na rega dos campos e na energia eléctrica; democratização do sistema creditário; fomento e protecção das instituições económicas populares, etc.), - reformas que favorecessem, enfim, a passagem do oligarquismo e comunitarismo do Estado a um regime progressivo de que beneficiasse o povo.
Graças, sobretudo, aos protestos dos verdadeiros democratas e à atmosfera de hostilidade que desses protestos se havia formado, surgiu a revolta militar de 28 de Maio de 26.
Aproveitando-a no sentido dos seus interesses, o reaccionarismo tomou conta do Poder, esbanjou os dinheiros públicos em benefício de grupos de oligarcas, esmagou com impostos a população, realizou as obras para propaganda que empreendem sempre as ditaduras, estabeleceu uma apertada censura à imprensa e uma polícia política inquisitorial, esbulhou e dissolveu as associações operárias de livre iniciativa dos trabalhadores e reduziu estes à impotência, por meio da completa subordinação ao Poder a que se chamou regime corporativo do Estado, ou Estado Novo.
Socialmente, o resultado ponderoso da ditadura (que teve como técnico orientador o advogado Quirino de Jesus) foi o de suscitar, como reacção, uma considerável corrente comunista.»
António Sérgio In «Breve Interpretação da História de Portugal» 1977