Republicanismo estúpido!
15:15 | Quinta-feira, 7 de Fev de 2008
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Um voto de pesar pelo falecimento do rei D. Carlos, apresentado pelo monárquico Pignatelli Queirós foi rejeitado pela Assembleia da República, por toda a esquerda portuguesa, sob o pretexto de que uma eventual aprovação seria como que reescrever a História, como apressadamente disse o senhor Alberto Martins, como se o próprio não tivesse já reescrito a sua. Por vezes pergunto-me se os nossos honoráveis deputados serão deste planeta.
Alguns vieram do Jurássico, concerteza ou vivem nalguma galáxia distante da Via Láctea. Como é possível que um singelo voto de pesar pela morte do único Chefe de Estado português assassinado em 865 anos de história se confunda com um voto pela causa monárquica? Será que nem sequer somos capazes de honrar um homem nosso que, segundo as palavras lúcidas de Cavaco Silva foi "um dos governantes que mais fizeram para projectar o nome de Portugal no estrangeiro"? De facto, foi-o.
Muito mais do que alguns estúpidos republicanos que por aí pululam pensando que são assépticos e criaturas eleitas de Deus. Durante o reinado de D. Carlos, este rei era pintado como um porco pronto para a matança com o beneplácito do próprio. No entanto, mal a República se instalou ninguém podia, por exemplo, pintá-la como uma megera. A República impôs o pensamento único e, desde então, tornou-se um tabu pensar-se fora dela. Aliás, foi esta atitude exclusiva e estúpida uma das razões do 28 de Maio de 1926.
Mas, a acreditar numa máxima da República, esta não tem em si mesma a capacidade de tolerar a diferença e aceitar a diversidade? Eu sou Republicano, mas não sou mentecapto. Na verdade, mais uma vez a esquerda portuguesa se vê amarrada às suas próprias contradições sócio-históricas e ideológico-filosóficas insanáveis. Esse mesmo Parlamento, pela voz do seu então presidente, Almeida Santos proibia (!) que os deputados portugueses se encontrassem, em Novembro de 2001, com o Dalai Lama, Prémio Nobel da Paz e líder espiritual Tibetano, acagaçados com a reacção da República Popular da China, arauto dos direitos humanos e país onde mais pessoas são executadas anualmente, com um tiro na nuca ou com uma corda ao pescoço.
É, o mesmo Parlamento que, aquando da visita do Primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, em 9 de Dezembro de 2005, ficou queda e muda. E é o mesmo Parlamento que subscreverá por unanimidade um voto de pesar quando falecer o Rei de Espanha ou alguém muito próximo da Corte espanhola. Quando um voto de pesar pela morte de Fidel Castro for rejeitado pela Direita, sempre quero ver a cara de virgem ofendida do PCP!
Definitivamente, este Parlamento está a aproximar-se demasiado daquele outro dos finais do Século XIX, totalmente desacreditado e que fez as delícias de Ramalho Ortigão nas suas "Farpas".
Sinceramente, tenho saudades do parlamentarismo português pós-revolucionário, um manancial fervoroso de ideários, um alfobre de descobertas, de discussões elevadas, de honra e de glória cheio de pessoas cultas do melhor da nossa intelectualidade política. Naquele tempo, ser deputado era uma honra e conferia um prestígio considerável. Hoje, afora algumas honrosas excepções o Parlamento está obstipado com deputados imberbes recém-saídos do colégio ou outros que da vida, apesar de viajados, têm a cosmovisão intelectualmente paroquial, doméstica e rural do bairro onde nasceram ou da aldeia que os pariu, e cuja sapiência cabe perfeitamente num papel de formato A4 e letra Times New Roman, corpo 12, mas cujas mordomias eu pago sem que ninguém me explique o porquê da (fraca) qualidade do seu desempenho.
Armando Sousa e Silva, Espinho