Eu entendo perfeitamente que seja uma crença. Admito perfeitamente que as pessoas necessitam de apoios espirituais nas suas vidas. A Espiritualidade é inerente ao Ser Humano, isso não o nego de forma nenhuma. Mas o que me custa aceitar é que a forma de abraçar a espiritualidade de cada um seja feita necessariamente através do misticismo religioso, seja ele feito de crenças simples, seja ele feito de fés religiosas organizadas. Eu defendo outro tipo de espiritualidade. Uma espiritualidade laica, digamos.
Dito de uma forma porventura simplista, a Espiritualidade Laica é a preocupação pelos valores e pelas ideias em oposição à preocupação pelas coisas. A Espiritualidade Laica pensa o Ser Humano no domínio do que escapa ao concreto, mas não necessita de utilizar uma moldura religiosa para o fazer. É uma visão do mundo que retira às religiões o monopólio do espírito, conferindo ao Homem a possibilidade de advogar valores e normas de conduta sem imposições divinas. Reconhece a existência de algo maior que o Homem, algo que dê sentido à sua vida e ao mundo que o rodeia, mas não lhe dá um nome e não o confunde com divindade nenhuma. É uma simples constatação da nossa pequenez. Para um crente a espiritualidade transforma-se em misticismo e tem um objecto e um fim conhecido, que será Deus. A espiritualidade nesse caso é portanto um diálogo onde o divino alimenta o crente e lhe transmite valores que supostamente existem por si próprios desgarrados da pessoa humana, sendo portanto infundidos através da sua fé. Já na Espiritualidade Laica a “verdade” não nos é revelada. Pelo contrário, a verdade não existe. É uma busca. Mas uma busca esclarecida.
E convém referir que a Espiritualidade laica não é propriamente uma moral, e não é com certeza moralista porque não impõe condutas de costumes, não julga a riqueza, não prega a virtude da pobreza, não se pronuncia sobre questões de identidade de género, etc, porque enfim, essas não são na verdade questões de índole espiritual. Ao contrário de muitas religiões! Em suma, a Espiritualidade Laica é a tradução não religiosa das grandes inquietações humanas, e parece-me ser uma resposta muito mais coerente com as celulazinhas cinzentas que Deus nos deu (brincadeirinha, eheh) do que o simples acreditar de fé.
rapidamente, muito rapidamente
nem todas as religiões pregam a virtude da pobreza, aliás creio bem que a grande maioria não o faz, mesmo dentro do cristianismo há as teologias da prosperidade que afirmam que a riqueza é um sinal da bênção de Deus, IURD e coisas assim
a pobreza em si não é virtude nenhuma, o que é virtude é a caridade, ou seja o amor ao próximo que nos leva a partilhar aquilo que temos, para que não falte o essencial aos mais desfavorecidos.
Isto sim é típico do cristianismo e é uma das razões porque existe solidariedade estatal nos países que foram de maioria cristã, mesmo que agora já não sejam essa virtude/valor social penetrou na cultura
na india e noutros países asiaticos isto ocorre em menor grau e é uma das razões pelas quais que partidos mais à esquerda, que apelam a uma maior solidariedade social, têm fraca votação nesses países
li algures que na india esses partidos só tinham votações mais expressivas nas zonas de maior influencia cristã
o japão desde que tem eleições esteve quase sempre no poder um partido de direita, creio que o equivalente ao PS, só esteve por lá no poder uns 2 anos e já há eleições há cerca de 70 anos
por isso é um bocado caricato ver por cá os partidos de esquerda a combaterem acirradamente a influencia cristã, talvez porque sentem que em grande parte o seu eleitorado é erodido por essa influencia, mas não tendo a consciência de que se a matriz cristã desaparecer, eles desaparecem por arrasto em poucas décadas
o marxismo foi (está morto, embora ainda não o saiba) uma espécie de heresia cristã, algo dependente de uma matriz cultural cristã, mas com feições ateias, ou seja depende dos valores cristãos, mas repudia a mensagem espiritual. o comunismo existe, nos mosteiros, praticado voluntariamente, não imposto pela força a povos inteiros
a espiritualidade sem igreja, é um sintoma do individualismo reinante
subjacente está uma recusa da fraternidade, do reconhecer o outro como nosso igual
é também uma redução de deus a um papel ausente, distante
conduz à solidão, tão característica dos tempos
a pertença a uma igreja é um fortíssima fator de socialização
outro ponto positivo é que a especialização dos tempos atuais deixa as pessoas sem tempo para pensarem noutros assuntos, o que conduz a um pensamento religioso muito primitivo, muito básico, o que aliás se pode ver neste tópico, as igrejas têm a vantagem de terem uma acumulado de pensamento e reflexão sobre Deus, a espiritualidade muito grande, logo mais profundo